Quem…

Desde que eu te conheci, as coisas mudaram de um jeito impressionante. Radical, posso dizer. Eu não acreditava em perfeição e estava longe de ser considerado “um-cara-muito-perfeccionista”. Era completamente o contrário, eu era considerado “um-cara-com-déficit-de-atenção”, que até hoje eu não sei se realmente tinha isso… Sei lá. Pouco importa. O que sei é que eu esquecia as coisas rapidamente, mudava assuntos que eu mesmo começava e não conseguia ficar prestando atenção na mesma coisa por muito tempo. Na infância, eu até sofria com isso por conta de sentar na frente, ter pouquíssimos amigos e sempre tirar notas baixas, mesmo passando horas de castigo no quarto estudando. Minha mãe até ficava preocupada e acreditava em mim, mas pro meu pai eu não passava de um mentiroso que não queria estudar e ser alguém na vida.

Mas na adolescência eu conheci os prós e os contras de ser assim… Meio desligado. Era bom quando eu esquecia as coisas que realmente queria esquecer, mas sofria em dobro ao esquecer coisas que eu queria lembrar e levar pra vida toda. Você pode não acreditar, mas, não lembro ao certo quem foi minha primeira namorada. Só lembro que ela era gorda e se parecia com a Fiona, pois me lembrei dela quando já te conhecia e víamos pela quinta vez o filme Shrek. Agora, o nome, idade que tínhamos na época e outros detalhes… Não lembro. Com quem perdi a virgindade? Queria dizer que foi com você, pois é das noites contigo entre quatro paredes, que me lembro. Desde o nosso primeiro sexo, que pra mim foi a primeira vez que eu… Relacionei-me carnalmente com alguém. Poderia até dizer isso se não fosse por aqueles bilhetes, fotos 3×4 e cartas que tenho guardado numa caixa de sapatos no meu armário, com assinaturas de mulheres diferentes. Desde que você os achou, eu me pergunto por que os guardei e quem são elas… Antigamente eu devia pensar que era uma boa ideia. Mas acho que pra você pareceu uma sala troféu ou fragmentos de saudade.

Bom, o que estou querendo dizer é que… Desde que eu te conheci, minha falta de atenção aumentou, pois eu comecei a ter toda a minha atenção voltada só pra você. Posso dizer coisas que eu nunca disse e nunca diria… Desde que eu te conheci. Eu me lembro de tudo, inclusive a primeira vez. Não me lembro do que eu vestia ou o que eu fazia lá, mas eu estava sentado num dos bancos no meio daquela praça – onde passeiam muitos casais apaixonados, idosos alimentando pombos com farelo de pão, donas de casas passeando com carrinhos de bebê e etc. – quando te vi se aproximando rumo ao banco à minha direita. Enquanto caminhava calmamente, meus olhos lentamente percorreram dos teus pés a sua cabeça. Sapatos brancos e comuns, que lembrava já ter visto alguém usando iguais em algum lugar; Calça jeans azul claro com tons de branco em algumas partes e presa por um cinto largo, marrom e com uma fivela prateada e retangular; Blusa branca com um tímido decote e as mangas longas e brancas puxadas até acima dos cotovelos. Quando bati meus olhos nos teus, você já estava sentando-se no banco à direita e ajeitando seu fino óculo de grau. Virei o rosto, tímido, mas meu déficit parecia ter ido embora. Fiquei me remoendo pra não te olhar de novo e acabei não resistindo. Olhei. Você ajeitava seu negro rabo de cabelo ondulado, enquanto olhava para um pequeno livro aberto sobre suas pernas. Quando bati meus olhos no livro, um vento generoso passou levantando um pouco a capa e algo me fez crer que eu já tinha lido aquele livro…

De repente me vi levantando e caminhando na direção do seu banco. Sentei-me ao seu lado e sem minha permissão, meu cérebro e boca viraram melhores amigos e começaram a puxar assunto sobre o livro. Meus braços entraram na brincadeira e fizeram sua parte nos trejeitos. E enquanto tudo isso acontecia, ao mesmo tempo eu me perguntava: “– Mas que porra é essa?”. Quando me dei por mim, estávamos dando boas risadas e eu já tinha percebido que você sempre ajeitava o cabelo atrás da orelha quando eu lhe fazia um elogio, desviava os olhos quando eu te olhava nos olhos depois de uma pergunta pessoal, mudava o cruzar de pernas quando eu perguntava sobre o livro, e etc… Parecia que não era eu. Depois de um tempo trocamos telefones e eu te acompanhei até a porta do prédio onde você trabalhava, tinha acabado seu horário de almoço.

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