Xeque-mate

Ela pensava nas pessoas que ainda não tinha conhecido, e vira-mexe comparava com as que ela já conhecia. Às vezes o desejo era de que os “não conhecidos” fossem os “conhecidos”, e vice-versa. Não sei se posso dizer que era como uma brincadeira, mania feia ou algum outro termo qualquer. Quem iria entender aquele jeito de ver um Olá num Tchau, Volto Já num Adeus? Que na maioria das vezes preferia ver Adeus num Olá e Tchau num Volto Já. Não é difícil perceber sua solidão, até de longe. Por isso às vezes ela gostaria que os “conhecidos” fossem os “não conhecidos”, pra que ela pudesse ser um código indecifrável ou Morse. Rainha de um Rei “xeque-matado” já no início, Dama de Espadas num Copas Fora e admiradora de enigmas bem bolados. Pelo que parece, foi ela mesma quem talhou seu jeito de ser e sem se basear em nada. Mas quem garante que seria essa a resposta do Psicólogo, se ela frequentasse um? Ela tem mais medo dele do que as lendas sobre o fim do mundo. Gosta que sua mente seja uma caixa muito bem lacrada, onde às vezes nem ela mesma consiga entrar.

Vive solitária em seu refúgio psicodélico. Paredes com pinturas de jornais, portas sem maçaneta, cada cômodo com uma lâmpada diferente, móveis coloridos e um porão do tipo “casa do bicho papão”, aonde ela nunca vai… Só abre a porta e joga o que nunca mais quer ver. Inclusive, é onde estou. No início foi difícil descobrir que lugar era esse. Sei que tudo estava bem até do nada ficar tudo escuro. Descobri que aquela luz rápida que raramente surgia no teto… Era dela abrindo a porta do porão rapidamente. O barulho que fazia segundos antes da luz sumir… Era algo novo que ela estava jogando aqui. E todas as coisas que aqui vem parar, acabam se tornando meus ‘filhos adotivos’, digamos assim. Cuido bem de todos, pra que caso um dia ela sinta falta e resolva pegar tudo ou metade de volta pra si… Nada esteja tão danificado como estaria sem meus cuidados.

 Quando a conheci, ela era uma menina meiga, gentil, inocente, carinhosa e entre tantas outras qualidades que eu acho foda! Adorava conhecer novas pessoas, sentiu saudade até da formiguinha que tinha acabado de passar na pia enquanto ela lavava a louça. Sentia-se feliz e cantarolava durante todo o dia, fazendo uma pausa longa na hora de dormir. O problema todo surgiu quando o jogo de xadrez da vida começou e ela foi conhecendo Peões que se achavam Reis. Foi tendo uma decepção atrás da outra conforme eles iam caindo… E aos poucos foi se tornando o que hoje ela é. Na segunda partida foi conhecendo Torres, Cavalos e Bispos…  Mais decepções, principalmente com um Bispo que insistia em dizer que Deus tinha um bom plano em sua vida. “Mas que porra de plano é esse?” – pensou certa vez. E não preciso dizer que os dois Reis que conheceu nessas duas partidas, não souberam protege-la… Ela teve que fazer tudo sozinha para mantê-lo salvo, e mesmo assim não adiantou… Então, antes mesmo de começar a terceira partida, ela já estava bem do jeito que descrevi no início. Quando a partida começou, ela virou pro terceiro e rei e… Xeque-mate!

 Triste, eu sei… Ela mal sabe que quem mais sofreu com isso fui eu, que sofri o que ela sofreu e sofri mais ainda quando ela me jogou aqui. Faz cada vez mais frio, o espaço vai ficando cada vez mais apertado… Mas sei que um dia, uma hora ou outra ela sentirá falta de mim e de tudo que jogou aqui embaixo. A gente fica daqui debaixo ouvindo as vozes lá em cima, ela está prestes a não resistir mais. Teve um Rei que quase conseguiu vencer por ela… Mas no meio do jogo, ela deu brecha pra ele receber seu Xeque-mate. Enquanto isso eu continuo cuidando das suas qualidades, pois hoje sou apenas seu nobre coração abandonado.

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Um pensamento sobre “Xeque-mate

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