Vontade

                Acordou com o bipe do celular anunciando nova mensagem. Girou o corpo para o lado e ficou encarando o aparelho até a luz se apagar e parar de vibrar. Pegou e apertou botão qualquer. Sete e cinquenta e nove. Quem manda mensagem às oito horas da manhã de um Domingo? Só podia ser a operadora oferecendo uma oportunidade especial, única e imperdível. Devolveu o aparelho a cama e girou de volta, encarando o ventilador de teto. Outro bipe outra mensagem. Sem olhar tateou a cama até encontrar o aparelho. Suspendeu na direção dos olhos e abriu a caixa de mensagem. Duas mensagens de sua irmã mais velha. Sim, esqueceu-se que além das operadoras, sua irmã também mandava mensagens na “madrugada” de um Domingo.

                7:55h – Já que você não se ajuda, não sai de casa, não deixa te levarem pra sair e conhecer novas pessoas, tomei liberdade para lhe pôr nos classificados. Ring ring! Alguém já te ligou?

                – Filha da puta, que não é a minha mãe!

                8:05h – Não vai dizer nada?

                E vibrou novamente:

                8:09h – Você está dormindo?

                Respondeu: “Estou. Deixe seu recado após o sinal. Ring Ring _(_”. Levantou da cama e jogou o celular no travesseiro. Abriu o armário e tirou a primeira camisa que avistou e a vestiu. Encontrou a calça jeans no chão perto da porta. Pegou a carteira na mesa da sala e saiu de casa. Na Padaria comprou três pães e 100g de mortadela. Ao sair, comprou o jornal.

                Já em casa, preparou os pães e café solúvel, e sentou para olhar a “merda” que sua irmã havia feito. Só aí percebeu que realmente existia uma espécie de “classificados do amor”.

                – Quem lê esse tipo de merda? – perguntou-se. – Melhor, que tipo de pessoa, além daquela escrota, põe esse tipo de anúncio numa porra dessas?

                Encontrou o dele:

                “Olá, me chamo Saulo R. Phrost, 25 anos, tenho minha própria agência de publicidade e quero encontrar alguém que me complete. Estou solteiro há dois meses, mas completamente disponível para encontrar a mulher dos meus sonhos. Sou moreno claro, 1,79m, 79kg, cabelo preto ondulado baixo a tesoura, olhos castanhos escuros e costumo manter a barba cerrada. Procuro uma mulher independente, que tenha entre 25 a 30 anos, descompromissada até de filhos e que saiba fazer feliz um homem solitário. Vamos nos conhecer? (21) 9078…”

                – Que saiba fazer feliz um homem solitário? – resmungou. – Whatafuck? Ela só pode estar de sacanagem. Eu não li isso.

                Fechou o jornal e foi ao quarto. Pegou o celular. Seis chamadas perdidas e duas mensagens de sua irmã:

                8:20h – Você é muito escroto, sabia? Já viu o jornal?

                8:30h – Saulo, estou esperando você me ligar para agradecer.

                Chamadas perdidas:

                8:32h – Chata pácaraleo

                8:33h – Chata pácaraleo

                8:34h – Chata pácaraleo

                8:35h – Chata pácaraleo

                8:40h – 0218563…

                8:44h – Chata pácaraleo

                Ligou para a irmã:

                – Até que enfim! – ela diz.

                – Você é retardada? Come merda? Que porra escrota é essa que você fez? Quem te deu permissão pra isso?

                – Ei! Ei! Ei! Ingrato! Era pra você me agradecer!

                – Agradecer pelo quê? Por ter exposto meu nome e telefone numa porra de classificados do amor? Alguém que me complete? Você é perturbada!

                – Olha lá como você fala comigo, Saulo!

                – Olha lá o cacete! Pior de tudo é que não dá tempo de tirar essa merda de lá, só a partir de amanhã!

                – Para de drama e me agradece logo. Anda.

