Mais um dia sem nada que preste

                Sentado no mármore da janela do quarto de um apartamento no décimo segundo andar, fumando cigarro, bebendo cerveja e contemplando a rua deserta lá em baixo, que mais parecia maquete de avenida. Não são mais raros os que sabem o quanto uma mente criativa pode ficar aguçada durante a madrugada, intensificada à base de álcool e ao som de músicas que não foram selecionadas a dedo. Independente do quanto surjam novas facilidades via internet, três coisas que não podem deixar de existir são estações de rádio, livros e redes de dormir. Ao pensar nisso, lembrou-se de quantas semanas já não escrevia um texto ou tocava no livro em que estava trabalhando. Faltava aquela inspiração certa, empenhando a continuidade, e não que findasse após cinco ou seis linhas. Desceu da janela e resolveu escrever sobre aqueles pensamentos. Não encaixaria no livro, mas já acabaria com aquela angustia de ainda não ter escrito nada que na hora da análise, gostasse.   

                Só depois de lançar a guimba pela janela, foi conferir se havia alguma pessoa no tamanho de uma formiga passando. Ninguém. Pegou o notebook debaixo do travesseiro ao lado do que confortava seu sono e foi à sala. Diminuiu pouco o volume do rádio. Ligou o abajur em sua escrivania e pousou o notebook. Abriu e pressionou o “power”. Enquanto o Windows iniciava foi até a cozinha buscar mais cerveja, matando em uma golada só o líquido restante na long neck que estava em sua posse. Na volta, sentou, depositou a cerveja no chão e abriu o programa Microsoft Word. Estalou os dedos e pousou sobre o teclado. Seus olhos fixamente olhando para aquela página em branco com uma linha preta piscando. Se a cabeça não tivesse esvaziado e o pensamento inicial perdido o sentido, não pareceria tão hipnotizante. Olhou as mãos. Esticou os dedos e pousou-os novamente. Fechou os olhos buscando algo repentinamente inspirador e pressionou os dedos no teclado. Abriu os olhos e deparou-se com “kljfsd”. Nada inspirador. Pegou a cerveja no chão e bebeu encarando aquela pequena junção de consoantes.

                Depois de segundos estava com o polegar e dedo mínimo da mão esquerda pressionando “ctrl” e “shift”, dedo indicador e anelar da mão direita apertando “<-“ e “->”, deixando aquela palavra marcada por azul e não marcada por nada, repetidamente uma voz em sua cabeça dizia: “Com azul… Sem azul… Com azul… Sem azul… Kljfsd com azul… Kljfsd sem azul…”. Isso durou até sua boca solicitar mais um gole, quando apertou “del” antes de pegar a long neck no chão. Outra golada encarando a página novamente em branco, lentamente com o indicador da esquerda digitou: “p”, “o”,”rr”, “a”. Tirou o maço do bolso e acendeu um cigarro. Encarando a tela do notebook até começar a ficar escura e em seguida totalmente preta, mostrando no escuro o reflexo da sua cintura. Caminhou até a minibiblioteca e com os olhos fechados passou o dedo pelos livros, até resolver tirar um. Abriu os olhos e conferiu. Vastas Emoções e Pensamentos Imperfeitos de Rubem Fonseca. Aproximou-se da rede no canto oposto e deitou. Abriu o livro em uma página qualquer e leu: “Sentado em frente a um minúsculo e bem cuidado jardim de inverno…”. Fechou o livro. Tragou o cigarro. Olhou a janela. Levantou e largou o livro na rede. Sentou na escrivania e sacudiu o mouse, nervoso. Escreveu: “Se eu continuar nessa falta do que escrever, vou pular dessa janela!”. Quando deu por si, já estava na terceira página descrevendo o tamanho desconforto que estava sentindo durante semanas. Quem lesse, poderia gostar, mas para ele, não ficou tão bom, pois nunca havia escrito nada tão pessoal. Arquivou o texto dentro da pasta com outros vinte e sete textos que havia escrito naquela semana. Voltou à rede. “Mais um dia sem nada que preste”. Pensou, antes de cair no sono.

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