Romances fodidos

Umas semanas atrás eu recebi um e-mail de um grande amigo com o assunto: “A Casa na Árvore”. Dizia logo no início: “Estava um tempo sem ler. Estou me atualizando aqui, e só posso dizer que você escreve muito bem essa coisa de relacionamentos fodidos”. Eu ri e na mesma hora meus pensamentos confirmaram o que acabei de ler. Nunca tinha reparado isso. O máximo que já pensei foi que eu me sentia mais a vontade falando de amor… Mas nunca reparei que falo mais de amor que não vingou… Que se esgotou… Sem reciprocidade… Cadê o amor feliz? Amor que deu certo, que continua se expandindo… Realmente, não falo de amor, mas, de amores fodidos! Por que será?

Encantei-me com essa ideia. Afinal de contas, há mais pessoas feridas do que pessoas vivendo o ápice de um amor… Eu acho… Então, há mais pessoas que vão me entender do que pessoas que nem irão parar pra ler. Os feridos procuram identificação, conselho, alguém que saiba dizer o que ela não consegue pôr pra fora e alguém pra dizer-lhe: “Olha, eu sei bem como é. Veja bem como foi pra mim” ou até “Ei, psiu. Não fique assim, uma hora ou outra essa dor vai passar”.

Em quantos relacionamentos nunca existiram o amor? Em quantos amores nunca existiram o relacionamento? Quantas paixões foram tratadas como amor? Quantos amores foram tratados como paixão? Quantas vezes deixamos de ser o que ontem, nos fazia parecer Deus? Quantas vezes paramos de crer naquela pessoa que transformamos em uma forma de… Deus? Como diria Herbert Vianna: “Quantas canções vieram antes? Quantas há por vir? Quantos amores errantes? Por onde eu me perdi”.

É até meio fácil falar de amor. Às vezes até quem nunca o sentiu, sabe. É só você ler citações, textos e etc. Terá ideia e verá que é sempre aquele doce que vez ou outra fica meio salgado, aquela forma surreal de ver o mundo e na maioria das vezes em poucas palavras ou num silêncio ou um brilho nos olhos. Bom… O amor é lindo! Fato! Mas o lance dele é que você nem sempre consegue escrever tudo que ele está te fazendo sentir. É sentir e nada mais, expressar para o par e manter a paz que ele traz. E as pessoas não procuram identificação, conselho e alguém que diga: “Olha, eu sei bem como é. Veja bem como está sendo pra mim” ou até “Ei, psiu. Não fique assim, amanhã pode acabar”. Eles procuram afirmar, tapar os ouvidos e dizer: “Olha como eu amo e o quanto meu amor é forte” ou até “P.S.: I love you!”.

Mas, definitivamente há mais pessoas que pensam que sabem sobre amor do que pessoas que realmente já o “sentiram na pele”, digamos assim. Poucos me entenderiam e muitos poderiam até usar meu texto de amor numa situação de paixão. Pessoas que hoje usam o Eu te amo no lugar de Eu estou apaixonado por ti. Como me disse uma vez a minha avó: “Eu te amo” nessa sua época, é o mesmo que “Bom dia”. Tome cuidado que esse de hoje em dia pode ter veneno irreversível e te fazer pensar que deve dizer “Eu também” só por que te disseram um “Eu estou gostando muito de você” em forma de “Eu te amo!”. Aí depois, a consciência que pesa é a sua. Quando acabar, vai ficar aquele gosto amargo de que não sabe amar e que talvez tudo pudesse ainda estar dando certo se não fosse tão frio a ponto de não conseguir amá-la quanto ela te amava. Pois semanas depois, ela vai amar outra pessoa da mesma forma que foi contigo e você ainda estará se perguntando “Por quê?”. Digo-lhe eu… Era paixão, um fenómeno natural em todos os relacionamentos. A questão não era que você não sabia amar, mas sim, que ela não foi boa o suficiente pra despertar o amor em ti… Ela que por sua vez, demonstra saber bem sobre o amor.

O Amor mora num lugar mais distante que a Paixão da esquina.

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3 pensamentos sobre “Romances fodidos

  1. Não é fácil viver, entender ou explicar o amor… mas todos nos somos capazes de inventa-lo, e só inventa-lo…

    bjs

    ps.: texto fascinante!

  2. Eu entendo muito de pouca coisa, entendo de pouco de muitas pessoas… Entendo demais sobre poucas coisas que vivi, entendo muito sobre poucas coisas que ouvi, mas se tem uma coisa que aprendi bem foi que paixão não é isto que pintam, não é o querer desmedido, não é aquele fogo que te consome pra ouvir a pessoa, ver, olhar, isto é encanto… Este encanto passa, se confude entre frases de amor, este encanto vira novela, vira livro, vira até notícia de tragédia em telejornal… Mas a paixão mesmo, esta só se entende quando se vive e pra se viver se leva uma vida talvez, ou talvez um findi seja o suficiente… Mas ela não é tão presente em todos os relacionamentos quanto descreveste… A paixão que eu vi existir diante dos meus olhos, dentro do meu mais frágil ser, que perdurou no meu mais forte eu, esta paixão superou todas as definições até de amor… O amor é um sentimento presente em relacionamentos verdadeiros, pois é constituído de carinho, respeito, do querer bem… O amor vem por irmãos, família, amigos e vem por quem esta na jornada da vida contigo… Mas a paixão, amigo… Esta só vem quando há de vir e nem sempre vem junto do amor… Mas é aquilo, só vai entender isto quem viver.. E quem tiver a oportunidade de viver, será alguém muito querido pra esta louca vida, pois isto é um presente… Pode durar um findi, pode durar uns anos, pode durar até uma vida, sempre estará presente a singularidade de uma paixão…

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