Ventura: 02 – Brinquedo (Parte 1)

Passei meses tirando alguns finais de semana para vez ou outra passar disfarçado pelo local do nosso primeiro encontro, ver se dava sorte de encontrá-la novamente, ou, quem sabe, encontrasse seu sapatinho de cristal. Quando desisti de procurar, foi aí que a reencontrei. E sabe o que é melhor? Foi em um daqueles dias que a gente sente uma louca vontade de ir para longe… Longe de tudo e de todos, atrás de novidade. Assim que entrei no ônibus, ao passar pela catraca, pude reconhecê-la de costas sentada sozinha na parte esquerda do meio, olhando para a rua pela janela. Impressionante! Sentei no banco de trás e colei meu nariz em seus cabelos, inspirei profundamente, sentindo o mesmo perfume e creme capilar daquele dia. Senti-me vampiro analisando a presa perfeita que acabou de encontrar.

– Doces ou travessuras, querida? – sussurro por cima de seu ombro direito.

Como quem tivesse tomado pequeno susto ou sentido subir arrepio na nuca, se esticou toda no banco, jogando lentamente a cabeça para trás do encosto, soltando suspiro lento e carregado:

– Não acredito. – disse, sem virar.

– É o mesmo perfume daquele dia. – digo fechando os olhos e tendo flashes do final daquela noite.

– É o que uso quando quero ser novidade. – leva as mãos para trás, laçando minha nuca e me puxando para mergulhar o rosto em seus ondulados.

– Bom! Muito bom mesmo… – inspirando novamente aquele cheiro gostoso. – Pois hoje é outro daqueles dias que estou à procura de novidade. – encostei a testa nas costas de sua cabeça, por cima dos cabelos, roçando a ponta de meu nariz em sua nuca.

– Será que tem como ser novidade duas vezes? – pergunta com a voz tremida e baixa, juntando os ombros, encolhendo o pescoço.

– Tem! E como tem. – sussurro. – Naquele dia foi embora e não deixou nome, nem telefone, nem nada.

– Sentiu saudade foi? – voz mais firme, tentando resistir as minhas carícias.

– Vontade!

Sentou-se de lado e ficou com o rosto de frente. Finalmente, contato visual. Aquele olhar de moleca marota fatal. Ficamos nos encarando como da primeira vez, em silêncio, mas dessa vez estava com sorriso tentador nos lábios, de quem sabia manipular bem os efeitos que conseguia causar em mim, pobre mortal a seu serviço, carnalmente!

– Onde vai? – pergunta.

– Acha mesmo que sei? Nem olhei o número desse ônibus… Só fiz sinal e cá estou.

– Então é assim que faz? – morde o lábio inferior. – Me conta como fez naquele dia? Como foi parar em um lugar que não conhece? – cruza os braços sobre o encosto do banco e apoia o queixo neles. Seu rosto estava quase vinte centímetros longe do meu e os seus olhos pareciam penetrar a minha alma.

– Ainda em casa desliguei o celular e decidi que pegaria o primeiro ônibus que surgisse… – não conseguia tirar meus olhos de seus lábios pintados com batom cor de pêssego. – E desceria em qualquer lugar que eu desconheço. O primeiro que peguei só passava por lugares que já tinha até enjoado de frequentar. – subi meus olhos aos dela. – Foi o segundo ônibus que me levou a “lugar qualquer que fosse”. – brinco aos risos. – Pedi sugestão ao motorista, e me aconselhou aquele bar.

– Interessante. – aproxima mais um centímetro do meu rosto, e, agora, não tirava os olhos dos meus lábios, pintados com o tom mais natural de: “me cala e me beija”.

– E você? – pergunto antes de tentar aproximação.

Recua bem na hora que tento arrancar-lhe um beijo. Segurava no encosto do banco com os braços esticados, aquele sorriso tentador e, dependendo do ponto de vista, sarcástico, sem dizer uma única palavra. Ficamos nos encarando. Não sei dela, mas eu estava cada vez mais sedento por aquele beijo de Deusa, louco para que se despisse logo de mulher e me levasse ao Paraíso.

– Senta aqui ao lado meu, vem. – diz ajeitando-se no banco.

Rapidamente levanto e sento. Enquanto admirava sua beleza, ela olhava para a rua pela janela. Parecia que, novamente, estava sob o efeito de sua hipnose. Não conseguia dizer nada, só vislumbrá-la ali ao meu lado, cheirosa, despertando desejos carnais. Era fato que tinha me apaixonado por aquela novidade fascinante e misteriosa. Aquela Deusa vestida de mulher mortal… Fatal! Dentro de um lindo vestido vermelho a transformando em minha Rainha de Copas. E eu de bobo, querendo ser Rei! De repente me olha:

– Queria que tivesse deixado meu nome e telefone naquele bilhete? – humedece suavemente os lábios com a língua.

Assenti sem tirar meus olhos daquela cena em seus lábios.

– Tive uma ideia. Me encontrou hoje, de novo, e sem querer, certo?

– Corretíssimo, minha cara.

Olhou para a rua por alguns segundos e voltou a me olhar com sorriso adolescente e sapeca:

– Faremos o seguinte. – passa a mão direita nos cabelos, parando no pescoço. – Continuaremos deixando esses encontros por conta do destino. Sempre que nos encontrarmos, saberemos algo novo sobre o outro no fim do encontro… – volta os olhos para a rua. – Lembro-me de ter visto algo parecido em um filme… Só não lembro o nome.

– Lembro-me do filme, mas… Como assim?

– Hoje, por exemplo.  No final desse encontro, vou lhe dizer algo sobre mim. Minha cor predileta, nome, data de nascimento… Sei lá! – ri. Me encara. – Mas entendeu a ideia?

Respiro fundo, cruzo os braços:

– Interessante. – solto forte o ar dos pulmões.

– E você me diz algo sobre a tua pessoa. – passa lentamente a palma da mão direita no meu rosto. Que pele macia! Me fez até fechar os olhos involuntariamente.

– Gostei. Gostei do jogo. – continuo de olhos fechados sentindo seus dedos saírem aos poucos de meu rosto. – E se não nos encontrarmos mais? E se nosso próximo encontro demorar anos? – eu e meus “e se”.

– Seja o que o destino quiser. – me dá um selinho. – Sabe-se lá o que reserva para nós? – pisca e levanta. – Vamos, venha! – puxa a cordinha do ônibus. – Algo me diz que devemos descer aqui. – ri – Anda! – passa na minha frente e vou logo atrás, sem pensar duas vezes.

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