Ventura: 01 – Vontade (Parte 2)

– Boa noite. – ela diz, de frente para mim, atrás da cadeira no outro lado da mesa e passando a mão direita lentamente pela nuca. Tom de voz tentador, meio embriagado, que quase me fez fincar os lábios, fechar os olhos e imaginar aquela voz em um sussurro no pé do ouvido: “– Me possua!”. E se passa a ponta da língua em seguida, então, morri, já vejo a luz.

– Boa noite. – respondo me ajeitando na cadeira.

– Tem um cigarro? – olhou meus lábios e rapidamente voltou para meus olhos, apoiando as mãos no encosto da cadeira.

– Fique à vontade. – digo pegando o maço na mesa e estendendo em sua direção.

Tirou um e colocou o maço na mesa, do lado da garrafa:

– Tem fogo? – perguntou com o cigarro no canto esquerdo da boca, curvando-se na minha direção sobre a mesa, com as mãos palmeadas na mesma e sem querer ou por querer, chamou minha atenção aos seus seios.

Meu silencio e olhar me entregam. Ela sorri. Mais uma vez olha para os meus lábios e rapidamente volta a me encarar. Devia fazer parte da hipnose. Não é possível! Facilmente estava me seduzindo cada vez mais.

O isqueiro estava dentro do maço e com certeza o tinha visto. Tirei de lá e fui logo tratando de erguê-lo em sua direção. Risquei a pedra e dei-lhe fogo. Deu forte tragada olhando para a brasa. Tirou-o da boca com o polegar e o indicador da mão direita, erguendo pouco os outros dedos, como madame cheia de classe. Notei a marca de batom no filtro, o que me fez imaginar no meu pescoço, no colarinho da minha camisa. Não sou casado, não teria problema algum. Ela recua e fica novamente ereta. Não trocamos nenhuma palavra. Olhou para trás. Acompanhei seus olhos. Com certeza estava conferindo o que fazia o homem grude. E lá estava ele com o microfone na mão, escolhendo uma música no videokê.

– Esperando alguém? – me pergunta soltando fumaça, voltando os olhos para mim.

– Não.

– Posso? – puxou a cadeira.

– Fique à vontade.

Sentou, colocou os cotovelos na mesa, o braço esquerdo deitado com a mão no bíceps direito e o braço direito reto, com o cigarro nos dedos e a mão arcada. Ficamos minutos nos encarando como se nossos olhos estivessem tendo conversa, se conhecendo melhor, e, quem sabe, estivéssemos mesmo pensando nas mesmas coisas. Era tudo o que eu queria naquele momento, que aquele brinquedo quisesse brincar comigo e não quebrasse no final.

– Me acompanha na bebida? – pergunto.

Não sei como aquela pergunta saiu, mas ela assentiu com a cabeça. Acenei ao Bira e gesticulei que trouxesse outro copo. Continuamos em silêncio ao som do homem grude cantando “O Homem Bomba” da banda O Rappa no videokê. E essa música aumenta a adrenalina. Já ouviu? “Boom! Boom! Boom! O Homem bomba!”.

Ficamos nos encarando com nossos sorrisos sonsos até que Bira chegasse. Quando chegou com o copo, foi logo enchendo os dois, assim como fez quando cheguei, e colocou a garrafa de volta na “camisinha” (porta-garrafas).

– Nunca te vi por aqui. – diz ela curvando-se pouco.

– Nunca a vi em lugar algum. – retruco, jogando com peteleco a guimba na direção da rua.

Sorri e acompanha com os olhos a guimba voando até se espatifar ao chão. Volta a me olhar, passa a mão direita pela testa ajeitando os cabelos:

– De onde és? – pergunta.

Continuei calado. A canção acaba e ela olha para trás, obviamente a conferir, mais uma vez, o que o homem grude iria fazer. E lá estava ele escolhendo outra música. Pague uma e cante duas. Virou-se na minha direção. Bebeu. Passou a língua nos lábios, limpando pouco da espuma sem tirar os olhos dos meus. Era como se estivéssemos em um jogo, duelo, em que uma piscada ou olhada para o lado, poderia ser vital. O que ela não sabia é que, nesse faroeste de troca de olhares, eu era o Clint Eastwood com meu olho esquerdo bem calibrado, e o Charles Bronson com meu preciso olho direito.

– Seu marido? – me atrevo.

– Não. – riu, baixando os olhos para o copo.

– Namorado? – insisto.

