Por ventura

Foi num daqueles dias, que a gente sente uma estranha vontade de ir pra longe… Longe de tudo e de todos. Celular desligado pra ninguém te encontrar, joga a sua noite nas mãos do destino, do acaso e seja o que for. Qualquer coisa nova que surgir, será bom e bem vindo. Se não der em nada, também não tem problema. O mais importante da noite é estar só, em algum lugar que nunca foi e de preferência que não foi escolhido a dedo, mas, por ventura. Me arrumei, passei na padaria perto de casa e comprei um maço extra de cigarros. Fui para o ponto e decidi que pegaria o primeiro ônibus que viesse. Nada de vans. Não me dou muito bem com elas, principalmente dentro. Então veio o primeiro, infelizmente pra perto, mas, fiz sinal. Desci no ponto final e esperei por outro, que não tardou a vir. Esse sim, me levaria pra longe. Assim que o ônibus adentrou uma região que até então eu desconhecia, sentei perto do motorista e perguntei se sabia de algum bar perto de algum ponto. Me deixou num bar com videokê, alegando ser muito bom e que ele mesmo frequentava bastante aquele local. Fui entrando com meus passos lentos, avistando bem cada detalhe do lugar e das pessoas. Oito e oitenta… Nem grande, nem pequeno. Nem muito cheio, nem muito vazio.

Sentei numa mesa e uma espécie de garçom veio logo me perguntar o que desejava. Quando diria “Novidade”, hesitei e apenas disse: “Uma bem gelada” e sorri amistoso. Então quando olhei para os fundos do local, onde ficava a máquina de videokê… Avistei-a me encarando. Com uma cara de quem estava ali há horas dançando e bebendo. O que não entendi era por que me encarava enquanto um cara a abraçava por trás e fungava seu cangote, seguindo seu ritmo. Desviei o olhar quando o garçom chegou com uma Antártica gelada, pôs o copo na mesa e o encheu. Mas, assim que ele saiu, parecia que ela tinha um ímã nos olhos. Ímã oposto ao ímã dos olhos meus. Então, novamente, olhei-a. Me encarava com a mesma cara, ainda dançando e com um bêbado grudado nas costas. Comecei a notar os seus detalhes. Cabelos negros e longos, daqueles ondulados que queriam ser encaracolados. Trajando um tomara que caia preto, que deixava seu umbigo nu e avolumava bem seus seios médios. Na verdade, meu tamanho ideal. Uma saia rodada, cheia de flores e que batia nos seus joelhos. De cara me deu uma tremenda curiosidade de ver pelo menos metade das suas coxas… Deveria ser a intenção… Quem sabe? Nos pés, havaianas pretas… Acho que número trinta e cinco. Assim que meus olhos chegaram aos seus pés, voltei rapidamente aos seus olhos… Ela sorriu. Ergui o copo no ar na sua direção, sorri de volta e dei uma boa golada. Enquanto puxava o maço aberto do bolso, pensei: “Mas o que você pensa que está fazendo? Ela está acompanhada!”. Acabei ignorando o pensamento e continuei mantendo seus olhos em mim. Coloquei o maço na mesa após tirar um cigarro e o acendê-lo, de repente ela se vira para o cara agarrado nas suas costas, cochicha algo em seu ouvido e vem na minha direção, lentamente. Pude notar bem como mexia sensualmente os quadris enquanto caminhava e mais uma vez, a curiosidade de ver o que a saia rodada escondia.

