Área VIP para um nascer do Sol

                Fazia um bom tempo que eu não a via. Não tinha como ser do tipo que a gente encontra em churrascos de amigos onde aparecem estranhos e amigos em comum. Por conta disso, também, para dizer a verdade, eu já nem me lembrava dela… A verdade é que fazem tantos anos, que só recordei ao reencontrá-la. Esbarramo-nos no terminal, entre o percurso até nossos ônibus. Caminhos opostos, mas nos esbarramos. Não, a realidade é que ela me reconheceu e esbarrou em mim de brincadeira, mas como já estou tão acostumado com esses encontrões no terminal, segui em frente. Fui parado por uma mão puxando forte o meu ombro e me fazendo girar involuntariamente.

Ou. – ela diz aos risos. – Não se lembra de mim?

                Contato visual. Agora sim, eu me lembro vagamente dela. Morava na mesma rua onde moram os meus avós e quando eu os visitava na adolescência, aquela criança melequenta não podia me ver que já corria ao meu encontro e enchia o saco querendo saber histórias sobre a minha cidade. É o mal de algumas pessoas do interior. Na época eu tinha 15 e ela 9. A princípio ficamos naquela de “como vai você? O que tem feito? Trabalha com o quê?”. Essas coisas que todo mundo sabe que iniciam uma conversa com alguém que você nunca mais esperava ver. Mas na hora em que geralmente as pessoas se despedem, ela me surpreende convidando para pôr o assunto em dia em uma mesa de bar, ali mesmo perto do terminal. E quem sou eu pra negar cerveja, mesmo em uma simples terça-feira?

                Nessa nossa conversa, ela me atualiza. Mudou-se para essas bandas aos 16, ainda não tinha iniciado a faculdade, mas pretendia “um dia desses”, solteira e trabalhava em uma loja de roupas. Entre outros detalhes que a gente finge dar ideia, até chegar o momento em que ela começa a relembrar histórias da sua infância e que me envolviam. Não lembrava nem de 20% daquilo tudo. Ela fala bastante. Eu gosto, pois faz alguns meses que eu parei de falar da minha vida e estava evitando sair de uma conversa com a sensação de que falei por duas pessoas. Mulher com assunto é uma maravilha, mas se cai em futilidades, mata qualquer um. Depois de seis garrafas de litrão ela me pega desprevenido outra vez confessando que fui a primeira pessoa por quem ela se apaixonou, platonicamente, óbvio. Quem não sabe que mesmo quando o amor platônico passa, a vontade fica e se intensifica ao reencontrar o alvo anos e anos depois, principalmente quando a pessoa está cheia de si, inconscientemente desejando ser boa hora para matar a curiosidade? Tem quem pense que não, mas a vontade vai permanecer até você matar o gato. Se você tem um compromisso, é bom cortar o assunto rápido e seguir o seu caminho, mas no nosso caso estou solteiro e já me certifiquei que o status é recíproco. Então, não me afobo me mostro curioso e insisto em detalhes, que na verdade realmente não interessam. Ela é nova, ainda é afobada. Começa aquelas olhadas, nada discretas, para meus lábios, ajeitar os cabelos para um lado e para o outro, e aquele sorriso de quem está querendo. Como diria o grande Luiz Gonzaga: “Mulher querendo é bom demais!”. Invisto. Ela cede sem pensar duas vezes. Podia ser nova, mas beijava que era uma beleza. Aquele beijo que te pega e afaga os cabelos, mordisca os lábios, passa a ponta do nariz na maçã do rosto… Chega.

Amanhã eu tô de folga… – sussurra em meu ouvido. – Me leva pra tua casa!

                Na mesma hora me levanto e vou ao balcão pagar a conta. Somos obrigados a segurar a vontade até de beijos por conta do ônibus lotado. Entramos em casa já aos beijos, arrancando a roupa e vou guiando-a ao quarto. Ela é o tipo de mulher que se encaixa perfeitamente em qualquer posição, que joga o cabelo para trás a fim de senti-lo na tua mão, aperta forte teu queixo enquanto lambe o pescoço… Chega!

                Ela é das minhas e vem junto no cigarro pós-sexo. Visto uma bermuda, ela veste minha camisa social e me acompanha até o terraço. Contemplando a madrugada, o barulho do soprar de fumaça de cigarro se fundindo com o soprar do vento. Aquele friozinho gostoso que sempre se faz presente. Não me incomodava o fato de eu me fixar no nada, pensando nas voltas da vida, enquanto ela me olhava como se fosse algo impressionante aos olhos.

É fascinante o que você tem aqui. – ela diz, levando os olhos ao céu estrelado.

O quê, exatamente?

Essa vista, esse friozinho gostoso… Tudo! Nunca me senti tão bem e em paz assim.

                Acho que graça. Se você visse o tom de voz e a cara que ela fez, também acharia.

Eu amo vez ou outra perder algumas horas aqui… Se eu fosse religioso, diria que me sinto na presença de Deus.

Legal. – lança a guimba longe. – Já estive em lugares parecidos, mas nunca tão… Tão mágico quanto aqui.

                Eu apenas sorri, não tinha nada a acrescentar. Sabia mais do que ela o quanto esse meu “lugar especial” é mágico.

Já deve ter trago inúmeras mulheres aqui para curtir contigo, não? – curiosa.

Não serei hipócrita em dizer que não, mas já passei também muito bons momentos com amigos bebendo e curtindo da mesma forma que estamos aqui… Mas completamente trajados e sem a parte de beijos e sexo… – faço graça e ela ri. – Você entendeu.

Você se tornou um cara muito bacana, diferente daquele que me olhava com nojo na adolescência. – me abraça.

Não tem ideia do quanto era chata e perturbava o juízo.

Imagino. Mas, que bom que nos reencontramos agora, não?

Pois é. Nunca imaginava que aquela guria melequenta se tornaria uma mulher e tanto. – assovio o famoso “fiu fiu”.

                Depois disso ela me beija. Intensificamos o calor de nossos corpos, correndo o risco de pegar pneumonia, mas não nos importa. E com isso, a gente pega a área VIP de um belo nascer do Sol, tornando o momento ainda mais mágico, principalmente pra ela, que sussurrou ofegante no meu ouvido que nunca havia visto o Sol nascer enquanto se relacionava sexualmente com alguém. É bom chegar aos 25 e ainda ser o primeiro em alguma coisa.

 

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