Maldita Starbucks

               Já tem mais de duas semanas que, de segunda à sexta, ela entra pela porta da lanchonete no mesmo horário. Nunca quatro e quatro ou quatro e seis… Sempre quatro e cinco. Cabisbaixa, com jornal enrolado debaixo do braço e cutucando seu smartphone como se fosse controle de videogame. Se aproxima do balcão e sem olhar pede um hambúrguer de forno com caldo de cana. Seu nome é Fréia. Ela não me disse… É que tem vezes que ela esquece o crachá à mostra. Na primeira vez que vi pensei: “Mas que diabo de mãe ou de pai coloca em uma garota tão linda um nome tão feio?”. Você também pensaria isso, não? Foi aí que pesquisei e descobri que Fréia significa Deusa da juventude. O significado faz jus à pessoa, pois no crachá diz que ela tem 26, mas aparenta 18. Enfim… Enquanto eu preparo o caldo, ela paga o lanche com a minha patroa no caixa. Nos primeiros dias ela só se lembrava de dizer que era para a viagem depois de eu já ter colocado o caldo de cana em um copo de vidro. Até que um dia quando ela anunciou que era pra viagem, eu afirmei que sabia e já havia colocado em copo descartável. Foi a primeira vez que me olhou. Rápido, mas olhou. Seus olhos são castanhos. Seu sorriso brilha. Eu queria morar naquele olhar.

               Depois desse dia ela parou de dizer que era para viagem. Ela guarda o celular no bolso e pega o lanche com as duas mãos. Agradece sem olhar, sai da lanchonete e eu peço a dona dez minutos de descanso. Ela atravessa a rua no sinal vermelho e senta em um banco que há no outro lado, enquanto eu sento em uma das mesas que há na frente da lanchonete. Ela dá uma bocada no salgado e abre o jornal. Eu acendo um cigarro e procuro uma página em branco no meu bloco de anotações que levo sempre no bolso. Enquanto ela lancha e se atenta às notícias do mundo, eu paro o meu mundo para retratá-la com um lápis em meu bloco. Como se fosse combinado, meu cigarro acaba no tempo certo em que ela termina o lanche, dobra o jornal, olha para um lado e para o outro e levanta. Ela pega a rua a sua esquerda e o jornal fica no banco, enquanto eu guardo o bloco e volto ao trabalho. Fréia não curte palavras cruzadas, como eu.

               Hoje ela está atrasada. Quatro e cinco e nada. Agoniado vou até a frente da lanchonete, olho para um lado e para o outro e nem um sinal. Ao voltar, Dona Gerusa me pega desprevenido:

– Será que hoje ela não vem? – pergunta de traz do caixa.

– Ela quem? – finjo não saber do que se trata e que não dei bandeira suficiente para que ela percebe-se que estou mesmo encantado por uma de nossas mais belas clientes.

– A menina que todo dia pede hambúrguer de forno e caldo de cana.

– Ah, sim… – se ela estivesse me olhando veria o quanto sou um péssimo mentiroso.

– Já tem uns dias que anoto o horário que ela chega e, veja aqui… – estende um papel na minha direção. – Sempre às quatro e cinco.

               Finjo estar surpreso.

– Que cara é essa? – ela pergunta.

– Estou surpreso. Ainda não tinha reparado nisso.

– Surpreso? Mais parece que está fazendo careta.

               Eu não disse?

– Mas que estranho ela chegar sempre no mesmo horário. – finjo não a ter ouvido.

– Isso mostra que ela é uma pessoa pontual e que organiza bem seus horários.

– Deve ser.

               Olho para o relógio da lanchonete na parede ao meu lado esquerdo. Quatro e dez.

– Vai dizer que é coincidência você sempre pedir dez minutos de descanso depois que ela sai daqui?

– Não. Não tem nada a ver, Dona Gerusa. – já sinto minhas mãos suando.

– Por que não tira seus dez minutos agora? – diz ela olhando para o seu relógio de pulso. – Só pra mantermos sempre nesse horário.

