Pela segunda vez…

Depois de tê-lo mandado embora três anos atrás… O procura. Depois de muita insistência ao telefone, consegue convence-lo de vê-la pra quem sabe, um jantar em seu apartamento que uma vez já foi “o nosso apartamento”. Passou a tarde inteira se embelezando, vestiu os seus melhores trajes, preparou um bom jantar, arrumou a mesa e algumas velas. Separou um CD em especial e o esperou olhando da janela. Nove horas, o combinado e nada dele. “Será que vem mesmo?”. Pensou antes de acender um cigarro e começar a andar pra lá e pra cá na sala. Quase meia hora depois, lá estava ela no quarto cigarro e a garrafa de White Horse aberta, segundo copo. “Não vem”. Pensou. O interfone tocou… Correu as pressas e já atendeu: “– Sobe!”. Correu até o quarto, olhou-se no espelho, ajeitou-se e correu pra porta. Ao olhar pelo olho mágico, seu coração disparou. Lá estava ele, um pouco mais alto, o rosto limpo agora era tomado por uma barba serrada e o corte do cabelo era o mesmo de sempre. Ela fechou os olhos, respirou fundo… Abriu os olhos e a porta.
– Boa noite. – disse ele sem um sorriso, olhando-a nos olhos.
Sem pensar em responder igual, logo abriu um sorriso de orelha a orelha e o abraçou forte.
– Você veio!
Como se ele tivesse um imã, ficou ali abraçada a ele sem sentir seus braços laçando-a. Após duas pigarreadas baixas, afastou-se.
– Por favor, entre.
Entraram e foram direto até a cozinha iluminada por um grupo de velas já pela metade.
– Fiz seu prato predileto.
Ele apenas sorriu amistoso e sentou-se a mesa. Notou a garrafa aberta e o cinzeiro cheio. “Realmente pensou que eu não viria”. Pensou olhando-a ir até o fogão. Pegou a garrafa e encheu o copo que estava vazio. Deu uma golada, puxou o maço de cigarros no bolso, tirou um e o acendeu. Ela estava de costas pra ele e de frente para o fogão abrindo a tampa da panela, quando o ouviu dizer:
– Não vim pra jantar. Vim pra saber o que quer você.
Sem virar-se pra ele, pra esconder sua decepção, disse:
– Mas eu fiz seu prato predileto e comprei seu uísque favorito…
– Meu prato favorito não tem caviar e meu uísque predileto é o Red Label.
Ela passou as mãos no rosto. “Como pude esquecer?”. Pensou.
– Esqueci. – disse depois de uma bufada.
Sentou-se a mesa, na cadeira que a deixava de frente pra ele. Viu o copo dele cheio e o seu vazio. Pegou a garrafa, encheu e tratou logo de dar uma boa golada. Desviou os olhos dos deles, que não se desprendiam dela.
– E então? O que tanto quer que não poderia ser por telefone? – Perguntou ele.
Olhou-o, pensou… E as palavras se esconderam debaixo da língua.
– Não podemos começar conversando sobre outra coisa, só pra eu ficar menos nervosa? – perguntou tímida.
– Sim. – respondeu após uma tragada carregada.
Um tempo em silêncio, ela o esperando puxar assunto e ele na espera dela, já que era ela quem queria conversar.
– Como vai você? – perguntou ela por fim.
– Tirando o que está ruim, está tudo ótimo. – riu.
– Essa frase ainda não sai da sua boca, né? – sorriu ao lembrar-se da última vez que o ouviu dizer aquilo.
– E você?
Ficou quieta… De cara pensou em responder: “Com saudade”. Conseguiu segurar-se. Desviou os olhos para o cinzeiro a sua frente.
– Trabalhando bastante. – respondeu balançando o copo com cuidado, fazendo o líquido girar.
O silêncio reinou mais uma vez. Decidida, levantou-se.
– Dança comigo? – perguntou sem olhá-lo, olhava na direção da sala.
– Depois da dança teremos a conversa? – perguntou amassando o cigarro no cinzeiro.
– Se eu pôr o meu bolero predileto, não vou precisar dizer nada. – matou o copo numa golada só.
Ficou um tempo olhando-a.
– Tudo bem. – se levantou.
Foram até a sala. Ela pegou o CD que tinha separado, abriu a capa e tirou-o. Ligou o rádio, apertou o “Open”, colocou o CD e apertou o botão outra vez. Foi pulando as faixas até chegar à qual tinha citado e ao começar, virou-se pra ele. Começaram a dança.

 

“Quem eu quero não me quer
Quem me quer, mandei embora
E por isso já não sei
O que será de mim agora

Passo as noites meditando
Revivendo o meu castigo
No meu quarto de saudade
Solidão mora comigo

Por onde anda quem me quer?
Quem não me quer, onde andará?
O que será de suas vidas?
Da minha vida, o que será?

Não sou capaz de ser feliz
Nos braços de um amor qualquer
Ah se esse fosse o outro
Que eu amo tanto e não me quer”

Assim que a música acabou, ele se afastou e foi caminhando em direção à porta.
– Vai embora? – perguntou ela.
Parou de frente pra porta com a mão direita na maçaneta e sem virar pra trás:
– Não já conversamos?
– Não tem nada a dizer?
– Fui quem te quis e mandou embora. Agora sou quem você quer e não vai mais cruzar essa porta. – abriu-a.
– Por quê? – seus olhos encheram-se de lágrimas.
– Por que não quero mais querer quem já me mandou embora e já tenho alguém que tanto bem, me quer. Adeus.
E foi embora pela segunda vez. Será que a última?

Anúncios

3 pensamentos sobre “Pela segunda vez…

  1. Pingback: Outra vez « Escrevo fracassos

  2. Chega a dar um aperto no peito, ler a música e querer correr pro final pra ver o que acontece…
    Mas pela frieza do oi, era de se esperar =/

  3. Esse foi meu predileto. Consigo imaginar perfeitamente cada cena, e isso me da água na boca.
    Continue assim meu chapa, estão demais os textos.

Os comentários estão desativados.