Ventura: 01 – Vontade (Parte 1)

Foi em um daqueles dias que a gente sente uma louca vontade de ir para longe. Longe de tudo e de todos. Deixa o celular em casa desligado, para que ninguém consiga entrar em contato ou deixar alguma ligação perdida, tentadora, que hora ou outra chame a sua atenção, dependendo de quem seja. Hoje, nenhum rosto conhecido irá me encontrar! Esse é o pensamento. E entrega, em bandeja, sua noite para o destino, o acaso, e seja lá o que for e o que vier. Qualquer novidade que aparecer será boa e bem-vinda. Se calhar de não dar em nada, não tem problema algum, pois o mais importante essa noite é estar longe de qualquer coisa que lhe pareça familiar, em algum lugar que nunca foi, e, de preferência, que não tenha escolhido a dedo, mas sim, por ventura.

Tomei banho gelado. No quarto, abri o armário com os olhos fechados e no tato escolhi o traje que vestiria para uma noite como essa, tão especial. Ao jogá-las na cama percebi que devia fazer isso mais vezes, pois nem sempre me agrada a combinação que faço com os olhos abertos. Aprontei-me, apaguei as luzes, tranquei a porta e saí. E vamos ao que interessa! Passei na padaria perto de casa e comprei maço extra de cigarros. Quantas vezes fiquei desesperado de madrugada procurando algum lugar aberto que vendesse cigarros? Quantas vezes a vontade era tanta, mas tinha que racionar os restantes, pois o sono não vinha e os comércios já estavam fechados? Enfim, fui para o ponto do outro lado da padaria e decidi que pegaria o primeiro ônibus que viesse. Nada de Vans, não me dou muito bem com elas, principalmente dentro, com aquele rapaz educado na janela estrangulando a língua portuguesa, aos berros: “Alcântara, segundo Extra, Sanzabel! Sanzabel dois real!”. Certa vez até brinquei dizendo: “Passa em Santa Isabel?”, mas não entendeu a piada. Pois é, eu tenho essa mania de fazer piadas sem graça onde só eu me divirto. E daí? Quem nunca?

Não demorou a surgir o primeiro ônibus, infelizmente para perto, mas fiz sinal. Mesmo estando longe de qualquer lugar que seria o meu destino final, a cada minuto que passava, só aumentava a ansiedade por descoberta, novos ares. Terra à vista, Colombo! Desci no ponto final e esperei por outro, que também não tardou a vir. Esse sim, me levaria para longe. Sempre o vejo passar, mas nunca tive que pegá-lo para ir a churrasco, aniversário, ou algum tipo de comércio que só tivesse em um dos lugares por onde ele passa. Assim que o ônibus adentrou região, que até então eu desconhecia, sentei perto do motorista e perguntei se sabia de algum bar perto de ponto, para que me facilitasse na hora de ir embora e não precisasse chamar táxi. Deixou-me em um bar com videokê, alegando ser ótimo, e que ele frequentava bastante. E brincou dizendo que não poderia me acompanhar, pois ainda tinha a última volta a fazer, mas talvez nos encontrássemos ali mais tarde. Mesmo aceitando a dica, fiquei receoso que pudesse ser um bar de motoristas e trocadores de ônibus… E que ele realmente aparecesse depois. Nada contra, mas não gosto de bares que são frequentados por um mesmo tipo de pessoas, rotuladas ou de certa forma, categorizadas, estereotipadas. Entende?

Fui adentrando com passos lentos, avistando bem cada detalhe do lugar e das pessoas. E o que posso dizer? Oito e oitenta. Nome? Bar do Ubirajara & Fiéis Amigos. Grande Bira, conhece? O ambiente não era nem grande nem pequeno, nem cheio e muito menos, vazio, nem sujo nem tão limpo. Parecia um ótimo “sujinho”. E nenhum sinal de uniforme, crachá, ou mochila de alguma viação. Menos mal, é aqui mesmo que ficarei. Não queria novidade? Cá estava ela.

Sentei em uma das mesas perto da saída, qualquer coisa era só levantar e saltar fora sem pensar duas vezes. Não foi difícil reconhecer o tão famoso Bira, que o motorista tinha mencionado, quando um homem gordo, com camisa cinza toda engordurada, bigode ruivo que escondia a boca, cabeça parecendo frente de praia e um pano pendurado no ombro, veio todo prático limpando a mesa e perguntando o que desejava. Bem simpático e amistoso por sinal, esse tal “Grande Bira”. Quando pediria por novidade, hesitei, retribui o sorriso amistoso e pedi cerveja estupidamente gelada. Dando ênfase no estupidamente, lógico.