– Como assim?

– Se não for coincidência, você sempre tira seus dez minutos quatro e nove.

– É?

– Por volta.

– Entendi. – cruzo os braços sobre o balcão, apoiando o peso do meu tronco. – Estou de boa.

– Vai esperar ela chegar?

– Ela quem?

               Dona Gerusa ri, com certeza do pior mentiroso que conhecia ou o da lanchonete dela.

– Se faz questão que eu tire os dez minutos, vou agora.

               Eu iria mesmo ficar esperando, mas precisava fingir que não era nada daquilo que ela estava pensando. Saio da lanchonete e sento a mesa. Acendo meu cigarro. Só aí então olho para o banco do outro lado da rua. Perco o ar. Lá está ela com um lanche da Starbucks e conversando com um rapaz. Vadia! Me traindo com um mauricinho e traindo a lanchonete com a Starbucks! Maldito mauricinho! Maldita Starbucks! Deixo o cigarro apoiado na beirada da mesa e entro bufando.

– Dona Gerusa, sabia que tem uma Starbucks aqui perto?

– Sim. Inaugurou hoje.

– Filhos da puta!

               Dona Gerusa se espanta e quase arranca os cabelos. Havia um casal de clientes que, agora, me encaravam assustados.

– Meu Deus, o que houve?

– Ela… Digo… Eles vão roubar nossos clientes!

– Ah, não é preciso tanto, temos clientes fiéis e estamos aqui há anos.

– Eu sei, mas… Mas… – faltam argumentos.

– Relaxa. Mas gosto de ver quando você veste legal a camisa da lanchonete. – sorri orgulhosa.

               Mal sabendo que fez sentir-me péssimo, pois naquele momento eu estava pensando em pôr currículo na Starbucks. O que eu deveria fazer em uma hora dessas? Não. Não ia voltar lá fora enquanto não desse tempo daqueles dois terem sumido.

– Já fumou?

– Não. Perdi a vontade.

               E com isso, fiquei puto da vida até às seis horas, quando Dona Gerusa vai embora e eu fecho o estabelecimento. Assim que baixo a primeira porta de enrolar de ferro, alguém me cutuca as costas. Pronto. Era só o que faltava: assalto! Quando me viro, era ela. Sorri.

– Eu não sabia que vocês fechavam às seis…

               A olho. Não digo nada.

– Ainda tem hambúrguer de forno?

– Não vê que estamos fechados?

               Ela morde o lábio superior. Me encara. Dou-lhe as costas para descer a última porta.

– Na verdade ainda falta você baixar essa porta para estarem fechados… Ainda dá para entrar.

               Involuntariamente me viro de frente a ela e solto:

– Por que não compra lá na Starbucks?

– Então, mais cedo eu… – para. Sorri. Deve ter reparado que não falei como quem dá sugestão, mas sim como alguém que está puto por ter sido traído. – Você me viu não foi?

– Como assim?

– Você me viu mais cedo na Starbucks?

               Baixo a porta com força.

– Não. Vi lá naquele banco. – aponto antes de me curvar para fechar na chave.

– Está bravo?

– Tenho motivos para estar bravo? – mesmo já tendo trancado, me mantenho agachado aguardando sua resposta.

– Eu estava vindo para cá quando encontrei com um amigo lá e ele fez questão de me pagar um lanche dizendo que era a melhor cafeteria da cidade. Mas se te deixa mais calmo, eu prefiro comprar lanche aqui.

               Me levanto. Guardo a chave no bolso e tiro o maço de cigarros.

– Podia ter recusado. – digo.

– Você não conhece o Mauro… Ele não sabe o que significa um não e te aporrinha até você dizer sim ou aceitar a vontade dele. Já me deu muito no saco isso.

– Por que não dá mais?

– Por que terminamos há seis meses.

– Você me disse que ele era um amigo.

– Eu o vejo como um… Bom… Mais ou menos, né?

               Silêncio.

