Dia desses

                Dia desses, estava sozinho a mesa de jantar acompanhado de uma boa garrafa de uísque, assistindo o casal de gelo derreter lentamente a cada vai e vem das doses que esvaziavam e enchiam o copo. Findava o casal de gelo? No congelador havia outras fôrmas com vários casais prontos para o derretimento e meu total deleite. Não sei por que entre aspas destaco estar sozinho se sempre estou. Moro só. Rodeado de incertezas, lembranças e uma etecetera de coisas, além desses pensamentos colados com Super Bonder em meu cérebro retroprojetor de ponta. Não me importo. Dependendo do que ele resolva passar, chega a ser bom. Não faz mal quanto fazia meses atrás, quando me enchia de vontade de mergulhar em doses cavalares até mesmo de um uísque barato. Já faz algumas semanas que o uísque voltou a ser por prazer, não como remédio.

                Até que por fim, começou a sessão. Sou um tipo de pessoa que acredita que todas as histórias de amor, mesmo mal resolvidas ou sem final feliz para um dos envolvidos ou para ambos, deveriam virar um livro… Não todas as histórias em um mesmo livro, como se fossem contos amorosos. Uma história de amor não merece ser um conto. E tudo bem que algumas histórias de amor nem mereçam ser histórias, mas, como saber? As histórias de amor nunca são as mesmas quando os personagens são diferentes. Por isso guardo um exemplar de cada relacionamento que tive. O meu e o dela, foi um best-seller de primeira categoria, daqueles que só fazem sucesso depois que passa de sua época ou o escritor finda sua missão na Terra, parte dessa para melhor e algum familiar encontra o rascunho em uma das caixas perdidas no sótão. Ninguém tem certeza se faltam algumas páginas ou se ele ainda iria escrever mais coisas, porém, quando as pessoas leem, sempre há aquela divisão de grupos: os que não gostaram do final; os que gostaram; os que acharam que ficou faltando alguma coisa; os que se identificaram em parte; e os que acharam uma boa merda.

                Se surgisse alguém naquele dia me perguntando em que grupo eu me enquadro quando releio esse último exemplar que se tornou um best-seller… Eu diria que, com quase certeza absoluta, digamos assim, está faltando alguma coisa e aquele final não é um final de verdade. Mas aí se essa mesma pessoa tivesse aparecido no dia anterior e fizesse a mesma pergunta… A história e o final foram excelentes, e se ocorresse mais alguma coisa perderia toda a graça.  Surgindo no dia seguinte… Não deveria nem ter sido escrito. E por aí vai. A cada releitura, uma sensação diferente, mas que já posso ter sentido semanas ou meses atrás.

                A verdade é que ela ainda é uma fútil e viva presença que não sai da minha cabeça e da minha porta. Nas primeiras vezes que ela apareceu, uma mesma frase se repetia da minha boca junto de outras formuladas em milhares de perguntas e afirmações… Mas essa que destaco, não havia exclamação nem interrogação, um simples e duvidoso “quero mais que você se foda”, daqueles que você em parte não quer, porém, em outra, fica curioso em saber o que aconteceria se fosse. Deu para entender? Então… Recentemente só fico parado atrás da porta com os braços cruzados e a ouvindo gritar seus arrependimentos e jogando sementes sobre ter certeza que estou atrás da porta a ouvindo. O problema é que até agora não as reguei, então, ela não colhe maduro e resolve ir embora, voltando dias depois e repetindo todo esse processo. Para minha sorte, nas vezes que eu regaria e abriria a porta, estava completamente bêbado em algum desses bares da vida trocando beijos apaixonados de uma noite com alguma profissional de sexo. Sim! Não me envolvo mais com quem pode ter amor para dar e depois tentar tirar… Mesmo sendo caro, prefiro esse carnaval sem fim… Ou preferia. Essas idas e vindas dela estão surtindo efeito. Dia desses ainda vou acabar abrindo a porta.

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