…sou…

Quando peguei meu ônibus, fiquei aliviado, pois eu pensava que até chegar a minha casa, eu já teria esquecido aquela loucura toda. Mas quando cheguei, vi meus dedos puxando o celular e enviando uma mensagem para o seu número: “Jantar hoje às 20h? Busco-te no trabalho às 19h!”. Então comecei a pensar que tinha recebido algum santo sinistro no meu corpo ou eu estava começando a desenvolver uma dupla personalidade, sem querer. Parei de pensar quando sua mensagem chegou: “Combinado! Beijos ;)”. Comecei a ficar nervoso… Eu nunca tive um encontro. Se já tive, não me lembro. O que eu iria fazer agora? Resolvi respirar fundo e deixar tudo aquilo acontecer, afinal de contas, era só um encontro e depois poderíamos nunca mais nos ver… E, não é possível… Uma hora eu iria esquecer isso tudo.

Cheguei à frente do prédio do seu trabalho no horário combinado. Dessa vez, não foi meu santo sinistro, fui eu que mandei a mensagem: “Já estou aqui embaixo te esperando”. E alguns minutos depois você apareceu. Cumprimentamo-nos e eu chamei um táxi. Durante o percurso até o restaurante, que não sei como lembrei o nome, conversamos sobre diversos assuntos. Você me contou sobre o seu trabalho, seus livros e autores prediletos… Daí que lembrei que o livro que estava no seu colo era meu e saiu meu nome pela sua boca quando disse os autores. Não lembro se outras pessoas tiveram a mesma reação que a sua ao saber quem eu era… Mas a sua foi linda. Senti-me um Deus e fiquei todo embasbacado ouvindo você dizer com um brilho nos olhos, tudo que gostava no meu jeito de esquecer… Fiquei sem o que dizer quando você disse que parecia que eu esquecia as coisas que tinham acontecido nos capítulos anteriores e que a maioria dos personagens agia como se tivessem amnésia ou não se importassem com o passado ou futuro, só com o presente. “– Como uma porra dessas vende, então? Melhor… Como alguém compra isso?” – pensei. Mas explicou muita coisa. Como às vezes que eu entro no meu e-mail… O que penso ser spam são realmente e-mails pra mim. Espera… Como eu me lembrava dos e-mails?

Admito… No restaurante eu já estava bem entediado por saber que eu não precisava dizer nada sobre a minha vida. Você já sabia tudo e tirou-me toda a graça de esquecer o merda que escrevia merdas que eu sou. Nessa hora pensei que isso tornaria fácil voltar a ser o esquecido que eu era até te ver, mas enquanto eu pensava em ir embora, meu corpo parecia estar grudado na cadeira. As coisas só começaram a ficar interessante quando começou a me contar sobre sua vida, depois de dizer que daria um bom livro. Acho que me encantei pelo fato de achar que seria um livro bem melhor do que as merdas que ando escrevendo. Mas como eu me lembraria da sua história depois que acabasse as férias daquela porra que já não sei mais se chamo de amnésia, amnésia-crônica, déficit-de-atenção… Sei lá! Depois do jantar, enquanto eu pensava em ir logo pra casa, minha boca disse que te acompanhava no táxi até a sua casa. E assim que o taxista deu partida, avançamos nosso primeiro sinal… O primeiro beijo!

Na frente da sua casa, me convidou pra entrar. Beleza, meus planos até então estavam indo de acordo com o planejado. Só faltava o prazer carnal… Depois: esquecimento! Mas aí depois de me deixar esperando na cozinha, volta com duas taças e uma garrafa de vinho, pede que eu encha as duas enquanto você liga o rádio. Os Bee Gees tinham mesmo que estar tocando naquela hora? Melhor… Você tinha mesmo que me convidar pra dançar ao som de Love So Right? Não precisou nem de um gole de vinho pra que eu te beijasse antes do refrão e percebesse que caso eu te esquecesse, depois que fosse embora, seria uma das coisas que eu iria sofrer ao dobro por ter esquecido. Depois do refrão, eu já estava rezando em pensamentos pra que não esquecesse e que tudo continuasse bem como estava acontecendo. Durante o segundo refrão, já estava tentando aproveitar ao máximo, como se fosse o último momento da minha vida. E quando a música acabou, avançamos nosso segundo sinal… O primeiro sexo!

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