Sofá, meu querido reino

Não que eu esteja ficando com espírito de velho, como ela tanto diz de segunda à sexta. Mas realmente meu trabalho e o caminho de volta causam estresse, principalmente estresse mental, e não é minha culpa ou por que quero. Até por que, o que eu queria mesmo era trabalhar em casa e regar minhas plantas de dinheiro. Quem não quer? Mas a ciência deixou isso para o ano nunca. Enquanto isso, esperamos esse ano chegar. E isso não vem ao caso, mas de repente lhe explique ou justifique o que nunca entendo. Na verdade eu nunca entenderei. Poucos realmente sabem o que é às nove horas da noite pegar a ponte de pé em ônibus conduzido por motorista que parece gostar da paisagem ou de ver os carros o ultrapassando. Não que ele tenha que pisar fundo no acelerador e sair cortando todo mundo. Mas, porra, ninguém gosta da sensação de que esta atravessando a ponte andando. O que muitos fazem em quarenta minutos, eu tenho azar de pegar essas lesmas que fazem em uma hora, uma hora e dez. Sexta-feira então, que aquela onda de gente com a vida ganha indo viajar para curtir o final de semana… Tem dias que chego a casa com sangue nos olhos, mas ela sabe o dia e o momento certo de me abordar. Sexta-feira. Independente de quantos séculos demore a chegar a casa, chego tranquilo, final de semana logo na esquina.

Chego, dou beijo de boa noite e vou para o quarto trocar de roupa. Ela vem atrás, senta do lado, faz um chamego gostoso, carinho na nuca e nos cabelos. Já fico todo arrepiado.

– Deus, hoje eu vi uma coisa muito linda que ficaria muito bem em mim e que você poderia muito bem me dar. – desliza carinhosamente a ponta do nariz no meu pescoço. E eu adoro quando me chama assim. Me derreto.
– Calma aí, minha Deusa. – estremeço. – Quando você vem com muitos muito na mesma frase, eu me perco. – brinco aos risos sentado na cama tirando os sapatos.
– Hoje depois do trabalho eu fui com a Glaucia ajuda-la escolher umas roupas pro casamento do primo que ela vai nesse final de semana, aí vi um vestido lindo que combina com aquela bolsa que você me deu. Par perfeito, como nós dois. – ri.

Junto os sapatos embaixo da cama enquanto digiro a informação. Me mantenho em silêncio digerindo outra vez, só por precaução. Antes de digerir uma terceira vez, para ter certeza, prolongo o assunto:

– Então você foi com a Glaucia escolher UMAS roupas pra UM casamento? – começo a desabotoar a camisa.
– É, Deus meu. – beijo no pescoço perto da orelha. – Ela até nos chamou pra ir, mas estou sem roupa.
– Você está sem roupa? – acho graça. – E aquelas que você comprou no início do mês? – tiro a camisa.
– Está me regulando agora, Miguel? – me encara com expressão séria, como quem foi ofendida. Mas, espera aí, cadê o Deus?
– Não estou regulando ninguém. Só pensei que… – percebo que independente do que eu dissesse, não mudaria nada, além de: – Então, me diz o que você viu nessa loja? – pergunto com enorme sorriso.
– Eu já disse que foi um vestido! – até isso não mudou.
– Ah, verdade. – me mostro surpreso. – E o que tem de especial nesse vestido?
– Ele é lindo! – levanta da cama em um pulo, enquanto eu levanto calmamente para tirar o cinto. – Você tem que ver! – como se eu entendesse de vestidos agora. Só sei que são caros para pouco pano. – Cheio de… – e quando ela começa a detalhar essas coisas de mulher, não sei o que há no meu cérebro, ele não processa a informação completa. Só escuto: – com uns blábláblá, na bainha tem um blébléblé… – e fico ouvindo tudo isso com maior cara de satisfeito e de que realmente o vestido é pica das galáxias pra caralho. Por que no fim é sempre o que elas nos fazem pensar, que aquele vestido ou sapato ou bolsa que querem, é, repito, pica das galáxias pra caralho!
– Você deve ficar muito mais do que gata nele, hein, Deusa? – tiro o maço de cigarros do bolso da calça e acendo um.
– Não tem ideia do quanto. – faz careta sapeca, tira o maço da minha mão antes que eu colocasse de volta ao bolso e acende um para ela. – Mas só verá se comprar pra mim. – ri.
– Como assim? Você trabalha mulher, cadê o seu dinheiro? – não sei por que ainda me espanto e pergunto, sempre. Tem que entender que é automático.

