You make me feel brand new – Parte de 1/2

Quer saber como era antes de você aparecer? Não havia nada de mais, por isso já posso lhe afirmar que não foi tão difícil se tornar o mais que faria toda a diferença. De segunda a sexta pela manhã era sempre o mesmo ritual: Acordava todo dia as cinco em ponto, me espreguiçava na janela e ia pra cozinha. Enchia d’água uma panela e um jarro metálico, levava ao fogo e nesse mesmo fogo acendia o primeiro cigarro da manhã. Interessante é que esse chuveiro que você vive reclamando que devo consertar está quebrado há anos e não conserto pra economizar luz. Enfim… Saía de casa, comprava o jornal na banca da esquina, o pão na padaria ao lado da banca e voltava pra casa fungando o ar quente que saia do saco de papel com pães. Colocava-os na mesa da cozinha, fazia meu precioso café matutino, enchia a minha caneca da sorte – até um cara azarento merece uma caneca da sorte, viu? –, preparava três pães, tirava a parte dos esportes e me sentava pra tomar meu café-da-manhã. Quando a água da panela começava a borbulhar, eu já estava satisfeito e tinha terminado de ler a parte dos esportes – só lia a página referente ao meu time de coração –. Ia para o banheiro, jogava a água quente nesse mesmo balde vermelho que está há anos no banheiro e ligava o chuveiro. Se mesmo depois de misturada, a água ainda tivesse pelando… Fumava outro cigarro na janela olhando os ônibus passando e a neblina se dissipando, enquanto dava um tempo pra água esfriar.

Sim, sempre demorei quase meia hora pra me arrumar e nem vem com essa de que demoro mais que você. Quando nós vamos sair, dá tempo até de eu tirar um cochilo! Mas isso não vem ao caso agora. Voltando… Acho que sempre fui o único cara do meu trabalho que sempre aparece com a camisa social amarrotada e não está nem aí pra isso. Não vem com essa de que sou desleixado, largado e etc., apenas acho desnecessário gastar minutos “desamassando” o que vai ser “amassado” no ônibus. Por volta das seis e dez eu estava no ponto de ônibus esperando aquele motorista gente boa que sempre passa por volta das seis e vinte, seis e meia. Durante a viagem, plugava o fone no celular e colocava a playlist pra tocar de onde parou no dia anterior. Chegava ao trabalho sempre por volta das poucas pras oito ou oito e poucas. Entrava no prédio, no elevador… Décimo nono andar. Chegando, ia direto pra sala de lanche e pegava um café expresso na maquininha-gente-fina que vive dando boi comigo. Terminando o café, ia pra minha sala fazer o que meus superiores dizem que faço de melhor: Trabalhar… Ou “meu trabalho”. Eu já vejo como: “lei-áurea é para os fracos, seu idiota”.

Meio dia, fazia uma pausa de uma hora pra almoçar na sala de lanche, com aquelas pessoas supersimpáticas que acham que ganho bem e vou ganhar uma promoção em breve. Novos funcionários… Mal sabem que daqui há um ou dois meses estarão pedindo arrego. Por que todo funcionário que está aguentando o tranco há anos como eu, não esquece nenhuma das chibatadas que levou durante anos antes de ganhar a primeira promoção… De merda. Mas faz parte da ética dos que já passaram da primeira fase, não desestimular os novatos. Vai que um desses trinta aguenta o tranco como eu aguentei… Como o Denílson aguentou… O Flávio, a Hilda, o Luciano… Treze horas em ponto eu voltava pra minha sala. O que mais gosto no meu trabalho é que quando pisco, já está na hora de partir. Dezoito horas, lá estava eu indo para o ponto esperar o rabugento motorista que passa por volta das dezoito e vinte, dezoito e quarenta e que às vezes finge não me ver no ponto.

Chegava a casa por volta das dezenove e trinta quando não tinha trânsito e por volta das vinte e vinte quando tinha. Ia pro quarto, trocava de roupa, pegava um bloco de notas e uma caneta, voltava pra sala e jogava-os no sofá, indo pra cozinha em seguida. Desligava o frigobar e arrastava-o até a sala, deixando do lado do sofá e ligava na tomada. Acendia um cigarro, sentava, pegava o controle do rádio e ligava na MPB ou na Paradiso ou na JB e começava a minha viagem. Todo artista que eu não conhecia, que tocava e eu gostava, anotava o nome no bloco… Assim como os que eu nem lembrava mais que existiam. Relembrei muita coisa do Simply Red assim. E ficava de cerveja em cerveja, cigarro em cigarro, música em música, anotações e anotações, até o álcool me trazer o sono. Já o sono, nunca vinha em uma hora certa como todas as outras coisas que eu fazia. E independente da hora que ele viesse, eu ia pro quarto, ligava o computador, colocava pra baixar todas as minhas anotações e ia pra minha “naninha”.

No Sábado eu acordava por volta das oito horas, já colado no computador com um cigarro aceso e uma latinha de cerveja na mão, pra conferir tudo que eu tinha baixado durante a semana. Quando meu time jogava no Sábado, fazia uma pausa pra ouvir o jogo e depois voltava para o computador. É sério, todo final de semana meu computador tinha mais de cinco gigas de música “nova”. De noite eu fazia uma playlist com as melhores da semana, ligava o amplificador de guitarra que comprei exclusivamente para o computador e ficava na janela do meu quarto bebendo uísque, fumando um cigarro, curtindo música boa e procurando constelações nas estrelas. E o Domingo não era muito diferente disso não, então não preciso contar.

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