Não pare no tempo

Eu achava que se vez ou outra eu agisse como uma idiota, você iria me notar mais. Mesmo que seja pra me criticar depois, antes iria me notar. Como naquele show que eu fui sabendo que você iria. Afinal, era uma das suas bandas prediletas naquela época. Não estávamos mais juntos, mas fui pra fazer surpresa e ver como reagiria quando me visse. Como seria frente a frente, já que sua coragem só te permitiu um término virtual com as explicações anexadas num e-mail. Arquivo no Word que guardo até hoje e às vezes fico relendo, só pra ver o quanto sua escrita evoluiu com o tempo, quando leio seus textos atuais. Você foi o nerd mais popular e mais bonito que eu já conheci na minha vida.

Nunca esqueci aquele show… Na verdade eu não esqueço nada, por incrível que pareça. Eu cheguei com algumas amigas e enquanto elas procuravam brecha pra chegar cada vez mais perto do palco, eu procurava nas brechas o seu rosto ou de algum amigo seu. Se visse algum deles, seria a pista certa pra que eu soubesse se estava perto ou não, pois eu tinha certeza que você iria. Conseguimos chegar uns dois metros de distância da barra que separava a área VIP da parte onde estávamos… Que era mais ou menos uns seis metros do palco, pelo que me recordo. É até engraçado ainda lembrar tantos detalhes, não tenho esse costume e você sabe mais do que ninguém.

 Toda hora inventava de ir ao banheiro, só pra não assumir que eu estava te procurando, pra quem quer que fosse me acompanhar. A cada dois passos meus olhos percorriam quase todo o lugar ao meu redor, até que lá pra quinta ida ao banheiro… Vi seu melhor amigo. Sim, era ele mesmo! Meu coração disparou, era a minha certeza de que você já tinha chegado, pois vocês dois nunca se desgrudaram. Só depois de alguns anos quando cada um foi ganhando responsabilidades diferentes e mudando tanto ao ponto de se tornarem água e óleo. Até hoje não entendo muito bem isso, mas nem quero saber, você mudou pra melhor e só isso que importa… Independente de qualquer coisa. Não gostaria de saber que você ficou parado naquela época.

 Inventei que a vontade tinha passado e quando minha amiga entrou no banheiro, comecei a segui-lo… Com certeza ele me levaria até você. E foi isso mesmo que aconteceu, mas pra minha decepção te vi aos beijos com outra garota. Meu mundo desabou completamente. Saí correndo sem rumo, segurando o choro e empurrando quem quer que barreirasse a minha passagem. Fui parar no bar e a primeira coisa que me veio à cabeça foi encher a cara até cair pelas tabelas… Mesmo nunca tendo colocado um pingo de álcool na boca. O único álcool que eu tinha experimentado até então, era o seu beijo alcoolizado.

 Na primeira dose já vi estrelas… Na segunda, comecei a rir da minha própria situação… Na terceira já capengava me apoiando no balcão… Quando fui virar a quarta, duas de minhas amigas me encontraram e censuraram meu porre. Comecei a gritar feito uma louca dizendo que queria mais, que queria ficar muita bêbada, que minha vida tinha acabado… Um drama total! Enquanto uma me segurava e evitava que eu bebesse, a outra foi buscar as outras garotas. Pra aquela que ficou ali comigo, eu assumi o que tinha acontecido… Até hoje penso que não deveria ter dito, mas, tudo bem, passou. E hoje em dia não faz muito o meu tipo, chorar pelo leite derramado.

 Quando as outras chegaram, comecei a sentir a falta de ar, via tudo girando e duplicado, suar frio e vontade de vomitar… Você sabe bem o que acontece no primeiro porre. Levaram-me para o banheiro e fui logo abraçando o primeiro vaso sanitário que vi pela frente. Comecei a vomitar entre choro, soluços e lamentos do tipo: “Ele já me esqueceu”, “Ele não me quer mais”, “Eu o amo tanto” e etc. Horas depois, já não tinha mais o que vomitar… Mas muita coisa pra lamentar. Então me levaram pra parte perto da saída, para sentarmos e eu desabafar, chorar, gritar… Pois é, gritei quando te vi passando com seus amigos. Eu gritei seu nome umas sete vezes, mas não sei se fingiu não me ouvir ou se realmente não ouviu. Sei que teve uma hora que você olhou na minha direção e a cara de nojo que fez me deixou mais depressiva ainda.

 Você saiu tranquilo com seus amigos e eu, minutos depois, carregada pelas minhas amigas. Depois disso só lembro-me de acordar no dia seguinte, com uma dor de cabeça insuportável e uma sede, que parecia até que eu estava cruzando o deserto ou estava há dias sem beber água. Lembrava-me de tudo até o segundo copo… Minhas amigas me lembraram do resto. Então tomei vergonha na cara e resolvi nunca mais gostar das mesmas bandas que você, frequentar os mesmos lugares, ter os mesmos amigos e entrei na academia, disposta a me tornar a mulher mais gostosa que você já viu na vida e que seus amigos iriam comentar bastante sobre minhas evoluções… Sabendo que uma hora ou outra você tentaria voltar e caso eu ainda sentisse algo por ti, só perdoaria depois de te fazer passar no mínimo metade do que você me fez passar. E aquela banda hoje em dia nem toca mais, desde que você parou de ouvir… Mas sei que quando bate saudade, ela volta a tocar, você ouve e pensa em mim, pois infelizmente isso também vira-mexe acontece comigo e não seria diferente com você, depois que me deu a honra de te dar o troco.

 Então agora que amadurecemos tanto e deixamos o jogo empatado, vamos dar chance para novos beijos, novos corpos, novos casos… Até caso um dia, um de nós perceba que realmente não vai existir um jogo mais emocionante do que foi o nosso ou encontre um jogador/jogadora bem melhor do que você/eu foi/fui. É muito precipitado sair por aí dizendo, em plenos trinta e poucos anos, que seu melhor amor ficou pra trás, lá pelos seus vinte e poucos anos. Prometo-te que caso chegue lá nos quarenta e poucos e ainda não tenha encontrado alguém interessante o bastante quanto você se tornou… Dar-te-ei sua última chance. E por favor, vê se faz o mesmo e não pare no tempo.

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2 pensamentos sobre “Não pare no tempo

  1. O tempo que a gente deixa passar, arrumando desculpa… ele não volta. Clichêzão né ahuhauhauhau Mas é a realidade! Isso me lembra que tenho que te atualizar sobre um acontecimento…

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