               Ela estende a mão:

– Me chamo Fréia, é feio, mas…

– Eu sei. – cumprimento-a. – Significa Deusa da juventude.

               E com isso, consigo parecer um estuprador que estava seguindo seus passos há dias.

– Não. Não pense nisso. Eu soube por conta disso… – e aponto para o crachá, que felizmente estava exposto.

– Ah… – olha para o tal. – Sempre me esqueço de tirar essa bodega quando estou fora do prédio. – me olha. – Mas como sabe o significado?

– Pesquisei curioso.

               Me agacho na porta e destranco.

– O que está fazendo?

– Não quer hambúrguer de forno e caldo de cana?

– Vai reabrir só para me atender?

– Se gosta mesmo de lanchar aqui, será uma honra.

– Você é um cara legal, sabia! – e me dá um soquinho no ombro, já cheia de intimidade.

               Levanto a porta de ferro.

– Não me disse seu nome.

– Tadeu. – abro a porta de vidro.

– E do seu nome, sabe o significado? – pergunta enquanto nós entramos.

               Ligo as luzes no disjuntor:

– Não lembro exatamente, mas é algo sobre pessoa capaz de imaginar os motivos que levaram os outros a tomar decisões que o contrariaram e sempre firme quando precisa impor sua vontade e sua autoridade. – ligo a máquina de caldo.

– Eita. E você é assim? – senta em um dos bancos do balcão.

– Nem um pouco.

– Por que então o nome tem significado se a gente nunca tem a ver?

– O seu tem.

               Silêncio. Ainda bem que estava de costas para ela enfiando a cana na máquina, senão veria o quanto fiquei sem graça. Ficamos calados até o momento em que eu iria pôr o caldo em um copo descartável.

– Dessa vez não é para a viagem. – ela diz.

               Coloco no copo de vidro e a entrego junto do salgado. Sento na cadeira atrás do balcão e pela primeira vez a assisto lanchar de perto.

– Não deve ser nada bonito me ver comendo. – brinca depois de engolir o primeiro pedaço.

               Sorrio. Ela bebe o caldo. Tiro um guardanapo:

– Está sujo aqui. – me atrevo e limpo o canto de sua boca. Nossos olhares se fixam no outro.

               Ela desvia. Eu desvio. Volto para conferir, sua pele tomou um tom vermelho e ela olha para o salgado nas mãos. Penso no bloco no bolso. “Por que não?”.

– Tenho uma coisa para lhe mostrar quando terminar de lanchar. – digo.

– O quê? – seus olhos curiosos brilham e o tom vermelho na pele se desfaz.

– Surpresa.

– Ai, eu adoro surpresas.

– Termina de lanchar primeiro.

               Com isso, começa a devorar rápido a metade que faltava.

– Acabei. – ainda com a boca cheia do último pedaço.

               Tiro o bloco do bolso e estendo a sua vista. Levanto a capa.

– Ih! Sou eu! – sorri apontando.

               Vou passando rápido folha por folha, dando movimento aos desenhos. Ela leva as mãos à boca.

– Meu Deus! Estou me movendo!

               Quando termina, coloco o bloco a sua frente sobre o balcão. Ela pega e fica olhando folha por folha devagar.

– Há quanto tempo está fazendo isso?

– Desde o primeiro dia quando reparei que você sai daqui e lancha no banco do outro lado da rua.

– Sério?

– Sim.

– Cara, muito bacana. Você desenha muito bem.

– Obrigado.

– Por que não trabalha com isso?

– Pra dizer a verdade não sei.

– Muito bonito. MESMO. – repentinamente fecha o bloco e: – Me vende?

– Te vender? Lógico que não. Pode ficar, é seu.

– Ai, obrigada! – me abraça forte o pescoço.

               Seu abraço era bom. Ela tinha um ótimo perfume. Fechei os olhos e viajei sozinho. Antes mesmo de pensar em abri-los, seus lábios estavam tocando os meus. O mundo parou e eu sonhei.

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