– Boa noite. – diz de frente pra mim, atrás da cadeira e passando a mão direita na nuca. Um tom de voz tentador que quase me fez fincar os lábios e fechar os olhos.
– Boa noite.
– Tem um cigarro? – olhou meus lábios e rapidamente voltou para meus olhos.
– Fique a vontade. – peguei o maço na mesa e estendi.
Tirou um e colocou o maço na mesa.
– Tem fogo? – perguntou curvando-se na minha direção sobre a mesa, com as mãos palmeadas na mesma e o cigarro no canto esquerdo da boca.
O isqueiro estava dentro do maço e com certeza ela o viu. Resolvi também fingir que ela não tinha visto e o tirei de lá, indo logo acender o seu cigarro. Deu uma forte tragada olhando pra brasa e tirou-o da boca com o polegar e o indicador da mão direita. Recuou e ficou novamente de pé ali atrás da cadeira. Me olhou nos olhos por alguns segundos, não trocamos nenhuma outra palavra. Olhou pra trás e acompanhei seus olhos. Com certeza estava conferindo o que o homem grude fazia. E lá estava ele com o microfone na mão e escolhendo uma música no videokê.
– Está esperando alguém? – perguntou voltando os olhos pra mim.
– Não. – respondi depois de uma golada.
– Posso? – puxou a cadeira a minha frente.
– Fique a vontade. – sorri.
Então ela sentou, colocou os cotovelos na mesa, o braço esquerdo deitado e o direito de pé, com o cigarro nos dedos. Ficamos um tempo nos encarando como se nossos olhos estivessem tendo uma conversa, se conhecendo melhor e quem sabe, estivéssemos mesmo pensando nas mesmas coisas.
– Me acompanha na bebida? – nem eu sei como fiz essa pergunta, mas, ela assentiu com a cabeça. Acenei para o garçom e gesticulei mais um copo. Continuamos em silêncio nos encarando até que ele chegasse. Ficamos ali ao som do homem grude cantando. O garçom chegou com o copo, enchi o meu e o dela.
– Nunca vi você por aqui. – disse ela assim que terminei de encher.
– Nunca te vi em lugar nenhum. – com um peteleco joguei a guimba no chão. Ela sorriu.
– De onde és?
Continuei calado a olhando. Até que quando a canção acabou, ela olhou pra trás, obviamente pra conferir o que o homem grude fazia. Lá estava escolhendo outra música. Virou-se pra mim novamente e deu uma golada.
– Seu marido? – perguntei.
– Não. – sorriu.
– Namorado?
Não respondeu. Continuou sorrindo me encarando. Não sei se sabia o quanto aquilo estava me fascinando cada vez mais.
– O que o trouxe até aqui? – me perguntou.
– Sabe aqueles dias que você sente uma louca vontade de ir pra longe e atrás de alguma novidade? – puxei um cigarro do maço e o acendi. – Bem isso.
Ela sorriu olhando pra brasa no meu cigarro. Não sei, acho que ela devia ser uma admiradora de brasas!
– E você? –perguntei.
– Sabe aqueles dias que você sente uma louca vontade de ser uma novidade? – me olhou com uma cara tão sexy que quase caí da cadeira.
Olhei para o homem grude, que agora já cantava olhando pra nós ali a sós. Voltei os olhos pra ela e não sei o que deu em mim.
– Quer ir pra outro lugar? Responde rápido!
– Por quê? – perguntou meio assustada.
– Ele está vindo! – levantei num pulo e fui rapidamente colocando o maço no bolso.
– Quero! – disse ela matando o copo em seguida e se levantando.

Demos as mãos e saímos correndo do bar como dois adolescentes aos risos. Eu não conhecia nada pela região e pedi pra que ela nos levasse pro primeiro ponto e que pegássemos o primeiro ônibus pra qualquer lugar. Olhei pra trás e lá vinha o homem grude correndo em ziguezague, quase caindo pelas tabelas. Mudei de planos ao ver um táxi parado. Entramos rapidamente, fechamos as portas “Nos leve pra longe, rápido”, gritei. Ele deve ter olhado para o retrovisor e entendido mais ou menos a situação, mas, saiu arrancando. Então, no banco de trás, nos beijamos ardentemente. Como era quente o seu beijo. E antes dos meus olhos, minhas mãos mataram a minha curiosidade de ver pelo menos metade das suas coxas. Minutos depois o motorista pergunta onde era o longe que eu queria. Respondi que ali já estava ótimo. Paguei e descemos. Onde estamos? Nem ela sabia… Não nos importava. Olhamos ao redor e avistamos um motel e antes mesmo que eu perguntasse, ela sugeriu que entrássemos.

Já no quarto, tive certeza do quanto roupas enganam, era muito melhor do que eu podia imaginar. Vi uma deusa se despir de mulher na minha frente, na “minha” cama. A noite foi maravilhosa e muito mais do que eu esperava. Como era bom o sexo daquela deusa… O beijo, o toque, o gemido, a respiração ofegante no pé do meu ouvido… Tudo. Fato que cheguei a pensar que estava sob o efeito de alguma droga e numa viagem maravilhosa. Dormimos e acordei com um bilhete ao meu lado na cama.

“Creio que a noite foi tão maravilhosa quanto esperávamos que fosse. Quem sabe em algum outro desses dias loucos que a gente vai pra longe atrás de novidades ou querendo ser novidade, não nos encontremos novamente, por ventura…”.

Assim mesmo… Sem deixar nome, beijo, telefone… Só vontade.

Anúncios