Mais do que imagino

Eu posso até dizer que você é um enigma que quanto mais eu conheço cada detalhe, mais desconheço uma boa parte. É intrigante às vezes, mas, enigmas são assim mesmo, não? Quando você me pede pra sair de casa, dar uma volta e pensar na vida, nem sempre quando volto as coisas ficam tão claras como quando você sai de casa, dá uma volta e pensa na vida. O que eu faço de diferente nessas voltas? Será que inicio a linha de raciocínio de forma errada? Na hora das pazes, sempre é você quem tem a razão do lado e eu com uma bolsa cheia de falta de argumentos. Até mesmo quando o erro não é meu, você inventa toda uma ‘cadeia alimentar’ pra explicar as coisas e eu cedo. “Tudo bem, meu erro”. Na maioria das vezes eu cedo, não por ter me convencido, mas pra te agradar mesmo e fingir que realmente, depois da explicação, tudo fez sentido. Suas mentiras brincam de pique-se-esconde, mas eu sei onde todas elas estão escondidas. Só não tenho feito questão de ir ‘procurá-las’.

 Uma hora ou outra você vai perceber o quanto ando quebrado, com muletas invisíveis sustentando meu corpo e promovendo minha locomoção diária. Meu “Está tudo bem” é uma máscara sobre o meu “Está tudo uma merda mal cagada, das grandes e fedida pra cacete!”. Até há um jeito de fugir disso tudo, mas, sinceramente, eu não quero. Não que eu goste… É que eu sei exatamente tudo que vai acontecer depois. Se um dia eu conseguir me entender, talvez te largue de mão, de vez. Daí vai ser aquilo: Vou passar um tempo meio tranquilo, sentindo a sua falta sabendo que você novamente precisa de tempo pra amadurecer e entender certas coisas; Você vai sair, festejar, fazer uma porrada de coisas até perceber – pela milésima vez – que independente de onde esteja, de com quantas pessoas esteja e de quanto tempo isso passe, você sente falta de um único lugar, uma única pessoa e que o tempo parece ser muito mais aproveitado ao lado dessa mesma pessoa em questão; E quando isso acontecer, vai deixar suas mentiras de lado pra contar verdades, pedir conselhos aos seus entes queridos sobre como reverter essa situação e como reconquistar alguém, que sem você saber, continua conquistado.

Numa madrugada qualquer em que eu estiver completamente embrigado, jogado no sofá da sala assistindo a briga pelo cinturão do peso médio-pesado, você vai ligar chorando e perguntando o que eu tenho feito, como tenho passado e todo aquele blá-blá-blá. Minha adrenalina vai estar tão em alta que vou gritar: “Estou bem pra cacete sem você, bitch! Fuck you, asshole!”. Esses últimos vão sair por conta do linguajar do canal, juro. Mas a tradução é quase verdade… Enfim… Daí vou desligar na tua cara e continuar assistindo a briga, como se nada tivesse acontecido desde o Primeiro Round. Inclusive, vou dormir com a consciência completamente limpa e só vou perceber que você me ligou, no dia seguinte, quando acordar e pegar o celular para ver as horas. Você sabe que sempre que pego o celular pra ver as horas, dou uma conferida nas últimas ligações (mesmo até quando sei qual foi a última). Vou te ligar e irá parecer tremenda ironia quando com uma calmaria absurda eu te perguntar: “Me ligou de madrugada?”. Você, com toda razão, ou não, vai dizer que independente do que tenha feito não merece ser tratada daquele jeito e mais blá-blá-blá. Vou conseguir imaginar o que houve, pois sei como fico quando misturo de madrugada: bebida + você + UFC + um pingo de amor próprio. Com a consciência pesada vou pedir desculpas e querer perguntar o que queria ao ligar, mesmo já sabendo. Vai combinar comigo de vir me visitar no final de semana e mesmo sabendo a resposta, terei que perguntar: “Você tem certeza que quer fazer isso?” e você dirá com uma convicção que só vejo quando estamos separados: “Certeza absoluta!”.

Até esse final de semana chegar, minha vida vai continuar do jeito que estava sendo antes de marcarmos esse encontro, enquanto você vai ensaiar frases, cenas, gestos e se preparar pra vir ‘vestida pra matar’, daquele jeito que até quando não mata, eu cometo suicídio – tenho tesão por você até vestida com roupas encardidas, com a maquiagem borrada e três meses sem se depilar –. Quando o fim de semana chegar, só de sacanagem, de pentelho mesmo, vou comprar a cerveja que mais odeia, o cigarro que você não fuma e fazer miojo para o jantar. Quando chegar, vai ficar alguns minutos na frente da porta, juntando coragem pra tocar a campainha e dando uma última olhada no pequeno espelho que carrega no bolso interno daquela bolsa que já faz parte do seu corpo. Antes disso, vou fazer a minha parte: Bagunçar meu cabelo; Esfregar bastante os olhos; Amarrotar bem a camisa antes de vesti-la; Pegar algumas roupas no armário e espalhar pela sala; Encher um cinzeiro com as guimbas que tem espalhadas pelos quatro cinzeiros da casa e colocar num lugar bem visível; Encher a pia de louça limpa; E ficar te olhando, pelo olho mágico, tomando coragem pra tocar a campainha. Quando ver sua mão subindo em direção a campainha, vou abrir a porta com pressa, arregalar os olhos e dizer: “Você está linda!”, como se eu não soubesse ou como se tivesse ficado mais linda que o normal. Seus olhos vão se arregalar ao me ver igual um mendigo.

Depois de segundos em silencio, entraremos. Fecharei a porta e seus olhos vão percorrer toda a sala, notando as roupas espalhadas, o cinzeiro cheio e o perfume de ‘álcoolbaco’ pelo ar. Pedirei que sente-se enquanto pego umas cervejas pra gente na cozinha e você irá preferir me seguir ao em vez de esperar. Na cozinha vai ver a louça cheia e dois pacotes de miojo sobre uma das bocas do fogão. Quando eu estender a lata de cerveja na sua direção, ao ver a marca, vai dizer que não está a fim de beber nem de comer, apenas conversar. Sentaremos no sofá, beberei sozinho, e quando eu acender um cigarro, vai pensar duas vezes antes de pedir um… Mas vai pedir. Porém, fará caretas enquanto fuma e não conseguirá fumar até o final. Nossa conversa vai ser quase um monólogo, você falando que sem você eu não vivo bem, que é perceptível a falta que faz pra mim, que nunca encontrarei alguém que me ame e me valorize como você, que preciso de ti pra organizar minha vida e etc. Enquanto estarei ouvindo tudo isso da forma que você queria dizer, mas nunca consegue… Que sem mim não está vivendo bem, que é perceptível a falta que faço, que nunca encontrará alguém que te ame e te valorize como eu, que precisa de mim pra fingir organizar a vida de alguém e etc. Vai chorar dizendo que reparou que não tenho me alimentado bem e no final, vai dizer que me perdoa por ter te deixado partir. Sem dizer uma única palavra esse tempo todo, vou levantar, sorrir, te dar um beijo apaixonado e agradecer por ter me perdoado. Faremos aquele sexo conciliador e iremos na casa dos seus pais buscar as suas coisas. E viveremos felizes para ‘quase-sempre’ até você começar a ficar estranha novamente.

Pois é… Acho que te conheço mais do que imagino.

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