Qual é a diferença entre nós? – Parte 1

Quinta-feira. Por volta das uma hora da manhã, ela chegou a casa às pressas, toda encharcada da chuva torrencial que se fazia lá fora. Tirou as sandálias e deu umas balançadas, fazendo cair pingos e pingos d’água. Com seus delicados passos foi sorrateiramente até o banheiro. Acendeu a luz e deu de cara com seu reflexo no espelho. Riu de seu estado até seus pensamentos a fazerem pensar que não havia motivos pra rir. Então, o tempo fechou novamente em sua face e desviou os olhos de si. Tirou a camisa de seda que vestia e que há algumas horas atrás era branca… Agora tinha tomado um tom diferente, não tão branco quanto antes. Jogou a camisa no chão e ficou olhando-a ali, toda esparramada. “- Qual é a diferença entre nós?”. Pensou. Respirou fundo. Como num espanto, lembrou-se de um bilhete que havia guardado no bolso da calça. Mas qual bolso? Foi tateando bolso a bolso, até por fim encontra-lo esmigalhado. Estendeu a mão aberta na altura dos ombros e contou: Um… Dois… Três… Quatro… Cinco… Seis pedacinhos. “- Será que quando secar vai dá pra colar?”. Pensou. Os olhos correram pra camisa no chão e depois voltaram aos pedacinhos na mão. “- Qual é a diferença entre nós?” Pensou outra vez. Deslizou os dedos da outra mão entre os cabelos e parou-os na bochecha, com a palma da mão no queixo e o polegar na outra bochecha. Ficou mais um tempo olhando os pedacinhos, como quem procurava uma resposta. Por fim, levantou a tampa do vaso e os jogou de uma só vez. Ficou viajando olhando-os girar após a descarga, até sumirem de vez. Agora sua atenção era naquela calça, que só pra vestir já tinha sido uma luta. E agora com ela toda encharcada? Não era gorda, mas seu número tinha aumentado um pouco e mais um pouco uma semana depois que a comprou. Desabotoou e respirou fundo. “- Saia desse corpo que não te pertence”. Brincou aos risos. Puxava com tanta força, que seus dedos chegaram a ficar avermelhados. Com muita luta, conseguiu tirar. Riu da própria situação, mas, mais uma vez deparou-se com seu reflexo no espelho. “- Está olhando o que? Eu já sei!”. Falou num tom bem sério e uma cara de quem estava pronta para uma guerra. Ficou um tempo se encarando, até que então, mais uma vez o tempo fechou em seu rosto. Desviou o olhar pra calça e a camiseta… Parecia um corpo estirado no chão e sem cuidado algum, ela pisou e pisou mais uma vez fazendo seu trajeto até o chuveiro. Ergueu na altura dos ombros a mão aberta, enquanto abria a torneira e olhava pros pequenos buraquinhos do chuveiro. Assim que a água caiu, fechou os olhos e ficou sentindo a água lhe percorrer o copo. Aproveitou pra chorar, assim não saberia o que era lágrima ou água do chuveiro. Mas, o que ela e o chuveiro não tinham em comum, era que o chuveiro não soluçava.

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Um pensamento sobre “Qual é a diferença entre nós? – Parte 1

  1. Ai que triste isso…
    É uma realidade, mas é triste demais chorar sozinha no chuveiro =/

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