Quando olhei para os fundos do local, onde ficava a máquina de videokê, avistei uma mulher me encarando com um semblante de quem estava ali há horas bebendo. O que não entendi era por que me encarava enquanto um homem a abraçava por trás e fungava seu cangote, seguindo seu ritmo lento, enquanto outro camarada cantava “O Ritmo da Chuva”, que por sinal, muito melhor na versão que ouvi cantada pela Fernanda Takai. Com certeza! Desviei o olhar quando Grande Bira chegou com a minha amada loira gelada, pôs o copo na mesa e o encheu com aquele talento que só os donos de bares têm: sem colarinho, na medida ideal. Parecia que aquela mulher tinha um ímã nos olhos… Um ímã oposto ao ímã dos olhos meus, que me atraía fortemente. Novamente olhei-a. Fitava-me com o mesmo semblante, ainda dançando lentamente e com aquele homem, aparentemente bêbado, grudado nas suas costas. Comecei a notar seus detalhes cima a baixo, seguindo seus traços corporais: aproximadamente um metro e setenta de altura; pele bronzeada de longe (devia ter ido à praia seis dias atrás, ou menos até, pois a marca do biquíni ainda era visível, porém não tão forte, mas, ainda assim, convidativa); cabelos negros e longos, daqueles ondulados que queriam ser encaracolados e faziam questão de deixar isso bem claro; trajava um tomara que caia preto, que deixava seu umbigo a mostra e avolumava bem seus seios médios, que deviam estar com um sutiã meia taça sem alça – não sei, mas era meu tamanho ideal se estivesse sem bojo, isso eu tenho certeza –; saia rodada de cor azul marinho, cheia de flores coloridas, que batia um pouco acima de seus joelhos – confesso que me deu tremenda curiosidade de ver pelo menos metade daquelas coxas. Deveria ser essa a sua intenção. Sabe-se lá, não? –; e nos pés, um simples par de havaianas pretas, que deveria ser tamanho trinta e cinco ou trinta e sete no máximo. Assim que meus olhos chegaram aos seus pés, voltei rapidamente aos seus olhos, que não dava para ver a cor de longe, mas o formato tinha um traço europeu lindo. Ela baixou a cabeça, soltou belo sorriso e voltou a me olhar. Ergui o copo no ar, na sua direção, sorri de volta e dei boa golada sem desviar os olhos dos dela. A cerveja desceu como água, uma sensação gostosa. Ou devia ser devido à sede que aquela mulher estava começando a causar em mim, além da sede que aqueles lábios bem delineados e pintados de rosa estavam causando? Sabe aquela boca que o lábio superior é pequeno e o inferior é carnudo? Perfeito. Já começava a imaginar aqueles lábios agarrados aos meus. Devia ter gosto de mel alcóolico. Uh.

Enquanto puxava o maço aberto, pensei: “O que pensa que está fazendo? Ela está acompanhada! Que loucura é essa?”. Acabei ignorando minha própria censura e continuei mantendo aqueles olhos presos aos meus. Hipnotizavam-me, mas eu também queria hipnotizar. Ainda não definimos quem é a caça aqui e é sempre mais legal ser o caçador. Na verdade não definimos nada, mas se alguém está para dar o bote no outro, tem de ser eu! Certo! Coloquei o maço na mesa após tirar um e acendê-lo. De repente ela vira para o homem agarrado as suas costas, cochicha algo em seu ouvido e vem em minha direção. Nesse momento pude notar como mexia sensualmente aquele quadril enquanto caminhava. Mais uma vez aquela imensa curiosidade de ver o que a saia rodada teimava em esconder e chamar tanto a minha atenção. Já me sentia criança querendo brincar com brinquedo de adulto. Sabe quando dizem: “Não mexe, senão pode quebrar” e já é aquela criança experiente que sabe que das outras vezes realmente havia quebrado? Era eu. Meu senso já tinha alertado para não mexer com aquele brinquedo, mas o que eu iria fazer agora que ele estava se aproximando?

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