Afinal, não é Nova Iorque

Por volta das quatro da manhã, já meio bêbado, saiu do bar esperançoso com a hipótese de que o outro bar (único que vendia cigarros na região) estivesse aberto. Saiu da principal asfaltada que já não passava carros, e entrou na rua de barro esburacada, tomada pela neblina que parecia uma enorme nuvem sem fim. Uma neblina que gelava a pele até onde estava coberta pelo casaco de algodão, a calça skinny, sandálias Havaianas e a cueca boxer de microfibra. A rua era muito pouco iluminada pela lâmpada no poste que acendia e apagava, mas era tranquilo andarilhar por ali. Principalmente pra alguém que cresceu naquelas redondezas e já estava cansado de fazer aquele trajeto que cortava caminho para o condomínio não muito longe, onde habitava grandes amigos. Desceu a rua depois do poste com a luz pisca-pisca, parou bem no centro da conexão de ruas com as pequenas casas, mal arquitetadas e silenciosas. Afinal, não é Nova Iorque… Nas suas costas estava a rua que acabou de traçar, que não mais se via a rua principal por conta daquela intensa neblina. A sua esquerda era a mesma rua da direita, que dava continuidade uma na outra. Na diagonal esquerda uma subida mais esburacada e na diagonal direita uma rua que dobrando a esquerda entrava na rua cimentada, que o levaria ao destino desejado. Todas essas, bem iluminadas.

A neblina foi ficando cada vez mais intensa depois que passou pelo ônibus abandonado antes da curva pra subida cimentada e os detalhes iam se tornando cada vez mais, menores. A única coisa que via no fim dela eram as luzes de dois postes. Enquanto subia, seus pensamentos positivos iam se fundindo com a neblina… O bar não estaria aberto e ficaria sem o seu vício antes de dormir. Mesmo ficando menos esperançoso a cada passo, preferiu continuar. Foi tomado pela vontade de caminhar, dar uma volta pela neblina que beijava o chão e regressar ao seu lar. Assim que chegou ao fim daquela subida, que dava na rua do bar, ele dobrou a esquerda, fixou os olhos e pode ter certeza… Estava fechado. Antes que fosse girar cento e oitenta graus, um vira-lata simpático foi se aproximando com jeito. Agachou-se um pouco e acariciou o animal, que fez a festa ao ver antes dele, que tinha encontrado companhia. Sorriu ao ver a festa que o cachorro fazia e depois de um ”Agora eu tenho que ir”, girou e partiu. Após seis passos percebeu que o cachorro o acompanhava a quase um metro à sua direita. “Encontrei companhia”, pensou sorrindo.

Após oito passos, o cachorro não estava mais ao seu lado. Parou e olhou pra trás. Lá estava o cão não muito longe, sentado e olhando na sua direção. Às vezes parou na dúvida: “Será mesmo que ele quer companhia?” ou “Será que vai ser meu dono?”. Quem sabe? Então ele estalou os dedos, assoviou baixinho… E então o cachorro veio. Assim que chegou bem perto, sorriu e retomou seu trajeto. Não percebeu que aos poucos o cão foi ficando pra trás, outra vez. Antes que dobrasse a curva que dava no ônibus abandonado, notou. “Cadê meu companheiro?”. Pensou. Olhou pra trás outra vez e lá estava ele onde foi chamado pela última vez. Sentado e olhando-o com a orelha esquerda um pouco mais pra baixo que a direita. Às vezes parou pra ter certeza: “Se ele parar de novo é por que quer companhia” ou “Se ele parar de novo… Vai parar outra vez pra saber se é o meu dono”. Quem sabe? Olhou para um lado e para o outro, estalou os dedos e assoviou baixinho… Então, mais uma vez, o cachorro veio. Passaram pelo ônibus abandonado. Ele no lado esquerdo, pela rua cimentada que aos poucos ia se fundindo a rua de barro. E o cão pelo lado direito, na “calçada de mato”. Talvez pra um rápido momento de privacidade ou desmarcar algum território… Dá no mesmo! Antes que chegasse ao poste com a luz pisca-pisca, notou que o cão tinha ficado lá na frente do ônibus, ignorando-o completamente e farejando o para-choque.  Às vezes era a hora ideal pra uma certeza: “Ele não quer companhia” ou “Ele não quer ser meu dono”. Certo! Então ele continuou seu trajeto de volta pra casa, sem companhia e sem um dono… Afinal, não é Nova Iorque!

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