De caipirinha

 Foi em um domingo de futebol, mas a história mesmo começou há muitos domingos de futebol atrás e, sinceramente, não sei por que estou rendendo tanto esse lance de futebol se não tem nada a ver com futebol… Só o que tem a ver é que foi em um domingo de futebol. Pronto! Quanto futebol para pouca história, não? Enfim, há muitos e muitos anos atrás, era uma vez um ogro… Não, assim não. Mas sei que se ela estivesse lendo esse relato já estaria rindo a toa. Sempre foi essa a minha função, certo? Como você mesma disse e costumava dizer: “Só você consegue me fazer rir desse jeito”. Falando nisso, foi muito bom te reencontrar – pela décima vez? – e saber que ainda sou o único com esse dom. Não que ninguém consiga te fazer sorrir, até por que, isso é impossível, você ri a toa. Parece que tenho o dom de tirar sua risada mais gostosa, mais saudável… Mais feliz. Não é isso?

 Nos conhecemos há mais ou menos dez anos atrás. Tinha acabado de findar os estudos e resolvido tirar um ano de férias para resolver o que faria da minha vida no ano seguinte e começei a frequentar horários de saída de algumas escolas, com alguns amigos. Fiz novas amizades e ampliei minha lista de contatos… No meio disso, ela apareceu na minha vida. No começo não parecia nada, coisa boba, coleguinha, ti-ti-ti, amigona, essas coisas. Até que começou a surgir algo estranho nos nossos encontros. Quando estava com ela, me sentia bem. Mas, não bem, como estava acostumado a me sentir com os meus amigos… Era um bem diferente, sabe? O melhor de tudo é que era recíproco. Aí pronto, era só nos encontrarmos, mesmo entre os amigos, e rolava aquele abraço apertado de quase meia hora e quase nenhuma troca de palavras. Nos tornávamos duas crianças tímidas que tem vergonha até de dar um beijo na bochecha com medo de ficar corada.

 Não me lembrava como foi quando resolvi assumir que estava apaixonado, mas nessas nossas últimas conversas recentes, ela refrescou minha memória. Estávamos nós conversando por telefone – como passou a ser todas as noites –, quando comecei a falar da “tal” guria que eu estava gostando. Até que chegou um momento, mais ou menos assim…

– Mas quem é essa garota? –  pergunta, curiosa.
–   Seu eu falar, não tem graça. – disfarço.
–    Por que? Eu conheço?
–    Conhece… E muito.
–    …
–    Está de frente para o computador agora?
–    Sim.
–    O monitor está ligado?
–    Não.
–    Olha direitinho pra ele que verá quem é a guria.
–    Eu?
–    Não, o monitor mesmo. – solto uma risada. – Lógico que é você!

 Lindo. Depois disso ficamos uns dez minutos sem falar nada, até ela começar a me perguntar como aquilo era possível e todas essas coisas de guria adolescente cheia de dúvidas. Até por que, algum tempo depois fui descobrir que ela estava dividida entre um colega meu e eu. Difícil ouvir ela dizer que tinha que se decidir logo por que a situação estava ficando chata. Antes dela se decidir, resolvi tirar meu cavalinho da chuva. Foi a primeira vez que ficamos um tempo sem se ver, sem se falar. Nem por conta disso que aconteceu, mas por conta dos novos horários. Eu tinha começado a trabalhar e ela agora estava no último ano em uma escola muito longe. Só fomos nos reencontrar quase dois anos depois no aniversário de uma amiga em comum. Foi mágico, como voltar no tempo. Meia hora de abraço apertado, os corações acelerados, a face corada e as palavras agarradas debaixo da língua. E começou a ser frequente. Ficávamos semanas sem nos ver e quando nos víamos… Pimba! Ficávamos um tempo sem se falar por telefone e quando um ou outro ligava… Pimba! Eu nunca entendi isso e, assumo que passei alguns anos da minha vida tentando entender essa química. Se tudo tem uma fórmula, encontrei algo sem, que apenas acontece…  Naturalmente.

 Depois de um tempo acabamos nos aventurando em um relacionamento, eu no meu, ela no dela, e perdemos o contato. Raramente nos falávamos… As vezes até quase batia aquela química natural, mas conseguíamos controlar bem. E o tempo foi passando… As coisas foram mudando… Me envolvi em outros relacionamentos… Até que chegamos nos dias de hoje. Ambos solteiros, mais maduros, mais crescidos e tudo o mais. Não foi por telefone, nem por celular, foi pela internet. Ficamos quase seis horas sem parar conversando. E o que aconteceu? Aquela química natural. Não foi no fim, foi no meio mesmo. Relembrando as histórias, os ocorridos, o que fizemos nesse tempo e etc. Nessa conversa que ela refrescou minha memória quanto a muita coisa e vice-versa. Fui dormir às quase oito da manhã, já formulando uma certeza na cabeça: “Dessa vez não pode passar! Não é possível!”.

 Até que, em um domingo de futebol, estava em um bar assistindo ao jogo com alguns amigos… Quando o jogo acabou, resolvi fazer o que já deveria ter feito há muitos anos atrás… Tomar uma atitude! Montar no meu cavalo e ir lá naquele castelo ao seu encontro. Pra confirmar, mandei uma mensagem de texto pelo celular para saber se estava em casa e que iria vê-la! Eram dez e pouca da noite. Ela duvidou que eu fosse e isso só me instigou mais. Fui em casa, troquei de roupa e mandei mensagem confirmando que estava a caminho. E no caminho lembrei de uma vez que ela comentou de combinarmos de sair qualquer dia, para eu ficar na cerveja e ela na caipirinha. Passei em um bar bacana, pedi uma caipirinha bem feita e continuei meu trajeto, com aquele buquê de flores alcoólico e mandei outra mensagem dizendo que tinha comprado presente no meio do caminho. Chegando ao portão de sua casa, liguei: “Cheguei! Vem me ver, sua linda!”. Não os vi, mas tenho certeza que meus olhos brilhavam vendo-a vir ao meu encontro, mais linda que todo o sempre.

– Você veio mesmo! – ela diz sorridente.
– Em algum momento duvidou que eu viria?
– Ah, não sei… Está tarde, né? Não é nada, não é nada, mas já são onze e pouca da noite… Hoje é domingo… Essas coisas. Sabe? – dizia entre belos trejeitos. – Além do mais, é perigoso andarilhar por aí assim.
– Eu rio na cara do perigo! Hahaha.
– Valeu, Simba. E que presente é esse?
– Quantas vezes recebeu flores na porta de casa?
– Uma vez e há muito tempo atrás.
– E uma caipirinha? – tirando o braço das costas e mostrando-lhe o copo.
– Mentira! – diz aos risos levando as mãos a boca. – Só você mesmo. E está boa?
– Não sei, prova. – e entrego-lhe o copo.

Faz cara feia na primeira golada.

– Aguou por conta da viagem…

Só confirma com a cabeça e me devolve o copo.

– O que vale é a inteção. – digo, sem graça.
– Com certeza. – ela diz e me faz matar saudade daquele abraço.

 Sentamos na calçada na frente da sua casa e começamos a conversar. E então… Pimba! Natural… E de caipirinha.

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