Qual é a diferença entre nós? (O outro lado) – Parte 2

Terminou seu banho. Já sem a cueca que o acompanhou no banho, pegou as roupas molhadas e jogou-as no cesto de roupas pra lavar. Quando pôs a mão na maçaneta da porta, olhou-se no espelho mais uma vez. Franziu a testa e achou estranho ao ver uma primavera, que não durou nem dois minutos. Mais uma vez, já perdendo as contas, o tempo fechou. Abriu a porta e dobrou a esquerda, seu quarto era colado ao banheiro. De frente pra porta fechada, pôs a mão na maçaneta e sentiu seu coração pulsar forte. “- Esteja aí! Esteja aí!”. Pensou repetidamente. Foi abrindo a porta lentamente, tateou a parede perto da porta e acendeu a luz assim que seus dedos encontraram o disjuntor. Seus olhos foram percorrendo por toda nova brecha que ia surgindo. Já esteve e nunca mais voltou. Como iria voltar agora? Respirou fundo, um sorrisinho caído e entrou. Fechou a porta e “trick”, passou a chave. Parou no meio do quarto e ficou olhando todos os móveis, os objetos pequenos, a cama de solteiro vazia… Como se tudo ali fosse velho e não tivesse no mínimo mais de cinco anos. Ao caminhar até o armário, era inevitável, outro espelho. Dessa vez ao olhar-se nu, viu toda a força de um verão intenso. Encarou-se fixamente. “- Qual é a diferença entre nós?”. Pensou um pouco mais nervoso que antes, cuspindo o verão e engolindo o inverno. Abriu as portas do armário com força e levou as mãos à cintura. Era pouca roupa… Velha, velha e meio termo. Poucos tipos, estilos e cores. Estava olhando para o lugar errado, o que procurava não encontraria ali. Abaixou-se apoiando os braços nas coxas e abriu umas das três gavetas. Pegou uma cueca samba-canção, se levantou e vestiu. Virou o rosto para o lado e fechou as portas do armário, assim, não teria de se encarar de novo. Já estava cansado daquilo. Parou de frente ao seu computador e com o dedão do pé ligou o gabinete na parte inferior do rac. Enquanto ligava, destrancou a porta, abriu e foi caminhando até a cozinha. Pegou a garrafa térmica em cima da pia, abriu e ficou passando a boca da garrafa no queixo. “- Ainda está quente”. Pensou. Pegou sua caneca favorita e a encheu até a boca. Fechou a garrafa e a colocou na pia, no mesmo local que a encontrou. Como não estava tão quente, era um “quente suportável” digamos assim, deu uma golada carregada e voltou pro quarto com a caneca na mão. Colocou-a do lado do monitor, trancou a porta e sentou-se na cadeira. Abriu o Media Player e colocou algumas do Gonzaguinha pra tocar. Acessou a internet, digitou algo no navegador e deu mais uma golada no café enquanto aguardava a página abrir. Era um site com frases, textos e pensamentos filosóficos. Abriu outras abas no navegador e digitou o endereço dos sites de relacionamento que ele tinha perfil. Viu a foto dela entre as pessoas on-line. Foi na página inicial, clicou no status e escreveu “A chama em meu peito ainda queima, saiba! Nada foi em vão…”. Clicou no perfil dela pra ver se tinha fotos novas ou alguma outra coisa… Não tinha. Fechou. Voltou pro primeiro site que entrou e deu de cara com: “Não me roube a solidão sem antes me oferecer verdadeira companhia – Friedrich Nietzsche”. Sorriu… Terminou o café.

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