Nós e Nós

Não adiantava mais encenar. Sua maquiagem de coragem tinha se desfeito e seu medo natural já estava bem à mostra… E como!

– Está tudo bem, não fique tão aflita. – disse eu, sorrindo. – Não há perigo algum e você está à salva por aqui, comigo. Mas, permaneça, senão, aí já não é por mim. – naveguei meus dedos pelos seus cabelos por trás de sua cabeça. – Quantas vezes já te disse que te protegeria, antes mesmo de vê-la sem maquiagem?

Admito… Eu nunca descobriria que ela era do tipo de que tanto precisa de proteção, se aquela chuva não tivesse desfeito sua maquiagem. Ela é uma boa maquiadora, me enganou legal. Fato! Merece méritos por isso, mas não iria mais me enganar. E enquanto ela me olhava com uma cara de espanto, acho que ainda tentando digerir o que eu tinha dito, continuei:

– Pode ser você mesma a partir de agora, não vou te julgar nem criticar, vou é gostar muito! – dei-lhe um beijo estalado na testa. – Sou exatamente o que você vê: esse livro aberto, com uma capa surrada e um miolo mal escrito, mas cheio de histórias de um passado que nem eu mesmo lembro direito. – sorri sem graça. – Mas não lembro, pois, a partir do vigésimo capítulo, acabei me tornando quem eu sempre era pra ter sido. Complicado, não? Um dia você acabará entendendo. E pode se desfazer também desse cabelo laranja… Ninguém nasce com um cabelo laranja, nasce? Mais perto disso é o ruivo… Eu acho… Não, não é. Ruivo é ruivo. Cabelo laranja é legal, mas agora eu gostaria que você se despisse toda, até a alma, e me mostrasse seu verdadeiro “It’s me”.

Tínhamos pouco tempo pra reverter àquela situação. Eu não queria que ela fosse uma simples flor de plástico. Flores de plásticos não tem vida e perdem a graça. Também não queria que ela fosse de porcelana. Porcelana não dura muito e é tão… Tão… Frágil. Então, de repente, com os olhos marejados ela me pergunta o que eu gostaria que ela fosse e assim seria.

– Seja você! – eu disse. – Independente do que seja… Seja você, e só! Se desfaça de tudo que te disseram que devia ser. Não devemos fazer mal a nós mesmos para agradar os outros. Mas também não vá fazer mal aos outros para agradar a si próprio, nem aos outros. É tudo uma questão de interpretação. Sério! – fui caminhando até a porta do quarto. – Se quiser a gente se tranca aqui e eu apago as luzes pra que você dispa a tua alma com delicadeza.

Acho que ela encarou de um jeito que… Bem… Pela sua cara, com certeza não entendeu o que eu quis dizer. Mas isso já faz parte do meu azar… Nunca consigo explicar direito e sempre entendem completamente ao contrário. Então, ao ver sua expressão facial mudar para o medo e seus pés começarem a inconscientemente procurarem um lugar seguro para se afastar para o mais próximo da janela atrás dela, continuei dizendo:

– Não que eu queira possuir tua alma ou que eu seja algum tipo de demônio querendo levá-la comigo para uma espécie de Inferno no fim da tua vida. – sorri achando graça do que eu acabara de dizer. – Quero levá-la comigo até depois do fim da MINHA vida, mas de uma forma pura, terna, serena… Eterna! – encolhi os ombros. – Ah! Você entendeu. Quero levar quem você realmente é… – levantei e fui caminhando na sua direção. – Não quero passar anos ao lado de alguém que um dia eu possa, de repente, virar e perguntar: “- Mas quem é você, afinal?”. Seria estranho… Muito estranho! – já bem próximo, olhava-a nos olhos. – Compreende?

Aí ela entendeu. Se não tivesse entendido, as lágrimas nos olhos não teriam brilhado depois de um suspiro carregado e aquele imenso sorriso não teria tomado conta de sua face. Ela olhou pra cama e pediu pra que eu apagasse as luzes.

– Não precisa ser imediatamente. – eu disse. – Sei que está um pouco perplexa e sem graça por ter sido descoberta assim tão cedo… – acariciava seus braços. – Se eu não estivesse tão atento quando sua maquiagem deu-me brecha pra ver tua alma, nada disso, talvez, estaria acontecendo. Quem sabe? Mas agora que vi, quero a verdade. A mais pura e crua verdade nua!

Encarando-me com um olhar cheio de certeza, ela despiu-se. Então pude ver a mais bela forma de ser, que ela insistia tanto em esconder… Parecia um espelho. Bem na minha frente vi-me com órgãos femininos. E sem nenhum vestígio de maquiagem, vi minha cara-metade, que há anos se escondia de mim em um alguém que eu já amava. Isso foi há poucos segundos e já não sei quem sou eu e quem é ela… Na verdade, o “eu” e o “ela” morreram. Agora, somos apenas “nós” e “nós”.

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