Já não me importa mais

Comprei esse jornal só por uma exclusiva curiosidade mesmo, geralmente eu só compro o jornal esportivo. Passeando meus olhos pelos jornais enquanto aguardava o troco, vi uma chamada com um nome familiar. Como não gosto de folhear um jornal e não comprá-lo, resolvi devolver o troco e levá-lo. Dobrei os dois debaixo do braço e tomei meu rumo de volta. Na cozinha, enquanto esperava o café ficar pronto, abri o jornal. Não era um nome familiar, era realmente alguém que eu conheço… Ou conhecia. Ela costumava gastar umas horas de seus finais de semana aqui em casa. Principalmente no meu quarto. Fazia um bom tempo que eu não tinha nenhuma novidade… Uns dois anos, por aí. E eu a conheci há uns quatro ou cinco anos, num bar. Apareceu com alguns amigos que tínhamos em comum. Hoje, a maioria deles são meus inimigos… Mas isso não vem ao caso. Já não me importa.

De acordo com a matéria do jornal, é mentira o que sempre nos dizem sobre o fato de não haver pinguins no hemisfério Norte: Que é um fator da natureza ou algum outro blá-blá-blá que meu descaso sobre o assunto me ajudou a esquecer. A realidade é que não existem pinguins no hemisfério Norte, pois os homens os extinguiram em 1844. Você sabia? Pois é… Como ela sabe disso? E de acordo com a matéria, ela tinha realizado seu sonho. Mas será que alguém além de mim sabia disso? Será que ele sabe? Ou será que ele nem existe mais? Pode ser outro já… Enfim… Já não me importa.

A matéria é realmente impressionante, muito bem abordada e prende qualquer um que pare pra ler. Mas do que nunca, acho que ela deveria tirar um tempo livre hora ou outra para tentar escrever um livro. Só o que não podia acontecer era terminar de ler a matéria e ver o e-mail do lado de seu nome. Já tinha um bom tempo que não caía em tentação… Verdade… Tudo bem, a quem eu quero enganar? Faz uma semana que liguei para o celular dela de um orelhão e desliguei no segundo “alô”.

O foda de tudo é que a vida dela seguiu em frente e a minha ainda fica na espera do amanhã. Ainda estou preso no dia depois do término. No caso… Ontem ela terminou comigo. Na verdade… De acordo com as folhas do calendário e o ponteiro do meu relógio: dois anos, sete meses, quatorze dias, três horas e vinte e nove minutos. Enquanto nesse tempo todo, ela terminou a faculdade, conseguiu uma coluna em um jornal bacana, aprimorou bastante a escrita e leva uma vida, me suponho, de conto de fadas… Eu me tornei um pinguim do hemisfério Norte, que perdeu sua parceira. Pois é, por conta dessa matéria eu me lembrei de uma vez que ela me disse que eu era seu pinguim e me contou uma história que quando um pinguim escolhe sua parceira, será ela até seus últimos dias. E caso sua parceira venha a falecer, ele não arruma outra.

Mandei o e-mail. Assunto: “Sou um pinguim do hemisfério Norte”. Texto do e-mail: “Moça, estava aqui no meu iglu no hemisfério Norte lendo o jornal que contém uma matéria sua sobre não haverem pinguins por aqui. Está completamente equivocada! Há aqui um pinguim que viu sua parceira partir e não arrumou outra para ocupar o lugar. Dê um pulo aqui, onde você sabe bem onde, e verá! Talvez até consiga evitar a extinção”.  Enviei. Se ela vai responder ou não… Já não me importa mais, a merda já foi feita e enviada.

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