Mar…

– Parece que quando mar grande a gente fica, mar aumenta a vontade de migrar para outro lugar.
– É o que parece.
– Será que é assim com todo mundo?
– Não tem como saber. Não é o tipo de assunto que a gente sai contando por aí ou desabafando, mesmo escolhendo a dedo.
– Ou, esse tipo de assunto raramente vem à tona.
– Pode ser.
– E o que a gente faz em uma hora dessas?
– Dá arrumada no lugar de onde queremos sair. Sempre há coisas para se jogar fora. Também é bom repensar essa vontade de querer migrar, por mais que com o tempo pareça cada vez mais o certo a se fazer.
– Até termos certeza que estamos prontos para o tal?
– Por aí.
– Mar…
– …

Silêncio.

– Parece que nem sempre nosso habitat natural é onde crescemos.
– Com um mundo tão grande a se escolher, nunca seria o nosso tipo.
– Como alguns laços que nasceram para serem desfeitos.
– Já nascemos com laços desfeitos desde que nos corta aquele cordão… Sabe?
– Sei sim.
– Os outros que surgem são por conta dos nós que damos para prender.
– Sério?
– Reflita.
– Mas…
– Por isso que muitos se desfazem.
– Por quê?
– Não depende só do nosso nó. Mesmo prendendo firme, se o outro tiver uma parte puída, não irá durar.
– Verdade.
– Mais pura.
– Como saber se o outro nó tem parte puída?
– Quando um se desfaz.
– E se for o nosso?
– Culpa nossa.
– Não tem como evitar?
– Acho que, só aceitar.
– Aceitar o quê?
– Que ninguém é perfeito e não é todo mundo que vai renovar o fio na hora de fazer o nó.
– É uma pena.
– Muita.

Silêncio.

– Então, realmente, essa vontade de migrar para outro lugar só tende a se intensificar.
– É o que parece.
– Espero já estarmos em outro lugar quando mais velhos.
– Eu também.
– Por enquanto só nos resta ficar nesse mar grande.
– E ver as ondas desse mar aumentar a vontade de migrar.

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