Outra vez

Ficou até três horas da manhã de Sábado, bebendo sozinha a garrafa de White Horse que tinha comprado. O caviar que tinha feito para o jantar, como tinha sobrado tudo, colocou na geladeira. Serviria para o almoço e janta do dia seguinte… Isso se realmente almoçasse e jantasse. Algumas horas atrás, o que ela pensava que seria uma reconciliação, foi quase uma certeza de que ele não voltaria mais e que ela tinha posto tudo a perder na primeira vez. As velas que tinha acendido às oito horas, já não tinham sobrado nem as ceras nos castiçais. Desde as meia noite, a única coisa que iluminava aquela cozinha, que mais parecia um bar, era a luz da lua que vinha da sala e a brasa de um novo cigarro que vira-mexe era aceso. Tateou a parede e encontrou o disjuntor. Acendeu as luzes. Garrafa vazia, guimbas e cinzas direto para o lixo. Deu um último gole no tantinho de uísque que tinha no copo e jogou-o na pia. Saindo da cozinha, deu um tapa no disjuntor e apagou as luzes.

Quando entrou no quarto, deu de cara com um espelho que tinha na lateral direita da cama e seus olhos pararam no reflexo do relicário que brilhava. O relicário que ele tinha dado a ela há três anos… O dia da promoção, que ela ficou sabendo dois anos depois por conta de um amigo dele. Com muita dificuldade conseguiu tirar a atenção do espelho e virou-se de frente pra janela, no lado esquerdo da cama. Ventava tão forte, que parecia fazer jus a tempestade que se fazia presente em seu coração e as nuvens negras em sua cabeça. – “Só falta chover” – pensou. Como se os céus ouvisse seus pensamentos, começou a chover… E ela, já ajoelhada com metade do corpo debruçado na cama, começou a chorar. Como se não tivesse forças pra se locomover, se arrastou pra cima da cama, se encolheu debaixo das cobertas e mergulhou a face no travesseiro… Não queria se ouvir chorando.

Acordou por voltas das uma hora da tarde. Tinha esquecido a janela aberta e por isso, a chuva molhou uma parte do chão que ficava frente à janela. Ao se levantar, viu que seu choro tinha molhado boa parte do travesseiro. Decidida, foi até o armário e escolheu seu segundo melhor traje, já que o primeiro tinha sido usado na noite anterior. Tirou-o de lá e cuidadosamente o estendeu na cama. Foi até o banheiro, tomou um bom banho e voltou para o quarto. Vestiu-se e ficou meia hora se maquiando. Caminhou até de frente ao espelho e conferiu-se. – “Bonita e gostosa!” – pensou. Foi até a janela e a escancarou mais:

– Hoje não vai chover… Definitivamente não vai!

Saindo do seu prédio, parou o primeiro táxi vago que se aproximava. Passou o endereço ao motorista e desde já, ficou ansiosa aguardando chegar ao local desejado.

– Se for mais rápido eu pago o dobro que der nessa bandeira. – disse impaciente.

O taxista apenas franziu a testa olhando-a pelo retrovisor e pisou fundo no acelerador. – “Estranho… Geralmente elas pedem pra ir mais devagar” – pensou. Chegando ao local desejado.

– Trinta e sete reais. – disse o taxista. – Setenta e quatro com o bônus que a Senhora mesma falou. – sorriu feliz da vida.

Vasculhou a bolsa por alguns minutos e encontrou sua bolsinha de dinheiro. Tirou oitenta reais e o entregou.

– Fique com o troco. – e abriu a porta, saindo às pressas.

Desceu de frente para um humilde casebre, onde mal caberia uma pessoa. Não tão pequeno como uma quitinete, mas não tão perto de ser uma casa. Faltando cinco passos pra se aproximar da porta, parou, olhou-se, ajeitou-se e continuou. Não tinha campainha. Tirou a bolsa-tira-colo e usou-a para bater três vezes na porta. Quando ia bater novamente, ouviu o barulho da fechadura rodando. Levou a bolsa-tira-colo de volta ao ombro e aguardou. Uma mulher abriu a porta:

– Oi. – disse sorrindo.

– Bom dia, o Carlos está?

– Está… Quem deseja?

– Diz que é a Vânia.

A mulher fez uma cara estranha e ficou calada por alguns segundos olhando-a.

– Vou chama-lo.

– Muito obrigado. – disse com um sorriso de orelha a orelha. Tinham lhe dado o endereço certo, só não imaginava que fosse… Uma… Espelunca?!