                – Agradecer? Ok. Muito obrigado por mentir por mim na porra de um classificado de virgens que não pegam ninguém, passam o dia aporrinhando os outros com solicitações de jogos no Facebook e a noite no XVideos! Tenho certeza absoluta que daqui a pouco algum Rogério com voz fina vai ligar me chamando pra sair.

                – Nada disso! A Cláudia encontrou um homem fabuloso graças a esse anúncio.

                – Que se foda o fabuloso e a Cláudia! Não lhe dei permissão pra fazer isso.

                – Se foda você, então, babaca! Já está feito e um dia vai me agradecer por isso. Tchau! – desligou.

                Pensou em jogar o celular longe, mas conseguiu controlar a raiva. Sentou na cama e quando mal colocou o celular ao lado, ele tocou. Olhou para o visor. 0217654… Pensou que poderia ser o Rogério. Deixou tocar até cair na caixa postal. Minutos depois, outro número. Levantou e saiu do quarto. Parou de frente ao espelho no banheiro e esfregou o rosto. Aquilo não podia estar acontecendo e sua irmã não devia ter feito aquilo. Não entendia o porquê de estar sozinho a incomodava tanto. “Qual o problema de ter o coração despedaçado e não correr para tapar o buraco? Ninguém pode respeitar minha decisão? Têm mesmo que viverem empurrando alguém “nice” para que eu conheça? Aí depois as pessoas não entendem por que me afastei de todo mundo”. O problema é que uma hora ou outra sempre vem o “mas e se”. “Mas e se de repente alguém realmente legal ligar?”. Encarou-se friamente. “Não! Não acredito que você está pensando nisso!”. Decidido, saiu do banheiro e foi ao quarto. O celular estava tocando e tinha sete chamadas perdidas. Atendeu.

                – Alô.

                – Saulo? – uma voz feminina que parecia desses telesex da vida.

                – Sim.

                – Eu me chamo Laura e vi o seu anúncio.

                – Laura, você vai me perdoar, mas não fui eu quem colocou o anúncio… Foi a idiota da minha irmã mais velha.

                – Jura?

                – Sim.

                – Então você não está procurando ninguém descompromissada até de filhos e que possa completá-lo?

                – Não. – riu ao se lembrar do anúncio.

                – Por quê? Já encontrou alguém?

                – Não entendeu. – respirou fundo. – Eu REALMENTE não estou procurando ninguém.

                – Entendi. Mas está namorando?

                Nem sabia por que ainda estava dando conversa, mas mesmo não querendo nada, era bom conversar com alguém diferente, independente do que fosse o assunto.

                – Não.

                – Por que sua irmã faria uma coisa dessas?

                – Ah, pra ser sincero ela é meio retardada e está incomodada por eu estar solteiro.

                – Às vezes ela está preocupada com seu sofrimento, não?

                – Pode ser. Mas não estou sofrendo.

                – Tem certeza? Ela deve ter ferido muito seus sentimentos…

                – Não. – riu. – Minha irmã já fez coisa pior do que essa e não feriu meus sentimentos. Já estou acostumado.

                – Não disse que sua irmã feriu seus sentimentos… Foi a Elisa, não foi?

                Silêncio. Seu coração disparou. Tirou o celular da orelha e levou a frente dos olhos.

                – Saulo?

                Levou de volta a orelha.

                – Você ainda está aí?

                – Como você sabe sobre a Elisa?

                – Você ainda a ama muito, não é?

                Não respondeu. Mergulhou a cabeça na mão livre. Parecia que seu coração ia saltar pela boca.

                – Eu sei de tudo, Saulo. O quanto você a ama. O quanto ela te fazia bem e te completava. Que você sempre foi capaz de dar o mundo pra ela. Você nunca esperava que ela fosse te deixar, não é, Saulo?

                Ouvir aquilo doía, mas não conseguia desligar. Não tinha reação.

                – Você está chorando Saulo? Não precisa chorar, tem alguém aqui querendo falar contigo.

