Uma simples pétala e uma estrela cadente

Atravessou a rua e ao avistar uma pequena barraca de flores, abriu a carteira e conferiu… Um ingresso maltratado, uma tampa de cerveja, um clip, pequenos pedaços de papel rasgado e o dinheiro pra voltar pra casa… Pois é, não dá. Pensou antes de devolver a carteira ao bolso. Ao passar ao lado, notou algumas flores no chão. Perguntou a moça da barraca se aquelas iriam para o lixo. Pronto, conseguiu as flores e um elástico meio velho. Não eram as que ele queria, mas, eram flores! Prendeu-as cuidadosamente com o elástico e seguiu seu rumo, com um sorriso largo. Era a primeira vez que levaria flores.

Chegando à frente do enorme Teatro, entrou na fila… Tão distraído, só percebeu que era a da bilheteria quando a fila dobrou a esquina e ele esticou o pescoço por cima das cabecinhas a sua frente. Saiu correndo desesperado e, dessa vez, acertou a fila. Conforme ia andando, percebeu que as flores já não estavam tão vermelhas quanto antes, estavam um pouco mais escuras. E agora? Não tem problema, talvez nem perceba e continuam sendo flores. Pensou. Quando entrou no teatro, saiu correndo pra fileira da frente e conseguiu (de tão chato) convencer uma Senhora educada de que ele precisava sentar em seu lugar, para ver melhor a sua amada.

As luzes ofuscaram e a enorme lona vermelha no palco se abriu. O sorriso foi de orelha a orelha quando a viu entrar em cena. Tentava tirar-lhe uma olhada, mas era em vão. Até que de repente olhou, mas não na sua direção, umas cinco cadeiras à sua direita. Curvou-se pra frente e olhou… A única coisa chamativa que avistou foi um homem muito bem trajado e com um enorme buquê, que até o mais leigo saberia que era o mais caro que existia. Olhou para o palco, justo na hora que ela olhou novamente naquela direção de antes… Curvou-se novamente e olhou para o homem, que agora sorria de orelha a orelha. Ajeitou-se no banco, meio intrigado, mas continuou a vislumbrá-la em atuação.

Tão distraído, não percebeu que as flores tinham virado uma brincadeira de bem-me-quer ou malmequer. Só quando a peça acabou, percebeu que só segurava flores sem pétalas. Coitado, não sabia que a brincadeira tinha terminado no malmequer. Jogou-as no chão e aplaudiu a peça, de pé. Enquanto todos iam se retirando, começou a catar as pétalas no chão e colocando nos bolsos da calça. Assim que catou todas, saiu correndo para a saída e ficou lá fora a esperando sair. Quando saiu, pra sua decepção, estava abraçada ao homem do buquê mais caro do mundo. Correu na direção dos dois quando atravessaram a rua e nem viu que a cada passo que dava, as pétalas caiam de seus bolsos.

– Espera! – gritou.

Ela virou-se ao ouvir um tom de voz familiar:

– Você! – olhava-o surpresa, com os olhos bem arregalados.

– Pra onde você vai? – perguntou num tom brando.

– Embora! – respondeu firme.

– Mas… – dizia com os olhos marejados, antes de ser interrompido.

– Não adianta! – gritou entre os dentes. – Já te falei mil vezes que não volto pra um fracassado como você… Ainda mais agora que minha carreira artística está dando certo depois que consegui esse papel.

Ficou um tempo calado, olhando-a toda esnobe e furiosa. Na falta do que dizer:

– Eu trouxe flores. – cutucava os bolsos.

Quando estendeu a palma da mão direita, havia apenas uma pétala e muito maltratada.

– Flores? – soltou uma gargalhada. – Isso é uma pétala! Você perdeu o juízo de vez. – pegou o buquê mais caro do mundo. – Isso sim são flores! Você é um fracassado mesmo, ainda bem que te deixei. Vá embora e evite mais vexame.

Então, cabisbaixo, deu-lhe as costas e foi indo embora olhando para aquela pétala na mão, que agora tanto se identificava. Mal sabia ela, que ele quem tinha escrito aquela história e a sugerido para o papel principal. Pediu até menos do que ganharia, depois de terem recusado sua sugestão, só pra que a aceitassem. Então, só assim a aceitaram como estrela da história… Diferente dele, que sempre a aceitou como sua estrela. Agora volte pra casa e escreva uma sem ela no seu céu… Ela já caiu, assim como a última pétala que acabou de cair da sua mão.

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