Qual é a diferença entre nós? – Parte 3

Desligou o computador, levou o copo até a cozinha e voltou pro quarto. Pegou a toalha e foi até o banheiro. Colocou-a estendida no ferro da cortina, foi até a pia e de cabeça baixa pra não encarar-se. Olhava pras mãos completamente ensaboadas, a ponto de parecerem um enorme par de luvas de sabão. Enxugou-as. Foi inevitável não se olhar quando foi abrir o pequeno armário pra pegar a escova de dente e a pasta. Era esse armário que segurava o espelho à sua frente. Já se encarou vendo aquele inverno, tão frio que chegou a sentir calafrio. Parecia ter ouvido seu reflexo perguntar: “- Qual é a diferença entre nós?”. “- Mas que diabos! Sai da minha cabeça!”. Gritou uma voz dentro de si. Abriu o armário, pegou a escova e a pasta, e sem fechá-lo, começou a escovar os dentes… Uma… Duas… Três vezes. Apagou as luzes, fechou o armário sem olhá-lo e voltou pro quarto. Trancou a porta, apagou as luzes, ajoelhou-se na lateral da cama, apoiou os cotovelos, juntou as mãos, abaixou a cabeça e fechou os olhos. Rezou. Outra vez. Mais uma. Finalizou. Deitou na cama. A cada minuto que passava, estava numa posição diferente e os pés inquietos na cama, independente da posição que estivessem. Os braços, às vezes jogados ao rosto, esticados, comportados… Inquietos. “- Fiz de tudo pra ser do seu jeito… Na maioria das vezes era tudo como queria. Diversas vezes mudei e hoje vejo que praticamente pra nada. Agora fico aqui me remoendo por isso tudo, sem saber exatamente onde foi que eu errei e me perguntando… Qual é a diferença entre nós?”.  Voavam seus pensamentos. Levantou e sentou-se na beirada da cama, com os cotovelos apoiados nos joelhos e o rosto mergulhado nas mãos. “- Saudade de quando chamava de meu, de quando sabia quem era eu. Saudade das tardes não tão ensolaradas, a gente na mesma toalha como se fossemos um só. Saudade de sentirmo-nos presos a nós e a tua fala mansa me ninando aqui no pé do ouvido. Saudade de quando era só meu o seu coração ou quando ainda conseguia esconder… Que não era só meu”. Lembrou. Era o que tinha escrito mais cedo naquele bilhete, que em seis partes se afogou no banheiro. Levantou, acendeu as luzes, pegou um papel e uma caneta e escreveu tudo de novo. Dobrou-o e colocou do lado do monitor. Ficou de frente para o espelho e foi lentamente olhando-se dos pés a cabeça. “O que ela tem que eu não tenho?”. Pensou. Talvez ficasse melhor: “O que ela tem que eu nunca tive?”. Aí sim, quem sabe, a pergunta ideal para inúmeras respostas.

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Um pensamento sobre “Qual é a diferença entre nós? – Parte 3

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