                – Saulo? – era a voz de Elisa.

                – Elisa? – espantou-se.

                – Me perdoa, eu fiz burrada… Não era aquilo que eu queria. Você precisa de mim e eu preciso de você. A gente tem que ficar juntos.

                Tentava falar, mas as palavras não saíam.

                – Esses meses longe de ti só me deram certeza que independente do que aconteça, é por você que eu perco o ar e o chão. Quando eu vi esse anúncio hoje, pensei que realmente já tinha me esquecido e querendo muito partir pra outra. Mas eu te conheço… Não é do seu tipo colocar anúncio em um classificados desse… O Saulo que eu conheço estaria do jeito que está agora e isso me machuca… Principalmente sabendo que é minha culpa…

                – Você não tem ideia do inferno que estou vivendo. – falou por fim, entre soluços.

                – Tenho sim, amor. Eu passei por um parecido…

                – Ah, não passou não! Não seja hipócrita!

                – Desculpa.

                – Foi você quem quis assim!

                – Eu sei. Mas não quero mais. É chato. Falta você em toda parte.

                Silêncio.

                – Saulo? Fala comigo.

                – Vá à puta que te pariu!

                – Demorou muito pra soltar. – riu. – Eu vou… Você vem comigo pra me proteger?

                – Elisa, não faz isso…

                – Me diz, então, Saulo… Além de ir à puta que pariu, o que mais eu preciso fazer pra ter você de volta?

                – Não sei.

                – Como não sabe?

                – Não sabendo.

                – Posso ir aí à tua casa te ver?

                Não respondeu.

                – Posso?

                – Eu estou muito ocupado hoje.

                – Você? Ocupado em um Domingo? Fala sério, Saulo. Quando estávamos juntos você gostava de ficar o dia inteiro longe do mundo, só comigo. Lembra? A gente fazia churrasco pra dois… Enchia o congelador com cerveja…

                – Para! Não me lembre dessas coisas.

                – Desculpa.

                – Hoje eu tenho umas ligações pra atender.

                – Dessas piriguetes ridículas que vão ver seu anúncio? É sério isso?

                – Sim. Minha irmã disse que a Cláudia encontrou um cara fabuloso.

                – Desde quando ouve sua irmã e passou a gostar da melhor amiga dela?

                Não respondeu.

                – E se eu ficar agarrada contigo no telefone o dia todo? Vai ficar apitando aí chamadas e chamadas em espera, e você não vai atender ninguém que eu sei.

                – Uma hora ou outra seus créditos irão acabar.

                – Até eles acabarem eu já estarei na sua porta.

                – Quê?

                – A Laura está me levando aí.

                – Não vou te atender.

                – Eu sei que vai atender. Se não atender, ainda tenho a chave.

                – Eu troquei o miolo.

                – Não precisa mentir pra mim.

                Silêncio.

                – Você vai ficar feliz em me ver?

                – Nem um pouco. – levantou da cama e limpou o rosto na camisa.

                – Tem certeza? Eu acho que vai, hein.

                – Por que você está fazendo isso, Elisa? – foi à sala.

                – Por que você é meu e eu sou sua. Fim de papo.

                – Não me convence. – ficou atrás da cortina olhando para a rua.

                – Eu precisava saber se era isso mesmo que eu queria ou se só estávamos acomodados um ao outro, daquele jeito que juramos que nunca iria acontecer depois que casássemos. No começo eu pensei mesmo que fosse isso, mas… Já percebi que não é. E por conta dessa furada minha, te fiz sofrer…

                – Pois é. Você não quis ir atrás da sua felicidade? Então, me esqueça e continue em busca dessa sua tal felicidade.

                – Mas é o que estou fazendo e já estou chegando aí.

                – Eu vou sair de casa.

                – Sei que não vai. Deve estar escondido atrás da cortina me esperando.

                – Não estou. – saiu e sentou no sofá.

                – Eu te conheço.