Faz aquela cara de ofendida de novo, com mais drama. Sem responder nada, me encarando, dá uma tragada carregada no cigarro e já engulo seco só de ver.

– Meu salário vai todo em dívidas, Miguel. – diz em tom assustador, soltando a fumaça.
– E o meu? Você acha vai pra onde? – me aproximo da janela, soltando a fumaça por ela.

Depois dizem que não é verdade que as mulheres dão a entender que as fórmulas são: dinheiro dela = dinheiro dela; meu dinheiro = nosso dinheiro; e nosso dinheiro = dinheiro dela. Mas, espera… Tem algo errado em duas dessas fórmulas ou é impressão minha? Enfim… Voltando a história… Por conta do silêncio, prevendo o pior, a olho receoso. Cara amarrada, o pé direito batendo freneticamente no chão (parecendo britadeira). Acho graça e isso a zanga.

– Está rindo de quê? – pergunta intrigada. – Estou fantasiada de palhaços assassinos? – é verdade, ela tem medo de palhaços e nunca entendi por que. Sei é que ela diz que eles se fantasiam pra esconderem suas verdadeiras identidades de serial killers. A primeira vez que me disse isso, achei meigo, doce. Quase enfartei quando fomos a uma festa de crianças e ela saiu no tapa com o palhaço quando ele usou aquela brincadeira de dar choque ao apertar a mão.
– Já te conheço. – brinco aos risos. – Está prestes a fazer pirraça.
– Eu não vou fazer nada não, Miguel. – cruza os braços. – Não sei por que eu ainda não me acostumei com o fato de que você não me dá nada. – mulheres, sério, esse lance de muitos “não” na mesma frase, vocês se entregam.

Me viro de costas para a janela, ficando de frente para ela:

– Deusa, eu te dei uma bolsa que não cabe no meu bolso, semana passada.
– Lá vem você com essas riminhas escrotas. – e sai do quarto batendo os pés firmes no chão. Tum! Tum! Tum!

Respiro fundo segurando o riso e vou atrás, mesmo sabendo que quando deixo de ser o “Deus”, só volto a ser quando a vontade da “Deusa” é cumprida.

Chego à cozinha e lá está ela com as mãos na pia sustentando meio peso do corpo, o cigarro na mão direita acumulando cinza do tabaco queimado sem ser tragado e olhando pensativa para o ralo da pia. Paro no portal, cruzo o braço e me recosto.

– Deusa… – chamo com jeito.
– O que você quer Miguel? – me olha furiosa.
– Por que esse vestido é tão importante assim? – às vezes gosto de cutucá-la com vara curta, fica linda furiosa.

Volta a olhar para o ralo da pia.

– Não sei, Miguel. Não sei. – olha o não de novo, e em frase curta.
– Se quer tanto assim aquele vestido, a gente compra. – vou me aproximando lentamente. – Não quero problemas, quero soluções.
– Não quero mais porra nenhuma, Miguel. – mulheres, terceira dica: não repitam tanto o nome do seu, seja lá qual for (ficante, namorado, marido, amante, amigo colorido…).
– Por que está tão nervosa à toa? – a abraço com carinho, passando o queixo em seu pescoço do jeito que, sei bem, ela gosta.
– Ah. – lamenta. – Você não me dá mais nada de presente. – resmunga.
– Deusa, pelo amor de nossos futuros filhos… Semana passada lhe dei uma bolsa que vale metade do meu salário. – ri. Mas, homens, segurem o riso nessas situações, por mais que sejam realmente engraçadas. – Ainda nem paguei a primeira parcela das cinco.
– Ah! Nem foi tão caro assim, para de ficar aumentando as coisas.
– Não foi por que não saiu do seu bolso. É sério, pensa. – tento fazer as “pazes”. – Você sabe o quanto eu gasto, quais são as minhas dívidas, o que ponho dentro de casa, o que guardo pra gente sair… Queria eu… por DEUS…
– Você não acredita nele! – me interrompe as pressas, de birra.
– Tá! Mas… Porra, queria eu poder comprar tudo que você quisesse nesse mundo. Quando juntamos nossos panos, prometi te dar o mundo, eu sei, mas dentro do que me for cabível.
– Um vestido é mais barato que o mundo, Miguel. – se vira e me encara. Medo.
– Eu sei. Eu sei. – digo balançando as mãos. – Calma! Você não entendeu o que eu quis dizer.
– O que você quis dizer?! Que enquanto minhas dívidas são para os meus problemas, as suas são para se reunir com os seus amigos na sexta ou no Sábado para beber no bar, falar de futebol, música e sei lá o que for?
– Nada disso. Hoje é sexta e estou aqui. Não combinamos de ir ao teatro amanhã assistir aquela peça que você tanto quer? Comprei os ingressos ontem, esqueceu? – uma lâmpada se acende sobre minha cabeça. – Espera! – me afasto. – E as tuas dívidas? Não são roupas, sapatos, produtos de beleza e tudo o mais? Saídas com as tuas amigas?
– Lógico. Quer que sua mulher ande toda horrorosa do seu lado e sem amigas, contando problemas de mulher pra você?
– Ah! Quer saber? Tanto faz! – sabe aquele estresse que eu disse no início? Chega uma hora que não dá. E, homens, segunda dica: temos que ser sempre os mais pacientes! Sério! Sempre!

