Apartamento 803

23 de Março às 23h. Já no elevador não conseguia mais aguentar esperar chegar ao oitavo andar. Balançava o inquieto calcanhar esquerdo, os braços cruzados embaixo dos seios cobertos pelo sutiã, que também era coberto, mas pelo tecido do vestido azul florido. “Tim” fez o elevador ao parar no andar escolhido e abrir suas portas. Ela já saiu com um sorriso largo e foi caminhando até o apartamento oitocentos e três. Parou de frente pra porta, se ajeitou e quando deu o primeiro soquinho na porta, notou que estava aberta. Com dois dedos empurrou-a lentamente. Seus olhos foram se arregalando conforme a porta foi se abrindo e ela notando que o apartamento estava vazio.  Deu um passo pra trás, olhou para o número em cima do portal… Era o apartamento oitocentos e três, não tinha erro. Olhou para um lado e para o outro. Não havia ninguém no corredor. Então, entrou lentamente e olhando tudo ao redor. Viu um papel no chão perto da janela. O pegou. Era a letra dele.

“12 de Março às 04h,

Eu não gostaria de estar lá quando você resolvesse voltar. Eu sei que não irá durar e uma hora partirá… De novo e de novo. Tem sido assim esse tempo todo… Indo e vindo, chegando e partindo… Mas, e agora? Comecei a me sentir lento novamente e tudo ao meu redor parecia entorpecido. Estou seguindo a luz cegamente… Estou me sentindo tão rejuvenescido. Sei que não devia te descrever esses momentos, pois sabe muito bem como me sinto. É sempre assim quando resolve voltar depois de um tempo. E eu apanho… Apanho até soar o último sino. A dor é insuportável, as palavras abrem cicatrizes e há uma irreparável que só aumenta as suas raízes… Quando começo a me sentir lento… Quando tudo ao redor se entorpece… Quando eu sigo seus movimentos… Quando você reaparece. E você sabe muito bem como me sinto. Eu não deveria me envolver nesse momento, mas sempre que soa o último sino, me sinto pronto pra apanhar por mais tempo. E a dor é suportável enquanto você está de volta… Uma alegria inflamável enquanto aos poucos, a dor retorna.

23 de Março às 22h,

Vai estranhar encontrar a casa vazia… Vai estranhar eu não ter te avisado nada. Quando me mandou aquele e-mail no dia 12, entrei em desespero e escrevi o que aí há escrito. Até a metade, estava quase decidido em não te encontrar hoje… Mas chegou uma hora que, bom, você viu. No dia 15, tomei a decisão de mudar completamente a minha vida. Joguei fora tudo que me deu… As roupas, as fotos de suas viagens, as lembranças, os discos do Michael Bublé… Tudo! Saiba que a partir de hoje, tudo irá mudar. Então, se veio por algumas semanas… Finja que só encontrou uma casa vazia e, por favor, vá embora. Mas, se dessa vez veio pra ficar por mais que alguns dias… Se você veio pra ficar definitivamente, venha até o quarto e diga. Diga! Diga que não quer mais sair da minha vida, que o pra sempre anda ao nosso lado, que me dará roupas novas, que vou estar nas fotos e suas viagens serão nossas viagens. Eu, no seu lugar, optaria pela segunda opção. Se vais partir ou se vais ficar… Independente do que seja… Fique ou vá sabendo que… Tão cedo não irei te esquecer e está pra nascer alguém que vá amar alguém, como eu amo você… Hoje! Por favor, mantenha acesa essa chama.”

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3 pensamentos sobre “Apartamento 803

  1. Adorei! Eu não sei porque, mas achei mesmo que teria alguém esperando no quarto.
    Eu esperaria, sempre dou mais uma chance…

  2. A nostalgia as vezes se torna meu sobrenome predileto. Obrigado Camila
    Não sossega com esses “nicks” hein =^P

    Volte sempre que puder e quiser 😉

  3. Tão lindo quanto triste.
    Seus textos são as únicas coisas que eu tenho paciência de ler ultimamente. Parabéns!

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