                – Não conhece mesmo, estou no sofá pensando em que lugar posso ir pra fugir de você sem que saiba onde é.

                – Por que se realmente sair eu vou saber onde é.

                – Exatamente. – abriu a porta e fechou, sem sair da sala. – E já estou saindo. – começou a bater os pés sem sair do lugar. – Está ouvindo isso?

                – Está mesmo?

                – Sim

                – Então por que não estou te vendo aqui fora?

                Correu para a cortina. Lá estava ela acenando. Fechou as cortinas.

                – Pra quê isso Saulo?

                – Pra quê isso Elisa?

                Ela estava girando a chave no miolo.

                – Não entre! – correu firmou o corpo na porta.

                – Saulo, me deixa entrar.

                – Não tem permissão pra entrar, VAMPIRA!

                – Larga de bobeira.

                Saulo finalizou a ligação e desligou o celular.

                – Desligar o celular não me impede de estar aqui. – grita Elisa atrás da porta. – Só saio quando me receber.

                – Vai ficar aí sua vida toda, então.

                – Não tem problema.

                Olhou pelo olho mágico e nenhum sinal dela.

                – Elisa? – conferiu.

                – Oi.

                – O que você está fazendo?

                – Estou sentada aqui no tapete esperando.

                – Vai mesmo fazer isso?

                – Sim, Saulo. E já estou ficando irritada com sua relutância boba. Você sabe como eu fico quando estou irritada!

                – Se foda você! Se foda sua TPM! Se foda! Se foda! E se foda!

                Elisa começou a rir sem parar.

                – Qual a graça?

                – Eu não disse que estou de TPM, idiota.

                – Ah… Então… Se foda você e se foda sua irritação.

                – Agora sim. Bem melhor.

                – Eu sempre quis dizer isso.

                – Sério?

                Silêncio.

                – Eu fico tão insuportável assim quando estou irritada ou com TPM?

                – Não tem ideia do quanto.

                – Tudo bem, já anotei na lista.

                – Que lista?

                – Das coisas que tenho que fazer pra ter você de volta… Primeiro ir à puta que pariu, depois, continuar em busca da minha tal felicidade… Mas essa já envolve você e já estou pondo em prática… Agora, me foder, foder minha TPM e foder minha irritação.

                Inevitavelmente Saulo achou graça daquilo.

                – Eu ouvi você rindo? – perguntou Elisa com o ouvido colado na porta.

                – Não. Estou bufando em tédio.

                – Não é o que parece. Consegui fazer você rir e está feliz por eu estar aqui.

                – Você é muito convencida.

                – Foi o que mais te atraiu quando nos conhecemos.

                – Quem garante?

                – Você disse isso naquele vídeo que fez pra mim.

                Silêncio.

                – E se responde a sua pergunta, eu ainda o tenho e revi pela última vez ontem à noite.

                – Que pergunta? Nosso passado não me interessa.

                – Saulo, é sério, isso está me irritando. De que adianta falar essas coisas se não é o que realmente quer falar?

                – Se não fosse eu não estaria falando.

                Ela nada disse. Olhou pelo olho-mágico. Nenhum sinal.

                – Elisa?

                – É o quê, Saulo? – estava chorando.

                – Ah… Por que está chorando?

                – Por que você nunca resistiu tanto tempo assim, merda! Não estava preparada pra isso.

                – Nem eu.

                – Fique tranquilo, está se saindo bem.

                – Será?

                – Não?

                Abriu a porta e a estendeu a mão.

                – Vem cá.

                Olhou-o com os olhos cheios de lágrimas e segurou sua mão. Saulo a ajudou a se erguer e a abraçou.

                – Não queria te fazer chorar. – diz Saulo.

                – Eu sei. Sou uma boba chorona mesmo. Me desculpa.

              Depois daquele abraço não houve mais lágrimas, apenas beijos apaixonados e uma reconciliação a base da troca de fluídos corporais, cheio de saudade e intensificado na vontade.

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