A primeira vez

Seu horário normal de saída era às sete horas, mas sempre ficava até as nove para evitar reclamações no dia seguinte e manter seu emprego seguro. Mas saiu às dez horas naquele dia, pois seus esforços tinham sido recompensados. Foi promovido e seu salário quase dobrou. Poderia dar uma condição de vida melhor pra sua amada, como sempre quis. Agora, seu horário de saída seria às cinco horas e se resolvesse ficar mais, pra manter a promoção, poderia ficar até às sete horas e tudo estaria certo. Por ventura, o relicário que tinha encomendado com uma amiga de trabalho que vendia Avon, tinha chegado naquele dia. Pegou a 3×4 que tinha na carteira, recortou milimetricamente correto e encaixou no lado direito do relicário. Era um dia de sorte. Saiu cansado, mas ainda com pique pra chegar a sua casa e comemorar. Seis anos de casado e seis anos de esforços no trabalho, para dar e ter uma vida melhor, finalmente estava começando a ter valido a pena. Principalmente depois de ter ouvido do patrão: “– Você sempre foi meu melhor e mais fiel funcionário, nada mais justo”.

Como a partir de agora sobraria mais no fim do mês, passou num supermercado vinte e quatro horas e comprou seu uísque predileto… Red Label! Saindo do supermercado, olhava orgulhoso para a sacola. Era a primeira vez que a compra de um uísque não seria impactante no fim do mês. Podia chegar a casa e ter a surpresa de que sua mulher tinha feito seu prato predileto… Strogonoff. Mas aí é querer abusar da sorte, não? Pegou o ônibus quase vazio e sentou no meio, lado direito, na janela. Tirou o celular do bolso. Dez e quarenta. “– Se fosse mais cedo daria pra comprar um buquê”. Pensou sorrindo, lembrando-se de sua amada com ternura, que o esperava em casa sem saber de nada. Queria fazer surpresa. Dois pontos antes do dele, se levantou e foi caminhando lentamente até a frente do ônibus. Puxou a cordinha quando se aproximava de onde desceria. Quando o ônibus parou e abriu a porta:

– Boa noite e bom trabalho. – disse sorrindo ao motorista, antes de descer.
– Obrigado, pro Senhor também. – respondeu o motorista passando a primeira, rasgando a caixa de marcha.

Mal pôs os pés na calçada e olhou outra vez para a sacola com o uísque. Sorriu. Enquanto caminhava até a entrada de seu condomínio, pegou as chaves no bolso. Quando levou a chave ao portão, ele foi aberto pelo porteiro.

– Boa noite, Adamastor. – disse ele cumprimentando-o com um sorriso largo.
– Boa noite. – respondeu o sonolento porteiro.
– Sabe se a Vânia saiu? – perguntou depois de apertar o botão do elevador, que estava no quinto andar.
– Não vi a Dona Vânia no meu turno… – ajeitou-se na cadeira atrás do balcão. – Quer que eu interfone?
– Não precisa. – sorriu. – É minha mulher, esqueceu?
– Verdade. – disse todo sem graça. – É que como o Senhor sabe, comecei há pouco tempo e ainda não sei quem mora com quem por aqui… E já vi e ouvi cada coisa, que o Senhor não vai acreditar. – brincou tentando abafar sua “gafe”.
– É mesmo? – o elevador abriu as portas. – Qualquer dia me conta. – entrou.

Apertou o décimo e o elevador fechou as portas. Nunca foi de se interessar em fofocas, mas o comentário de Adamastor cutucou sua curiosidade. O que ele já teria visto e ouvido que seria tão interessante assim para salientar em tal comentário? Qualquer dia que não estivesse com tanta pressa, iria gostar de saber… Não iria fazer mal a ninguém saber uma fofoquinha ou outra sobre os condôminos. Soltou uma risada baixa enquanto pensava. O sorriso se fechou assim que pensou: “– Será que ele sabe algo de Vânia?”. Agora que sabe que é sua mulher, não falaria. Óbvio, mas, menos mal. Já bem diz o velho ditado: “O que os olhos não veem o coração não sente”.