Silêncio. Continuou sorrindo. Não sei se sabia o quanto aquilo estava me fascinando cada vez mais e mais e mais…

– O que o trouxe até aqui? – pergunta me tirando do transe.

– Sabe aqueles dias que a gente sente uma louca vontade de ir pra longe de casa, atrás de alguma novidade? – puxei um cigarro do maço e o acendi, fazendo mistério à toa. – É bem por aí.

Solta sorriso malicioso enquanto olhava para brasa queimando no meu cigarro ao ser tragado. Acho que devia ser admiradora de brasas, calor e essas coisas. Sabe?

– E você? – pergunto.

– Sabe aqueles dias que a gente sente uma louca vontade de ser uma novidade? – me olhou com semblante tão sexy, que quase caí da cadeira. Senti até aquele arrepio gostoso subindo pela nuca.

Olhei para o homem grude, que agora já cantava olhando para nós, ali, a sós, e esquecia bastante a letra da música ou de se concentrar nela. Já era sem ritmo, agora, então. Voltei os olhos para ela, e não sei o que deu em mim, mas:

– Quer ir para outro lugar? – encarei o homem grude guardando o microfone na máquina. – Responde rápido!

– Por quê? – perguntou assustada franzindo a testa, estranhando a pergunta repentina, ou por algum outro motivo mesmo. Não altera o produto.

– Ele está vindo! – levantei rapidamente e coloquei o maço e o isqueiro no bolso.

– Quero! – matou o copo em uma golada só e levantou. – Mas e a conta?

– Vai ficar na dele. – digo segurando em sua mão.

Saímos correndo do bar, como dois adolescentes vivendo romance proibido ou dois comparsas, amantes, fugindo da polícia. Suspeitos de um crime perfeito, como canta o gênio Humberto Gessinger em sua música Pra Ser Sincero. Como não conhecia nada pela região, pedi para que ela nos levasse ao ponto e pegássemos o primeiro ônibus que aparecesse para qualquer lugar, sem se preocupar com onde ele iria. Averiguei e lá estava o homem grude correndo, ziguezagueando, quase caindo pelas tabelas e gritando algo difícil de entender, nem me interessava saber. Vou deixar por conta da sua imaginação. Mudei os planos ao ver um táxi parando na calçada. Entramos rapidamente, fechamos as portas e gritei que nos levasse para longe, o mais rápido possível. Deve ter olhado pelo retrovisor e entendido mais ou menos a situação, pois saiu cantando pneu com o carro. Então, no banco de trás, nos beijamos ardentemente pela primeira vez. Como era quente aquele beijo. Como eram suaves aqueles lábios perfeitos e sedentos por minha língua. Não tinha gosto de mel alcóolico, mas de cerveja mesmo! Antes dos meus olhos, minha mão direita matou boa parte da curiosidade de ver, sentir, pelo menos metade daquele par de coxas, enquanto a mão esquerda sentia toda maciez daqueles longos cabelos ondulados, que, como já disse, queriam ser encaracolados.

Minutos depois o motorista me pergunta onde era o longe que queríamos. Respondi que já estava ótimo. Paguei e descemos do táxi. Mas onde estávamos? Nem ela sabia. Muito menos nos importava. Olhamos ao redor e avistamos Motel do outro lado da rua. Adoro taxistas sagazes! Antes mesmo que perguntasse algo, já foi puxando minha mão, sugerindo que entrássemos. E vou eu pensar duas vezes?

No quarto, tive certeza que as roupas sempre nos enganam. Era muito melhor do que eu poderia imaginar. Vi uma Deusa tirar a capa de mulher na minha frente, na “minha” cama! A noite foi maravilhosa e muito mais do que esperava. Como era bom o sexo daquela Deusa. O beijo, o toque, o gemido, a respiração ofegante no pé do ouvido. Tudo! Sem exceção! É fato que cheguei a pensar que estava sob o efeito de alguma droga alucinógena, em uma viagem louca e espetacular rumo ao Nirvana. Mas era real! Dormimos e quando acordei, me deparo com um bilhete ao meu lado na cama, em cima do travesseiro que aconchegou seu sono pós-sexo surreal, talvez só para mim:

“Creio que a noite foi tão maravilhosa quanto esperávamos que fosse. Quem sabe em algum outro desses dias loucos, que a gente vai pra longe atrás de novidade ou querendo ser novidade, não nos encontremos novamente, por ventura…”.

Assim mesmo. Sem deixar nome, beijo, telefone… Só vontade.

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