Quando a mulher saiu, deixou a porta meio aberta num ângulo de trinta graus, que permitia ver um pedacinho da sala. Esgueirou-se um pouco para direita, tentando ver melhor. Ao ver, pelo chão da sala, uma sombra se aproximando, desviou os olhos para a rua, ficando de costas pra porta. Ouviu o barulho dela se abrindo mais.

– Vânia?! – disse Carlos, surpreso.

Ela virou-se, ainda com um sorriso largo na face.

– O que faz aqui? – continuou.

– Vim resolver a nossa história! – disse firme.

– Que história? Está louca? – fechou a porta às pressas. – Como ousa vir aqui?

– Vindo! – aproximou-se. – Eu sei que você ainda me ama e que no fundo quer voltar pra casa.

Quando tentou abraçá-lo, ele afastou-se.

– Minha casa é aqui! O que você está fazendo aqui? – estava perplexo.

– Já disse! – sorriu. – Eu sei que aquilo ontem foi da boca pra fora. – estava confiante.

– Dá boca pra fora? – riu. – Você está realmente ficando louca, Vânia? – cruzou os braços.

– Vai me dizer que você não quer voltar pra mim? – tentou aproximar-se novamente.

– Lógico que não! – afastou-se. – Pensei que eu tinha sido claro ontem.

– Não! Eu sei que no fundo quer voltar.

Ficou calado. Puxou o maço do bolso enquanto caminhava a um banco que tinha à esquerda da frente da casa. Tirou um cigarro, acendeu e sentou-se. Ela veio atrás, ficando em sua frente, de pé.

– Quem cala consente, viu? – disse ela.

– No meu caso é diferente… Não sei o que dizer, pois não quero te ferir.

– Como assim?

– Vânia… – respirou fundo. – É sério, é melhor você ir embora. Eu não vou voltar… Independente do que faça.

– Tem certeza?

– Absoluta!

Sentou-se ao seu lado no banco:

– Vai mentir dizendo que não me ama mais? – sussurrou em seu ouvido.

– Ainda não sei se não te amo… – olhou-a nos olhos. – Mas sei que não te quero. E isso pra mim já é o suficiente.

– Você vai me trocar por ela? Não está nem há quatro meses com ela… Vivemos seis anos juntos!

– Pois é… Se ela me largar, talvez esses quatro meses não doam tanto quanto doeram os seis anos que você jogou fora. – olhou-a sério.

– Eu já me arrependi… Juro! Eu fui uma tremenda idiota mesmo… E você está falando isso da boca pra fora.

– Juro que não. – olhou para uma pedrinha perto do seu pé direito. – Sério! Assim como nunca desejei lhe magoar, não quero magoá-la… Não tem ideia do quanto ela me faz bem. Eu só voltei a rir… – olhou-a. – Rir de verdade, Vânia… Depois que a conheci. Você já teve sua chance e falhou. – voltou a olhar pra pedrinha. – Deixe-a ter a chance dela. – chutou a pedrinha.

Ficaram em silêncio enquanto ela começava a chorar de soluçar. Não queria abraçá-la, pois, sabia no que poderia causar nela. Sabia muito bem o que podia e o que devia fazer. Não podia ser tão frio quanto ela foi, na primeira vez, e quanto ele foi, na segunda. Não devia dar-lhe nenhum pingo de esperança, realmente não queria voltar e não era por orgulho. Imaginou não ser homem suficiente para levantar-se e mandá-la embora, como queria. Mas, por mais que ela o tenha tratado como lixo quando o mandou embora, sem saber o motivo ainda sobrava um resto de respeito e seu cavalheirismo não o permitiria tomar tal atitude.

– Eu não acredito que você vai trocar seis anos da nossa história por quatro meses com ela. – murmurou entre os soluços. – Eu não posso te perder assim tão fácil.

– Nós criamos um livro de seis anos e você escreveu o último capítulo… O fim. Eu e ela estamos criando um livro, que por mais que ainda tenha quatro meses, podem virar seis, sete, oito, nove anos. – levantou-se, ficando de frente pra ela. – Ela sabe tudo sobre minha vida, não escondo nada… Inclusive, sabe quem é você e o que aconteceu. Por mais que eu ainda não a ame, tenho um grande respeito e imensa gratidão, por ter me tirado da foça que você me jogou… Isso, pra mim, já é o suficiente pra não voltar pra sua casa. – beijou-lhe os dedos que cobriam o rosto enquanto chorava. – Por favor, Vânia, vá embora e não tenta mais, estragar a minha vida outra vez.



A primeira vez

Pela segunda vez 

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