Qual é a diferença entre nós? (O outro lado) – Parte 1


Quinta-feira. Por volta das uma hora da manhã, ele chegou a casa às pressas, todo encharcado da chuva torrencial que se fazia lá fora. Tirou o par tênis e deixou-os no tapete da porta. Correu até o banheiro pra evitar molhar o chão. Acendeu a luz e deu de cara com seu reflexo no espelho. Riu de seu estado até seus pensamentos o fazerem pensar que não havia motivos pra rir. Então, o tempo fechou novamente em sua face e desviou os olhos de si. Tirou a camisa social que vestia e pretendia usar de novo no dia seguinte… Agora, só usaria na próxima semana, depois que a lavasse. Jogou a camisa no chão e ficou olhando-a ali, toda esparramada. “- Qual é a diferença entre nós?”. Pensou. Respirou fundo. Como num espanto, lembrou-se do maço de cigarros que estava no bolso da calça. Mas qual bolso? Foi tateando o bolso, até por fim encontra-lo todo amassado. Estendeu a mão aberta na altura dos ombros e contou: Um… Dois… Três… Quatro… Cinco… Seis cigarros quebrados. “Quando secar dá pra encaixar no filtro”. Pensou. Os olhos correram pra camisa no chão e depois voltaram aos cigarros quebrados na mão. “- Qual é a diferença entre nós?”. Pensou outra vez. Passou a mão nos cabelos, deslizando na testa e pela lateral esquerda do rosto. Ficou mais um tempo olhando os cigarros quebrados, como quem procurava uma resposta. Por fim, levantou a tampa do vaso e os jogou de uma só vez. Ficou viajando olhando-os girar após a descarga, até sumirem de vez. Agora sua atenção era naquela calça. Não era gordo, mas calça skinny já é apertada… Imagina molhada. Por mais que já fosse bem antiga, ainda era meio apertada. Desabotoou e respirou fundo. Puxava com tanta força, que perdeu o equilíbrio e caiu no chão. Ria e ria da própria situação. Até então, nunca tinha caído daquele jeito sem estar bêbado. Foi a primeira vez sóbrio. Quando se levantou, deparou-se com seu reflexo no espelho. “O que olhas? Eu já sei!”. Falou num tom bem sério e uma cara de quem estava pronto para subir num octógono e disputar pelo cinturão. Ficou um tempo se encarando, até que então, mais uma vez o tempo fechou em seu rosto. Desviou o olhar pra calça e a camisa… Parecia um corpo estirado no chão e sem cuidado algum, ele pisou e pisou mais uma vez fazendo seu trajeto até o chuveiro. Ergueu na altura dos ombros a mão aberta, enquanto abria a torneira e olhava pros pequenos buraquinhos do chuveiro. Assim que a água caiu, fechou os olhos e ficou sentindo a água lhe percorrer o corpo. Sentiu uma enorme vontade de chorar. Mas raramente chorava por fora… Seu choro era sempre por dentro. Sozinho, em silêncio… Seu interior inteiro… Chorou.

Anúncios