Providências

                Eu sei que você acha graça e se vangloria por ter completa ideia que é o único que sabe bem como me tirar do juízo. Mas parece que não tem ideia que também sei, adoro e acho graça tirar o teu juízo. O problema é que fica em um impasse onde não há empate. Eu sou mais boba que você, que sempre deixei sair por cima. Talvez o problema seja esse. Perder o juízo por você me afeta mais do que quando você perde o juízo por mim, independente da ocasião. Sou mais transparente, então fica mais difícil para mim… Fingir ser algo que não sou… Não sentir o que sinto… Não falar sobre o que esteja me incomodando… Esconder o que tanto quero mostrar… E por aí vai. Sei que às vezes inevitavelmente mostro algo que queria esconder, para evitar tirar um sorriso, estúpido, teu, que não faz mais por merecer nem um recado amoroso no papel de pão. Lembra a primeira vez que tomamos café da manhã juntos na minha casa? Havíamos virado a noite em uma casa noturna e na hora de ir embora decidimos que você viria. Foi um tanto que engraçado quando minha mãe acordou e se deparou com aquele estranho na nossa cozinha comendo pão com mortadela. Eu me segurando ao máximo para não rir da sua cara de assustado, com medo de minha mãe lhe encher de perguntas ou lhe pôr para correr.

                Sinto falta desses pequenos detalhes. Sinto falta dos planos, dos olhares, dos sorrisos, das festas… Sinto falta de você, idiota. Por mais que as coisas estejam mudando, sim, ainda sinto muito. A cada volta ou procura sua, mesmo que vez ou outra eu acabe cedendo, quando você deixa tudo ir por água a baixo, parte do que eu sinto por você e da esperança vão junto, e tomo uma nova dose de realidade. Não sei se percebeu, principalmente na última vez que deixei você voltar e fazer novo estrago, eu já não agia como agi na penúltima, que já não era como agi na antepenúltima… Enquanto você de todas às vezes, chega como quem tivesse sido iluminado com as coisas bem mais claras, daí eu fico alguns dias analisando, pago para ver e depois de algumas semanas já é o “você” de sempre. Lembra que antigamente eu chorei um Oceano de decepção? Por mais que, diferente de você na época, soubesse o quanto era grande o teu sentimento por mim e acreditasse que um dia, hora ou outra a sua ficha cairia, eu sofri bastante com o término e com as coisas que disse e que futuramente fariam você morder a língua. Tive que passar semanas evitando amigas e familiares, para não ter que ouvir uma daquelas amaldiçoadas perguntas: “cadê Fulano?”, “como vão às coisas entre você e Sicrano?”. Ou a bendita afirmação: “você e Beltrano formam um casal tão bonito”. Você sabe bem como isso é horrível, já sofreu por alguém como eu sofri por você.

                Os meses passam e me recupero. Desde sempre sabendo que a cada degrau que eu subia na escada minha-vida-sem-você-babaca, te tirava o juízo, principalmente ao ver-se no topo dessa mesma escada e sentindo falta daquela nossa escada. Já havia até me envolvido com outros caras, dois deles beijei mais de uma vez e o último até foi bom o suficiente para me levar para a cama… Mas no dia seguinte, a fidelidade que eu tinha pelo sentimento que sentia por você, não me deixou mais procurá-lo. Aí para minha surpresa, pois eu esperava que fosse demorar mais, você começa a vez ou outra me ligar bêbado para controlar minha vida. Por onde tem andado? O que tem feito? Tem saído muito? Conheceu alguém interessante? Está saindo com alguém? Já me esqueceu? Está gostando de quem? Dando um aperto forte no meu coração e um nó em minha cabeça. Chega a ser engraçado, mas, cara, você é a pessoa mais indecisa que já conheci na vida. Depois de um tempo, para de controlar minha vida e começa a me procurar para afirmar que sente a minha falta. Obrigando-me a tratar-te mal, pois não podia assumir o quanto era bom ouvir aquilo. Você reclama, diz que não sou assim. Mas foi o que você me tornou e continua tornando. Cada vez mais fria para você. Então, a gente passa uma ou duas semanas conversando, acertando as coisas para em um futuro distante reatar e ser felizes de uma vez por todas… Mas aí do nada você some. Pum. E eu fico puta da vida, não por ter sumido, mas por dessa vez não ter dado nem falsas desculpas. Ligo o foda-se. Vejo-me normal, sem lágrimas como da última vez… O que rende um sorriso e um suspiro de alívio. Mas converso com o coração e ele está mal. Tudo bem, não tem problema, vai passar… Dorme neném.

