Ervas daninhas

Passei um bom tempo afogando no álcool os problemas que foram surgindo. Nunca foi a primeira opção, garanto. Antes de mais nada, sempre que um problema surgia, a primeira opção era sempre de sentar e pensar sobre, pra poder tentar resolver da melhor maneira. Quando assim não se resolvia, partia para a segunda opção, tentar fingir que com o tempo tudo iria se encaixar. Quando não se encaixava… “- Professor, apita o início do jogo que eu já quero marcar meu primeiro gol”, e chegava a primeira loira gelada. No fim do jogo eu me sentia a versão masculina de Alice no País das Maravilhas, artilheiro nato do campeonato e uma pessoa feliz, sem problemas. Há quem diga que beber é uma arte pra poucos. Há quem diga que beber para afogar os problemas é para os fracos ou coisa de alcoólatra. Pra mim, beber é pra quem gosta e se é você quem paga, você pode fazer da maneira que bem quiser… Inclusive, afogar os problemas. Esse papo de alcoólatra, é quem deixa de comprar isso ou aquilo pra poder pagar uma garrafa de cerveja, quem não consegue ficar dois ou três dias sem beber e afins.

O bom tempo afogando no álcool os problemas, passou quando fui afogar mais alguns e vi todos os outros submersos. Entrei em pânico. Meus problemas tornaram-se mortos-vivo e tinham voltado pra cobrar pelo meu pecado de tê-los deixado pra trás como se isso fosse resolver o meu problema. Então a partida foi pra prorrogação… Consecutivamente, para os pênaltis. Perdi o jogo, não marquei um gol sequer, perdi um pênalti e o campeonato. Mesmo já não sendo pouco, além de tudo isso, o time que eu mesmo fundei me dispensou e nenhum outro fez proposta de contrato. Não apareceu nem um contrato de risco ou algo pior. Cheguei em casa numa tremenda fossa. Olhei no espelho e percebi que deixei os problemas de lado, mas eles nunca saíram do meu lado, estavam todos ainda ali, mortos-vivo, errantes, e até os que não eram meus, tinham a minha assinatura. O pior foi ver as raízes de inúmeras ervas daninhas.

Tomei um demorado banho gelado, passei no portal do quarto e fiquei alguns minutos olhando quem eu amo, dormindo. Agora estou aqui, infeliz, no meu escritório e decidido a cortar, com essa lamentável carta, as raízes dessas ervas daninhas que surgiram na minha vida. Amor, eu espero que você entenda ao acordar e ver que o meu lado da cama continua do jeito que estava desde quando eu acordei ontem. Você vai abrir o armário e notar que agora há um espaço a mais para os seus futuros novos sapatos, suas futuras novas roupas e bolsas, e seus futuros etc que queira pôr no meu lugar… Não me importa o que seja. Depois disso vai achar que é piada, uma de minhas pirraças e que daqui a pouco eu vou ligar pedindo desculpas e dizer que a noite estarei voltando pra pôr tudo no seu devido lugar. Mesmo que nesta carta eu lhe garanta que isso não vai acontecer, você, talvez, não vai levar a sério. Mas acredite, dessa vez é pra valer. E no fim desta carta eu espero que você entenda, eu realmente te perdoei por todos os erros que você cometeu, por todas as vezes que me feriu, por todas as mentiras… Por tudo! Eu pensava que sim, mas nenhum deles saiu por completo da minha cabeça. Lembro-me desde o primeiro e vira-mexe me trazem pesadelos! Você nunca me ajudou a esquecê-los, foi meio que jogando nos meus braços e quase dizendo: “- Se vira!”. Então, agora estou me virando.

Você ainda não aprendeu a amar, só sabe ser amada. Sinto muito por ter sido tão legal, compreensivo, leal, companheiro e fiel, do jeito que você não gosta. Mesmo se um dia você não tiver aprendido a amar, eu volto. Desde que você me queira de volta e não mais nasçam ervas daninhas na tua vida.

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