Um eco no escuro

Às vezes somos “nós”, às vezes somos “eu”, e independente de quantos nós façam-me teu, cego ou não, meu maior algoz é a sina de ser Romeu. Em primeira pessoa, por mais que eu tente me singularizar, acabo no labirinto pluralizado e mal conjugado, mas sem deixar de ser primeira pessoa. E de singular já basta esse relacionamento bem lapidado por minhas mãos calejadas em experiências passadas e a assistência de uma cabra, cagando e andando ao meu redor, fazendo um círculo vicioso de quem não sabe limpar a própria merda, deixando a higiene para a mão vaga que já me faltava. Então tenho que dar um jeito de vagar a mão da alma.

Pelo menos pude ver forjar em mim uma armadura mais resistente do que eu imaginava, dois pulmões reservas, um coração para ‘backup’ e um cérebro-ave. De sinónimo encapuzou-me antónimo, me sentindo anônimo aos recentes fatos evolutivos de seu amadurecimento indómito. Pude ver também que já não tenho mais alma para regar o jardim de flores escuras, que se camuflam até nas noites mais claras e só me permitem contemplá-las nos dias mais negros. Por só vê-las sorrindo de felicidade ao dar-lhes um pedacinho de minha alma, viciei-me em presentear o que eu não deveria dar nem com um conta-gotas, pois até de gota em gota foram doses cavalares do que eu sei bem que não vão me devolver.

Sem vida eterna poderei vagar sem rumo e como um vampiro, generoso, prumo eu até uma nova vítima, sugando só um pouco do que eu não deveria ter doado ao todo. Se já não existem as oito outras vidas, a nona, ao menos, não se dará ao luxo de padecer… De morte morrida ou morte suicidada, sem sorte sofrida ou sorte combinada, azar de quem me colocou naquele baú e submergiu, naufragou o navio sem tripulação… A âncora me fez emergir em beira-mar com duas conchas nas mãos. E cá estou, cavalgando num trilho de palavras desconexas, sonorizadas num uivo de lua cheia. Descobri fazer de conta, que a tatuagem nesse peito foi feito à ponta de lápis fino e que qualquer borracha grossa apagará. Sendo assim, só os inteligentes poderão não ver que aqui no infinito desse peito, independente do que faças, seu nome continua a ecoar.

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