                As semanas passam e de novo você começa a me procurar, querer saber da minha vida. O pior de tudo é quando diz que seu maior medo é que eu conheça alguém que me faça esquecer-te e joga verdes para saber se estou saindo com alguém, se tenho me divertido com alguém em especial… Ah, se foder, garoto! Daí, você, escroto do jeito que é, insiste e as frequências das suas ligações e mensagens vão aumentando, até que consegue desligar meu “foda-se”. Até que um dia, de madrugada, me pego bêbada voltando de uma festa e te mandando uma mensagem maliciosa. Acordo no dia seguinte e encontro duas ligações perdidas no teu nome. Eu sabia o que eu tinha enviado. Eu queria ter enviado mesmo sóbria. Mas esse tipo de coragem só vem à base de álcool e você é melhor do que eu para falar sobre isso. No dia seguinte você passa aqui depois do trabalho, meu coração acelera, mas consigo agir naturalmente como se fosse uma visita qualquer. A gente faz amor. Gostoso. Quando solto sem querer “eu te amo”, você vibra e diz “até que enfim”. Logo depois de repetir a minha frase, fica querendo saber por que eu estava evitando dizer. Eu realmente tinha receio que estragasse o momento e não queria me abrir totalmente daquele jeito no “primeiro” encontro. Mas sabe como fico mais sentimental do que já sou quando a gente faz amor. Durante o cigarro pós-sexo você me enche os ouvidos dizendo que sente muito a minha falta, falta de nós, falta de tudo! E eu te peço com maior aperto no peito, para darmos tempo ao tempo, pois ainda tinha meus dois pés atrás contigo. Como eu sei como foi ruim a sua partida depois de horas sendo mimada e paparicada por alguém que eu queria muito que fosse realmente você. Mas no fundo sabia que daqui alguns dias você voltaria a ser você e destruiria tudo de novo.

                Dois dias depois você assume que estava se envolvendo com outra pessoa, mas faz questão de reafirmar que desde quando nós terminamos, eu tinha sido a única pessoa com quem havia se deitado. Aquilo me enlouquece e eu perco o juízo. Xingo, solto meus macacos e desligo na tua cara. Você retorna, tenta explicar que comparado a mim não era nada, mas não me interessa. Desligo novamente. Dois dias depois te ligo. E você me tira o juízo de novo ao dizer que no dia anterior, ela foi te ver e vocês se beijaram. Pede perdão, pois pensou que depois de eu ter desligado duas vezes na tua cara, nunca mais ia querer falar contigo. Isso não abafa o assunto. Não abafa o fato de você ser tão filho da puta. Mas eu resolvo respirar fundo, afinal, terminamos já faz tempo e só estamos ou estávamos tentando reconstruir as coisas devagar, nada é sério… Ainda. Tudo bem, que mesmo assim, já deveria me respeitar e ser fiel, mas… Por que eu sou tão babaca? A gente fica numa boa e você marca de passar o final de semana comigo. Quando chega, a primeira coisa que peço é que deixe tudo esclarecido, não queria novas surpresas, não queria mais perder o juízo por seus descuidos, ou, seja lá o que for! Você diz que não tem mais surpresas, me conta a pequena história sobre vocês e jura de pé juntos que o que você mais quer nessa vida é ficar bem comigo. Diz que sempre faz tudo errado comigo, mas que é sem querer… Que o que mais gosta em mim é essa minha paciência contigo e meu jeito de te explicar certas coisas que você nunca entenderia sozinho. A gente conversa e você diz que vai ser sincero com ela e contará que estamos tentando recriar nossa história.

