Pré-conceito

Se ela não estivesse com aquela camisa com um ‘The Strokes’ estampado no peito – igual aquela do guri do Transformers –, realmente não chamaria tanto a minha atenção. Sempre quis ter uma camisa daquela, mas a preguiça sempre me venceu na hora de procurar na internet. Eram quase cinco horas da manhã. Sentado na calçada esperando meu ônibus e olhando ela se aproximar do ponto com uma cara de quem não dormia há três dias, a camisa, uma calça jeans surrada, All Star Converse preto, maquiagem borrada e longos cabelos negros ao vento. Chegou ao poste não tão longe de onde eu esteva, virou-se de costas e recostou-se nele. “Se não pego a camisa, pego pelo menos quem a veste”. Pensei. Na falta do que fazer comecei a análise (vulgo: pré-conceito): “Ela não vestiria uma camisa dos Strokes se não gostasse de Strokes”, “Se gosta de Strokes, tem bom gosto musical”, “Se tem bom gosto musical, deve gostar de caras que tocam algum instrumento”, “Se gosta de caras que tocam algum instrumento, deve gostar de caras que sabem váááááárias dos Strokes”. E assim foi virando uma bela de uma cadeia alimentar até voltar para: “Se não pego a camisa, pego pelo menos quem a veste”.

Como quem não quer nada eu levantei, caminhei lentamente à sua esquerda e sentei numa parte da calçada onde dava pra ver seu rosto “destruído”. Agora era uma análise frontal: “Com essa cara toda amassada, deve ter bebido todas desde cedo”, “Se bebeu todas desde cedo, devia estar em algum barzinho ou na casa de alguém curtindo um bom som e batendo um papo”. E assim foi se sucedendo até parar em: “Se está aqui, agora, sozinha no ponto, não deve ter namorado”. Por coincidência divina, coisa do destino ou qualquer outra merda, nesse mesmo instante ela olhou na minha direção. Entendi como um: “Sim, não tenho namorado”. Rá! Ela voltou os olhos pra rua, eu respirei fundo antes de levantar. No primeiro passo que dei em sua direção, ela estendeu o braço e desencostou-se do poste. Olhei pra trás e vinha um ônibus. Não era o meu, mas entrei. Com tantos bancos vagos, ela foi sentar logo do lado de uma senhora, podendo sentar em um que caberia nós dois. Sentei no banco atrás das duas, torcendo pra que a senhora descesse no próximo ponto.

Apaguei. Acordei. Olhei a minha volta e lembrei-me de tudo. Olhei pra frente e lá estava ela sentada no mesmo banco… Sozinha! Quando levantei pra sentar ao seu lado, ela levantou e puxou a cordinha. Desci logo atrás, junto, na cola, na sombra. Depois de uns seis passos, eu tomei coragem pra tocar em seu ombro. Só vi um punho vindo à minha direção do nada e me levando ao chão com as mãos na bochecha direita.

– Para de me seguir, seu estuprador de merda! – gritou.

Nesse exato momento… Pra ser mais exato: seis e pouca da manhã, algumas pessoas paradas olhando pra mim ali no chão e uma garota linda com uma camisa do Strokes proferindo aquelas palavras. Imaginou a cena?

– Calma, guria! – gritei, assumo que, com medo. – Não é isso que você está pensando!
– Ah, não? – mas que tom irônico maravilhoso ela tinha. – Comigo você não vai conseguir nada, eu brigo feito homem!
– Tudo bem, só que não sou estuprador e brigo feito uma guria. – tentei descontrair.

Mal levantei e ela já estava com os dois punhos fechados e gingando na minha frente, igual uma lutadora de boxe profissional.

– Deixa eu me explicar. – olhei ao meu redor. – Pelo amor dos nossos futuros filhos, para com essa cena… As pessoas estão olhando.

Ela riu.

– Nossos futuros o que? – abaixou a guarda. – Você é louco?
– Não!… Mas meio que a minha explicação envolve um pouco de loucura. – cocei a cabeça. – Um pouco não… Muita loucura. – sorri sem graça.