Vou para sala, sento no sofá e ligo a TV. Enquanto caço um canal descente, mesmo sabendo que não encontraria, continuo, pois não havia outra coisa a se fazer, ela surge atrás de mim caminhando rumo ao quarto.

– Vou pegar suas coisas pra você dormir no sofá hoje. – diz fria parada no portal.
– Conta uma novidade agora.
– Uma novidade? Então tá! Se quer a porra travesseiro e a porra do edredom, vem cá e pega! – e bate a porta.

Vuta que partiu! Para não dizer outra coisa. Precisa disso tudo por conta de um diabo de vestido que combina com a merda da bolsa que ainda nem comecei a pagar? Não sou da bolsa de valores, cacete! E eu sei… Sei que ela vai ficar se revirando na cama enquanto eu não for lá dizer que compro o pouco pano. Então, paro em canal qualquer só para ela pensar que encontrei um que está me distraindo e deito. Ela sempre volta mansa. Olho o relógio de pulso: onze e quarenta e um. Volto à atenção para TV e reparo que parei em um programa de culinária. Ela nunca cairia nessa. Cozinha de homem é na frente de uma churrasqueira. Nada contra os que curtem, mas, digamos que não nasci para a arte da gastronomia. Meu pai curte. Eu não. Vou passando os canais e paro na MTV. Clipes! Agora sim ela cai na armadilha.

Meia noite e dezoito ouço a porta do quarto abrindo lentamente. Sabe quando a gente tenta abrir sem fazer o mínimo ruído? Só que eu estava atento e esperando por aquilo. Fecho os olhos.

– Deus, está acordado? – diz em tom sereno.

Murmuro afirmando.

– Desculpa. – vai deitando por cima de mim. – Perdi a cabeça à toa, é só um vestido e você não tem obrigação de me dar. – diz com a boca colada em meu ouvido.
– Obrigação eu tenho, só não tenho o dinheiro. – assumo.
– Mas nem é tão caro, eu não te falei o preço.

Sabia que não tinha desistido.

– Sei que meu bolso vai enfartar, mas me diz quanto é.
– Ah, que drama! – levanta de novo, raivosa. – Ia te chamar pro quarto, mas parece que está bem melhor aqui.
– Eu estou fazendo drama?

Mal falo e “pum”, bate a porta. Agora é para valer. Agora é de vez, não vai voltar. Ouço a chave virando na porta e pronto, essa noite estou completamente banido do quarto. Até que gosto do sofá. Ele não me pede vestidos, sapatos e bolsas todo fim de semana. Na verdade ele não pede nada, mas também não vou ser escroto a ponto de falar que prefiro o sofá do que estar na cama com a mulher que amo, deitado em conchinha como ela gosta, ou com ela deitada em meu peito, como eu gosto. Mas se é para evitar problemas, durmo no sofá. Tem dias que eu chego tão tarde, que para não incomodar seu sono, vou direto para o sofá. No dia seguinte de manhã ela me acorda toda preocupada, trazendo bandeja com o café da manhã e querendo saber se dormi bem e por que não fui para a cama.

Nessa casa, toda a mobília colocamos juntos, mesmo na maioria das vezes eu pagando a maior parte. Mas o sofá, o mictório que fiz questão de pôr (para quando chego bêbado não sujar o vaso todo) e o frigobar… Meus! Direito exclusivo e não largo! O melhor é que ela e minha sogra me acham o genro mais bacana do mundo, por não deixá-la dormir no sofá, mas sim na cama com sua filha. Mal elas sabem que é por puro ciúme. Minha sogra não dorme aqui nem fodendo! Meu sofá, meu querido reino.

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