                Você termina essa “ficada”. Tudo fica bem. Tudo vai ficando ótimo. Até que nem duas semanas depois, você some novamente. Sem deixar recado, sinal de fumaça, motivo ou qualquer coisa. Fico rindo de mim mesma, pois no fundo eu já sabia que fosse dar nisso, mais uma vez. Então chego à conclusão de que você tem sérios problemas mentais e que precisa de psicólogo. Não sofro não choro, não dói… Mas fico chateada por você ser tão você e eu ser tão eu, esperançosa pelo seu amadurecimento… Esperançosa que deixe de ser tão egoísta… Esperando por quem você insiste tanto em esconder, principalmente de mim e que só se liberta quando não aguenta mais viver sem a minha pessoa, quando saudade e lembranças são tudo que lhe resta quando está sozinho. Pior é que sei que daqui a algumas semanas você vai me procurar de novo e começará com mensagens no celular ou na rede social, por mais que não sejamos “amigos” lá. Não dá em outra. Duas semanas depois, na noite de um Sábado, recebo uma mensagem sua com uma frase que só eu digo. Respondo: “aprendeu comigo”. E então recebo: “aprendi isso e muitas outras coisas”. Não respondo. Fico indignada. Meia hora depois o celular toca, aparece teu nome. Relutante atendo. Ninguém diz nada, mas ouço barulho de festa. Desligo. Lá pelas quase duas horas da madrugada, toca novamente. Atendo. Ouço você falando com seus amigos, fico ouvindo. Como sempre: nada interessante. Você falando do quanto é incrível só ter mulheres feias no teu trabalho. Coloco no viva-voz, continuo minha leitura e aguardo ansiosa seus créditos terminarem. Quase dois minutos depois a ligação cai. Rende-me um sorriso de orelha a orelha. Durmo satisfeita.

                No dia seguinte à noite, em uma péssima hora, você me procura de novo através de mensagem. Bufando de raiva te ligo. Falo tudo que tenho para falar, deixo claro o que penso sobre você e dou aquela leve exagerada em certas coisas, como bem faço, inevitavelmente. E então me explica o motivo do sumiço, pela primeira vez. Parece que sua mãe deu uma pirada quando soube que estávamos nos vendo novamente e encheu tua cabeça com pensamentos negativos quanto ao nosso relacionamento. Se ela soubesse a verdade, ligaria para mim a fim de me prevenir quanto a você, sem sombra de dúvidas. Mas parece que para a sua família eu que sou a chata, que reclama de mais e uma etecetera de coisas que imagino… Você nunca afirmou, mas também nunca negou. Mais umas horas de conversa séria e lá está você afirmando que o que mais quer é ficar bem comigo. Derreto-me toda quando faz uma lista das coisas que sente falta, do que aprendeu comigo, do quanto amadureceu graças a mim e etc… E me pega desprevenida quando pede para reatarmos de uma vez e acabar com aquela novela. A gente combina de você passar aqui no dia seguinte depois do trabalho para oficializarmos isso. Conto as horas. Conto os minutos. Contos os segundos. Você se atrasa, mas me liga para explicar o motivo e me pedindo para esperar, pois realmente viria. Deve ter imaginado que eu já estaria pensando que não viria, fugiria… Como é o que faz melhor. Então já chega dizendo que as merdas já estão todas resolvidas e que agora devemos ser felizes para sempre.