Ela não disse nada, só fez uma cara de interrogação. E as pessoas voltaram a caminhar, mas ainda olhando em nossa direção. Devem ter pensado que era mais uma daquelas brigas de marido e mulher que ninguém mete a colher. Pelo menos nenhum policial apareceu querendo saber sobre alguma tentativa de sequestro, estupro ou uma desinteligência.

– Não estava te seguindo desde sei lá de onde você veio até aparecer no ponto de ônibus. – continuei. – Eu já estava no ponto antes de você aparecer.
– E? – cruzou os braços e começou a bater o pé esquerdo no chão, inquieta.

Fiquei todo desconcertado com aquela cena e completamente sem graça. Nessas situações, eu nunca sei o que dizer. Quem sabe?

– Sempre quis ter uma camisa dessas. – disse eu igual uma criança com inveja do brinquedo do coleguinha, desviando o olhar para os seus pequeninos pés.
– E? – enfatizou mais que anteriormente.
– Daí eu fiquei pensando um monte, sabe? – comecei meus trejeitos e a tagarelar, outra coisa que faço muito quando me sinto na parede prestes a ser fuzilado. – Que você deve gostar muito de Strokes pra ter uma camisa dessas… E se gosta muito de Strokes, deve ter um bom gosto musical… Nossos gostos devem ser bem parecidos… – suspirei já me sentindo mais que derrotado, humilhado. – Enfim… Imaginei que deve ser uma guria bem legal, do tipo que eu quero muito conhecer, sabe? – e pra finalizar a humilhação: virei tomate.

Manteve-se em silêncio, mas seu pé parou de bater o chão.

– Não vai dizer nada? – nem eu sei como fui me prestar a fazer aquele papel de babaca às seis horas da manhã numa porra de lugar que eu nem fazia ideia de onde era.
– Você estava certo. – disse por fim.
– Em relação a quê? – olhei em seus olhos, completamente esperançoso esperando ouvir um: Estava certo que sou bem legal e que podemos sim nos dar bem. Seu lindo!
– Nenhum louco assume que é louco, mas, garoto, você é muiiiiiito maluco! Entendeu? Completamente parafuso solto, sem noção e deve comer merda… Muiiiiiita merda!

Qualquer um que nasceu nos anos 80 diria que naquele exato momento eu tinha acabado de receber um “Fatality” lindo! E não acabou por aí, foi só o primeiro segundo do Fatality, pois ela se transformou numa metralhadora:

– Eu estava linda e maravilhosa na casa do meu namorado bebendo, curtindo um som no violão, até que um amigo babaca dele deixou cair vinho na minha camisa e meu namorado me emprestou essa porra pra vestir. Aí, se eu te der espaço pra falar, vai perguntar por que eu estava sozinha no ponto se tenho namorado. – bufou meneando a cabeça. – Nós brigamos por conta desse amigo babaca que sempre bebe e faz merda… Eu ia dormir lá, mas resolvi ir embora pra não me estressar mais com aquele BA-BA-CA, e não deixei que ele me levasse até o ponto. Aí, você por se achar inteligente de mais ou um… – abriu aspas com os dedos. – Don Juan da vida – fecha aspas. –, vai dizer: – em tom grave: – “Que namorado deixa a namorada ir sozinha de madrugada para o ponto, mesmo depois de uma briga?”. – riu feito uma malfeitora que acabou de tramar seu plano maléfico para dominar o mundo. Voltou ao tom normal: – Ele mora não muito longe do ponto e ficou no portão me olhando. Ligou-me dizendo que um cara estranho que ficou me rodeando no ponto tinha entrado no mesmo ônibus que eu e que era pra eu tomar cuidado. – levou a mão direita ao colo. – Eu achando que ele estava querendo me pôr medo pra descer e voltar pra casa dele, falei umas poucas e boas. – pausou, respirou fundo. – Daí agora você desce no mesmo ponto que eu e vem me abordar. – num tom de raiva: – Louco!

Deu-me as costas e tomou seu rumo, me deixando ali com a maior cara de babaca do mundo e com uma grande certeza: Maldito pré-conceito!

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