Nosso Beatles

Éramos tão iguais no começo. Como fomos ficar tão diferentes? Lembro logo no início, quando iniciamos o nosso relacionamento. Ficávamos na minha casa ouvindo Beatles, fazendo citações de Nietzsche, Kant, Rousseau e Voltaire, falando da vida como se nossos olhos observassem tudo da lua e sobre a possibilidade de um mundo melhor se todas as religiões se desprendessem de suas atuais fés e só tivessem fé no amor. Nunca disse, mas sempre ficava meio desconfortado quando eu fingia ser John Lennon e você o Paul McCartney. Mas não era bem a nossa apresentação dublada para um público imaginário, minha vassoura-guitarra e seu rodo-baixo… Era depois da apresentação. Bom… Eu beijava o Paul! Já pensou nisso? Eu sei que era você, mas… Você tinha acabado de ser o Paul! Pensa bem.

Tudo começou a ficar diferente um tempo depois que suas visitas se tornaram estadia permanente. Você trouxe novos discos, novos livros e novas citações. Como era estranho acordar ouvindo Kurt Cobain gemendo na sala. Até gosto de Nirvana, mas acho que as minhas prediletas eram só os greatest hits. Quantas vezes me perguntei onde eu estava ao não achar meus livros prediletos? “Cadê minha coleção de Shakespeare e Victor Hugo? Quem são esses caras que não conheço? O que fazem na minha biblioteca?”. Sim… Era muito estranho. Comecei a me sentir perdido dentro da minha própria bagunça. Bagunça que eu sabia bem onde encontrar tudo que eu queria. Tentei me acostumar, foi difícil. Mas até que consegui me adaptar um pouco ao novo estilo de vida.

Com o passar do tempo fui percebendo que você não queria mais ser o Paul. No início não assumia, só dizia que não estava afim e eu tinha que fazer sozinho as apresentações enquanto você dormia. Não era a mesma coisa sem o Paul. Onde já se viu Beatles sem Paul e John no mesmo palco? A apresentação não foi tão boa e o público ficou irado! Deitei ao seu lado e fiquei te observando como até então não tinha observado. Você realmente não podia mais ser o Paul e eu estava cada vez mais me aproximando do John sem os Beatles… O John da Yoko. Fui até a sala e empurrei a poltrona até o quarto. Coloquei-a de frente pra cama, me sentei e acendi um cigarro. Como podia eu estar sozinho com alguém na minha cama? Como esse alguém mudou tanto em pouco tempo? Era realmente você ou trocou de lugar com alguma irmã gêmea? Como pôde me apresentar gostos tão parecidos e vir pra cá com gostos tão diferentes? Quando foi que começou a mudar? Ou, qual parte dos dois poderia ser ou ter sido apenas uma fase, uma fraude?

Amanheceu… Você acordou e se espreguiçou sentada na beira da cama, de frente pra mim, mas, ainda com os olhos fechados. Ao abri-los, lá estava eu na poltrona que era pra estar na sala, com olheiras profundas, um cinzeiro cheio de guimbas e mais uma futura guimba na boca. Você fez uma cara estranha, de quem não entendia o que estava vendo. Realmente não era pra entender. Quem estava tentando entender algo naquele quarto era eu! Então, num tom bem sério te perguntei por que você não queria mais ser o Paul. Aos risos me diz que aquela brincadeira já tinha perdido a graça e que eu não era John Lennon. Foi aí que tive certeza… Era o fim do nosso Beatles!

Anúncios

2 pensamentos sobre “Nosso Beatles

Os comentários estão desativados.