 O elevador abriu as portas no décimo andar e ele saiu. Caminhou até a porta do seu apartamento e puxou as chaves do bolso. Enfiou na porta e girou duas vezes. Abriu a porta lentamente, não queria fazer barulho caso ela estivesse dormindo. Assim que a porta abriu num ângulo de quarenta graus, entrou e notou a luz da cozinha acesa. Ela estava acordada, ainda dava pra comemorar sua promoção. Fechou a porta e trancou-a com a chave. Virou-se na direção da cozinha e viu Vânia no portal com os braços cruzados, um cigarro na metade nos dedos da mão direita e uma cara de poucos amigos. Olhou para a sacola em sua mão e depois o olhou nos olhos. Quando a boca abriu para dizer algo, ela deu-lhe as costas e voltou pra cozinha. Achou estranho. Muito estranho! Dessa vez não sorriu ao olhar para o uísque na sacola. Sua felicidade com a promoção era tanta, que tinha esquecido o quanto Vânia estava estranha e seca naquela semana. Então sua promoção tinha de ser o motivo pra ela voltar ao normal.

Ao entrar na cozinha, lá estava ela o encarando, sentada na mesa de jantar, de frente para o portal, com um cinzeiro cheio de guimbas, uma garrafa de cerveja pela metade e um copo cheio. Aproximou-se da mesa, colocou a sacola em cima e quando abriu a boca pra dizer algo, foi interrompido:

– Senta! – disse ela soltando a fumaça enquanto falava.

Puxou a cadeira de frente pra ela e sentou-se.

– Não dá mais pra viver assim. – disse ela friamente, encarando-o.

Permaneceu calado, sem saber o que dizer. Ainda tentava digerir o que acabara de ouvir. “– Como assim não dá mais?”. Pensou. Queria ter dito, mas as palavras não saíram.

– Eu já estava começando a ficar puta por saber que você sai as sete e sempre chega depois das nove… Não tem como pôr desculpa em engarrafamento… Principalmente chegando à uma hora dessas.
– Mas eu nunca disse que era…
– Não interessa! – esbravejou. – Eu não aguento mais isso, Carlos.
– Não aguenta o quê? – maneirou no tom de voz, tentava manter-se calmo.
– Eu só te vejo direito no final de semana… – deu uma tragada carregada. – Isso quando alguém no seu trabalho não te liga pedindo ajuda nisso e naquilo… – soltou a fumaça. – E você vai igual um babaca ajudar.

Preferiu manter-se calado. Pousou os cotovelos na mesa e mergulhou a cabeça nas mãos, encravando os dedos nos cabelos. Não queria acreditar no que estava ouvindo e que não teria uma boa noite depois da promoção.

– Você não chega junto… Acabei conhecendo alguém que chega!

Pronto. O fim da picada. Na hora seu sangue ferveu. Olhou-a com um ódio que não cabia no gibi:

– Você o quê? – se levantou num pulo, batendo forte com a palma das mãos na mesa.
– É isso mesmo que você ouviu! – imitou sua reação. – E gostaria que você pegasse suas coisas e fosse embora daqui! – apontou na direção de suas costas. – Vá morar com o seu trabalho, seus amigos de trabalho que te fazem de babaca e as vadias da rua com quem você se envolve… Eu não quero mais isso na minha vida!
– Não tem porra nenhuma de vadia da rua, Vânia. – deu um soco na mesa. – Você está louca, caralho! E que porra é essa de outro alguém?
– Carlos, vá pra puta que o pariu! Mas vá embora!

Ficaram calados se olhando furiosos. Depois de digerir a informação, pegou a sacola com o uísque, que agora serviria não pra comemorar a promoção, mas pra se afogar junto da foça que sabia que viria daqui a alguns minutos.

– Suas malas já estão prontas no quarto. Só pegá-las e tomar o caminho da roça!

Foi até o quarto. Duas malas em cima da cama. Abriu-as e conferiu qual tinha mais importância e fechou a mala escolhida. Tirou o relicário do bolso e o colocou aberto em cima do travesseiro que ela usava. Saindo do quarto, parou no portal da cozinha e lá estava ela sentada no mesmo lugar, com os cotovelos na mesa e a cabeça mergulhada nas mãos.

– Desejo toda sorte do mundo pra vocês dois… – respirou fundo. – Eu te amo.

E foi embora.

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Nota: Como o post “Pela segunda vez” vai virar quadrinhos, me empolguei a ponto de escrever a primeira vez. Quem sabe futuramente eu não me empolgue mais e surja uma terceira e última vez? Desde já, gostaria de agradecer ao Denis pela ideia e oportunidade. Te amo, cara.

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2 pensamentos sobre “A primeira vez

  1. Pingback: Outra vez « Escrevo fracassos

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