Sombras dos móveis imóveis

                As luzes do quarto estão apagadas. O vento que balança tanto as cortinas dessa janela escancarada, se faz algum ruído, é mais baixo que o do velho ventilador de teto a girar e do motor de carro, ônibus, moto, tanto faz, que vira-mexe passa na rua. A pouca iluminação que se faz presente é graças à luz da Lua, de frente para mim, lá no céu. Sim, deitado aqui da cama, com meus pés cruzados e apoiados no mármore da janela, eu vejo a Lua. O céu parece estar sem nuvem e tenho certeza que aqueles pontos brilhantes lá em cima são as estrelas… Ou vestígios do que alguns anos atrás elas foram. Mas eu não estou pensando no vento, nem no velho ventilador, nem na Lua, nem em porra nenhuma que eu queria que distraísse. Por que quando distrai, é momentâneo, não satisfaz… Verdade… Por que quando distrai, é momentâneo, não satisfaz?

                Não sou eu, é ele. É o meu cérebro que insiste em me tirar dessas distrações e me pôr de volta ao assunto, que tanto tenho evitado. Quando eu converso comigo mesmo sobre esse tal assunto, as coisas não saem assim tão bem quanto o esperado. E eu não entendo o porquê dessa insistência, já que tem sido tão fácil evitar o assunto enquanto não há esse silêncio absoluto, que um dia eu tanto amei, da madrugada. Não há razão. Talvez eu realmente nem a queira. Talvez o que eu queira mesmo é saber sobre as partes que envolvam as mentiras e as falsidades. Olha! Tem uma nuvem sacana se aproximando da Lua, vai cortar minha luz gratuita. Distração. Mas meu cérebro me chama a atenção para me lembrar do dia em que havia alguém deitado aqui do lado para tomar um banho de Lua comigo. Mas meu cérebro me prova que fica mais interessante falar sozinho quando havia alguém deitado aqui do lado para fingir que está me ouvindo, mas está dormindo. Ok. Eu sei que momentos como esse voltarão a acontecer. Pode não ser igual ou com certa semelhança. Talvez a pessoa ao lado prefira tomar banho de Sol ou permaneça acordada e realmente ouça as besteiras que falo repentinamente. O futuro vive de um talvez, de repente, pode ser… Mas precisamos nos importar com o presente. E o presente, atualmente, esta vivendo de um não, nem fodendo, pode não ser… Então é essa a realidade. E eu sei que isso é verdade.

                Já que nada disso aqui que tenho disponível, meus olhos batem e não me distraem, vou atrás de algo no escuro. Fechei os olhos. Pelo barulho, acabou de passar uma Kombi ou um Fusca na rua. Concentro-me no escuro que se faz presente ao vendar meus olhos com as pupilas. Estou caindo. Queda-livre. O vento que entra pela janela do quarto fica mais forte e ajuda a fincar-me nessa queda. Tiro os pés da janela, me contorço na cama. Agora estou caindo de barriga para baixo. Posso ver uma mão gigante lá em baixo preparada para aparar minha queda. Retardadamente, se é que essa palavra existe, mas expressa eu ter balançado meu corpo todo na cama para simular meu pouso na palma dessas mãos gigantes. Levanto-me na cama, então, obviamente, estou de pé nesse par de mãos. Empolgo-me e vou correr pelo braço esquerdo, pois o rosto de quem me segura está muito longe. Caio da cama. Bato com a cabeça no armário. Ok. Abro os olhos. Estou no meu quarto e de frente para o espelho. Mal vejo meu reflexo, mas estou rindo de mim mesmo. Fecho os olhos. Magicamente estou planando pelo braço direito e me aproximando do antebraço. Paro. É melhor voltar. Já vi o rosto. Não quero vê-lo. Abro os olhos. Estou sentado na cama. Mergulho a cabeça nas mãos. E percebo que já passou da hora de acender a luz. Então vou ao interruptor e acendo minha luz no fim do túnel.

                Abro a porta do quarto e ainda há vestígios do cheiro do café que fiz há quarenta e três minutos atrás. Vou atrás de outra dose. Faço questão de só adentrar os espaços do meu trajeto até a cozinha, depois de estarem com as luzes acesas. Essa madrugada não piso mais no escuro até o Sol nascer. Pego meu café. Volto para o quarto. Esqueço as luzes acesas. Tudo ficou mais claro. Prefiro as sombras dos móveis imóveis, do que a sombra da pessoa-móvel, móbil até no escuro.

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