Pro testa

Era uma quarta-feira como outra qualquer. E geralmente, é na quarta que o corpo já se recuperou 100% do final de semana e já está 100% preparado para o final de semana que está chegando. Ela levantou por volta das duas da tarde. Bocejou sentada no meio do colchão duro que chamava de cama, espreguiçou-se ao levantar e olhou para o relógio do celular. Abriu as cortinas. Pegou a mochila perto da porta e tirou o maço Hollywood Azul e o isqueiro. Jogou a mochila na cama. Abriu a porta e foi até a cozinha, acendendo um cigarro no meio do caminho. Chegando lá, colocou o maço e o isqueiro em cima da geladeira e a abriu, conferindo o imenso vazio e as muitas garrafas d’água. Foi até a pia, abriu o armário acima dela e tirou uma panela pequena. Encheu até perto da metade com água e colocou numa das bocas que ainda funcionavam do fogão. Liberou o gás e procurou pelo isqueiro. Pegou-o em cima da geladeira assim que o avistou e riscou a pedra perto da boca do fogão. Por um descuido e falta de reflexo, quase queimou a mão. Deu um pulo pra trás com o susto, que o cigarro até caiu no chão. Riu do susto que tomou. Prendeu o isqueiro na alça direita da calcinha, abaixou-se, pegou o cigarro e levou-o novamente a boca. Foi até o outro armário ao lado da geladeira, abriu e pegou um pacote de miojo sabor picanha. Miojo de churrasco. Pensou aos risos.

 Foi até o banheiro, pegou uma piranha e prendeu o cabelo, se olhando pelo espelho. Com o cigarro ainda nos lábios, lavou as mãos e secou-as na toalha. Voltou para o quarto. De frente para o armário escolheu uma roupa na parte que não tinha porta e vestiu-se às pressas. Quando voltou pra cozinha, a água já estava fervendo… Borbulhando. Abriu o pacote de miojo e jogou-o dentro da panela. Pegou o sachê, abriu nos dentes e jogou todo o pó. Passou o dedo dentro e levou a boca, sentindo um gostinho de Picanha. Pegou a embalagem aberta e o sachê rasgado, e jogou-os na pia. Tirou o cigarro da boca, bateu com o indicador na extensão e deixou a cinza cair… Também na pia, onde tirou um garfo sujo, passou água e secou no pano de prato. Mexeu o miojo até o momento que achou que estava pronto. Jogou o cigarro no chão e o matou com uma pisada.

Voltou para o quarto, sentou-se na cama e começou a almoçar enquanto catava os trocados perdidos pela mochila. Assim que terminou, deixou a panela do lado da cama e saiu de casa. Foi até a lan house da praça, colocou meia hora e acessou as redes sociais que tinha perfil. Numa delas viu algumas pessoas debatendo e defendendo o amor, marcando de sair pelas ruas e espalhá-lo por aí. Mesmo sem saber o que era, abraçou a causa. Chegou ao local no horário marcado e se juntou as pessoas, com um megafone na mão como a maioria. Um repórter que estava por perto se aproximou ao notar que era o único megafone mudo.

– O que protestas? – perguntou.

– O amor! – afirmou tirando o megafone da boca. – Não vê?

– Tem certeza?

– Absoluta!

– E o que é o amor?

Olhou para um lado e para o outro, fingiu não escutar.

– O que é o amor? – insistiu o repórter.

Descaradamente foi saindo de perto, mas ele continuou indo atrás e repetindo a pergunta. Até que ela correu e ele desistiu da abordagem. Virou-se pra câmera.

– Preciso dizer algo?

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