Cecília, o Mar e Eu

                Um garoto de dez anos está na sacada da casa de praia de seus pais quando avista uma garrafa se aproximando cada vez mais com o vai e vem das ondas. Corre ao seu quarto, pega o binóculo e volta à sacada. Há alguma coisa dentro da garrafa. Pousa o binóculo na cadeira em que estava sentado e desce correndo, seguido pelo seu cachorro assim que passa pelo corredor. Chegando a um ponto que a onda chega aos dedos, ele espera. Esta quase. Vive ali desde berço, então já conhece bem o mar. Espera o momento em que as ondas estão recuando e corre em direção à garrafa. Era uma garrafa de vidro. Pega e foge da onda que já está voltando.  Longe o suficiente que ela nem chegue a sua sombra. Levanta a garrafa na altura dos olhos. Havia um papel enrolado que seus dedos pequenos não alcançam. Podia ser um mapa do tesouro como já vira em muitos filmes. Volta correndo para casa a procura de algo que o ajude a tirar. Sua mãe ao ver a sua afobação abrindo as gavetas do armário da cozinha, o pergunta o que tanto procura. “Preciso de algo que tire isso aqui de dentro”. Ele diz, erguendo a garrafa no ar para que a mãe visse o papel. Ela pega a garrafa e consegue tirar com o indicador. Entrega-lhe o papel e a garrafa, e volta sua atenção para o almoço que está preparando. Ele prende a garrafa nas pernas e abre o papel com as duas mãos. Estava escrito, em garrancho parecido com o dele, mas com caneta de tinta rosa: “Tem alguém aí?”. Tirou a garrafa das pernas e correu para o quarto. As pressas tirou da mochila um caderno e uma caneta de tinta azul. Arrancou uma folha e escreveu: “Eu. Quem é você?”. Enrolou e cuidadosamente colocou dentro da garrafa e o bilhete que tirara dela, guardou na primeira gaveta de sua escrivania. Voltou correndo a frente do mar e esperou. Enquanto a onda se afastava, deu cinco acelerados passos a frente e colocou a garrafa de pé na areia, recuando sete passos em seguida. A onda veio. Derrubou a garrafa, mas a levou.

                Passou semanas apreensivo esperando pela volta da garrafa e nada. Quatro meses depois, quando já tinha até se esquecido, enquanto brincava com seu cachorro na areia, viu algo se aproximando ao longe que lembrava muito a garrafa. Correu ao quarto, pegou o binóculo e foi a sacada. Tinha certeza que era a garrafa. Feliz da vida voltou correndo a frente do mar e esperou. Pegou a garrafa, correu até a sala onde sua mãe estava lendo e pediu que tirasse o papel. Correu para o quarto e o abriu. O mesmo garrancho e com a mesma cor, escrito: “Eu sabia que você ia me responder. Meu nome é Cecília. Tudo bom?”. Ficou intrigado com a afirmação. Arrancou outra folha e escreveu: “A gente se conhece? Tudo legal comigo e com você, Cecília?”. Colocou na garrafa e levou ao mar. Quando a onda a pegou, seu cachorro a abocanhou e voltou. Durante minutos correu atrás do animal, até por fim conseguir toma-la e lança-la ao mar. Foi a sacada com o binóculo e ficou assistindo-a até virar um ponto, e sumir. Mais algumas semanas e nada do retorno da garrafa. Novamente esqueceu. Meses depois, durante uma noite de sono, acorda com seu cachorro esfregando o focinho molhado em sua boca. Ao abrir os olhos se depara com a garrafa presa à boca do animal. Rapidamente tira e acende o abajur. “Não. Mas eu te conheço há muito tempo. Estou bem também. Como é aí?”.

                – Ela me conhece? – coçou a testa. – Mas quem será ela? Não conheço nenhuma Cecília na escola.

                Arrancou outra folha. “De onde você me conhece? Aqui é muito legal. E aí, como é?”. Não pôde enviar naquele momento, pois, à noite, quanto mais tarde fica, mais perigoso é. De manhã, a primeira coisa que fez antes do café-da-manhã e da escola, foi lançar a garrafa ao mar. Agora, já sabia que demorariam alguns meses até que ela retornasse, mas tinha certeza que retornaria. Não deu em outra. Meses depois e, semanas depois do seu aniversário, lá estava a garrafa voltando. “Eu te vejo todo dia. Aqui também é bem legal. Você quer ser meu namorado?”. Seu coração disparou. Por ser extremamente tímido, nunca teve uma namoradinha na escola. Será que Cecília seria a primeira? Na afobação de responder um “Sim” bem grande, nem se tocou em perguntar como ela o via todo dia e/ou onde. Mais alguns meses. “Que legal! Agora nós somos namorados! As meninas na escola vão morrer de inveja. Você gosta de mim?”. Se não fosse pela pergunta dela, responderia perguntando: “Que meninas? Que escola?”. Diferente disso, apenas respondeu: “MUITO. Você é a garota mais legal que eu já conheci”. Depois, entre meses e meses:

                “Sou mesmo? Jura? Os garotos lá da escola dizem que sou muito chata! Você acha que eu sou chata?”

                “Juro pela minha vida. Eles são uns bocós, não liga pra eles. Você não é chata!”

                Até que ele recebeu uma, que veio findar com as frases curtas. Uma folha de caderno completo com ela contando o que pensava sobre cada um dos garotos que a perturbam na escola e como tinha sido o dia , na data em que escreveu a carta. Respondeu-lhe a altura, contando as curiosidades do seu dia-a-dia. Os anos passaram, a letra dela foi ficando cada vez mais bonita e caprichosa. E lá estava ele, com quinze anos e há cinco anos namorando com uma garota que nunca viu e conversando através de carta na garrafa jogada ao mar. Certo dia, ele recebeu: “Mentiroso. Quem é você de verdade?”. Não tinha como ser outra pessoa, aquela letra ele conhecia bem. Não entendeu patavinas. “Sou o eu de sempre. Seu namorado.”. Meses depois: “Eu já desconfiava há algum tempo, porém pensava que as pessoas pudessem estar erradas quanto a isso. Mas realmente não tem como alguém viver dentro do mar. Me enganou esses anos todos. Não quero mais saber de você. Adeus!”. E então, com o coração acelerado correu até a gaveta do quarto e pegou todos os recados que guardara e juntou as peças. No primeiro recado, ela perguntava se havia alguém no mar, não onde ele estava. E pelo que se lembra, não respondeu dizendo o nome, apenas “Eu”. Depois teve aquela onde dizia que o via todo dia, então, deve morar em uma casa de praia assim como ele. Esse tempo todo ela pensou estar namorando o mar. Arrancou uma folha de caderno e escreveu: “Eu não te enganei. Éramos criança na época e eu não percebi que você achava que eu fosse o mar ou vivesse dentro dele. Me desculpe. Mas eu te amo mais que ele, por favor, acredite.” Durante anos passou horas sentado de frente para o mar, esperando uma resposta… Que não chegava. E talvez nunca chegaria.

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