                Durante aqueles primeiros dias, eu me surpreendo ao ver o que sempre esperei ver… Você sendo o “você” que há tanto quis esconder. Fazendo questão de deixar qualquer coisa bem explicada, evitando tudo que poderia me deixar encucada e dando duro para que meus dois pés a trás ficassem a frente como na primeira vez. Foi perfeito… Sim, foi maravilhoso. Mas durou pouco. Você foi voltando ao “normal”, logo em uma fase da minha vida que eu mais precisava de você. Eu pirei. Até que depois de mal falar comigo no telefone antes de ir ao trabalho, do nada recebo uma mensagem melosa tua que mais parecia para outra pessoa. À tarde, estava passando perto do teu trabalho e decido ir vê-lo, após tentar duas vezes adivinhar seu horário de lanche. Diz ter esquecido o celular em casa. As horas passam, a noite chega e nada de ligação tua dizendo que chegou bem em casa. Ligo para seu celular, seu pai atende. Desligo. Meia hora depois ligo de novo. Sua mãe atende, diz que você esqueceu o celular em casa e que tinha ligado do celular de um amigo há uma hora dizendo que já estava indo para casa, mas que estava tentando retornar para esse amigo e ninguém atendia. Fico preocupada. Sua mãe percebe e diz que me liga assim que você aparecer ou der sinal de vida. E lá estava eu inquieta andando para lá e para cá da casa, imaginando mil coisas e vendo a hora passar. Ligo de novo e nada, você ainda não apareceu e sua mãe não conseguiu falar contigo. Até que minha mãe percebe meu nervosismo e fica me questionando diversas vezes, querendo saber o que houve. Na milésima acabo soltando. Mais uma pessoa preocupada. As horas voam e quando vou ligar minha mãe já está ligando. Ouço a conversa dela com a tua. Nada. Fico com uma vontade incontrolável de pegar o ônibus e sair te procurando pelas ruas perto do teu trabalho a fim de te encontrar com os amigos em alguma lanchonete ou bar, só para ter certeza que nada havia acontecido contigo. Controlo-me. Espero. Você vai aparecer. Quando percebo, já se passaram quase 3 horas que você está “desaparecido”. Ligo novamente. Nada ainda. Começo a ter certeza que algo ruim havia acontecido. 4 horas depois meu celular toca, aparece teu nome. Imagino ser tua mãe para me contar o pior, mas é você. Então explodo de alívio em nervos de fúria! Nem te encho de perguntas, te interrogo mesmo e com raiva pelo susto que me deu à toa! E a gente desliga o telefone, brigados ou, mais eu brigada contigo, na verdade. No dia seguinte você reclama das tantas vezes que te  liguei e que foi apenas aquilo que preocupou tanto a sua mãe, que se não fosse por isso, talvez o sermão que ela te deu seria menor, blábláblá e usa isso para terminar comigo. Automaticamente só digo: “tudo bem!” e a gente desliga.

                Não falo no assunto. Com ninguém. Todos que souberam da nossa volta souberam que terminamos, mas, dessa vez, não soltei um pio sobre nada. Eu não falo mais o teu nome. Não te relaciono mais com histórias parecidas. Sério. Não falo mais nada sobre você. Ajo como se realmente não tivesse existido. Só falta chegar ao ponto de perguntarem “e Fulano?” e eu responder “Fulano quem? Não conheço!”, mas na verdade respondo como quem o marido veio a falecer e a pessoa não quer falar sobre ela para não trazer as lembranças. Eu pensei que depois disso, não fosse mais me procurar e tal. E não posso nem chegar e falar que tem que tomar vergonha na cara, pois seria hipócrita, já que de todas as vezes que você veio, eu deixei a porta aberta ou um bilhete mostrando onde estava a chave. Então eu também teria que tomar vergonha na cara. Mas, sei lá, no fundo no fundo ainda tem aquela esperança aqui dentro de tomarmos vergonha na cara juntos e ficarmos juntos e sermos felizes juntos e etc. Daí agora, você me procura… De novo… E vem com esses papos de que nós nunca teremos um fim, que nossa conexão é foda… Me revolta. Mas como quem não quer nada te mando mensagem “toma tendência, garoto”. Dois dias depois você responde: “um dia”. Ah, que merda! Não vou estar aqui a vida toda, seu imbecil. Nem te esperar por uma eternidade. O mundo é enorme e por mais que seja meu “yang”, posso encontrar uma réplica por aí que possa vir a ser melhor que a original. Então se realmente me ama… Se realmente acha que nossa conexão é foda e nunca teremos um fim, tome providências logo, seu idiota!

Providência:
1. Disposição que se toma para resolver ou dar continuidade a um assunto ou para evitar um mal.
2. Cautela antecipada. = PRECAUÇÃO, PREVENÇÃO
3. [Religião]  Sabedoria suprema com que Deus conduz todas as coisas.
4. [Por extensão]   [Religião]  Deus.
5. [Figurado]  Bem, felicidade.
ser a providência de alguém: valer-lhe eficazmente.

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