Ventura: 02 – Brinquedo (Parte 2)

Descemos perto de uma praça em um lugar qualquer e desconhecido, pelo menos para mim. Era uma daquelas praças movimentadas e com muitos bares, e que sempre ficam cheias até altas horas da madrugada. Entreolhamo-nos e ela sorriu.

– Que tal?

– Estou contigo e não largo.

Sentamos à mesa do bar mais próximo, que por sinal era o mais vazio e mais “chique”. Por incrível que possa ser, parecia até daqueles bares de filme americano, mas ao ar livre. O garçom veio, passou pano na mesa e nos perguntou o que beberíamos. Apenas olhei-a, que logo pediu uma Antártica bem gelada e dois copos. Já eu, pedi porção de churrasco misto e de fritas.

– Com fome? – ela pergunta franzindo a testa.

– Para distrair o estômago. – ajeito-me na cadeira, sem graça com a pergunta e me sentindo acima do peso. Palhaçada.

Acendi um cigarro e antes de colocar o maço na mesa, reparei que ela tinha paquerado a brasa como na primeira vez que nos encontramos. Dessa vez, sem pedir, foi logo pegando e tirando um. Curvou-se em minha direção, ainda sentada, e dei-lhe fogo novamente. E lá estavam seus olhos presos, por segundos, na direção da brasa, aumentando a minha curiosidade.

– Notei que sempre que acende um cigarro, você fica olhando pra brasa.

– E você não? – sorri jogando a fumaça para o lado. – Assim sabemos que está realmente aceso. – brinca.

– Mas até quando outra pessoa acende você fica namorando a brasa.

– Sério? – faz uma careta engraçada e cruza os braços sobre a mesa, como da primeira vez. Parecia que estávamos repetindo tudo. Como se estivéssemos encenando a mesma peça em outro teatro.

Afirmo com a cabeça.

– Nunca reparei isso.

– Tenho mania de ficar notando pequenos detalhes.

O garçom chega com a cerveja e dois copos. Coloca-os sobre a mesa, os enche e diz que as porções demorariam por volta de dez minutos. Pegamos nossos copos e erguemos no ar:

– Um brinde… – dizia até ela completar a frase.

– Ao acaso! – e bebe.

– Ao acaso. – concordo e a acompanho. – Mas me diz… – coloco o copo na mesa. – Eu lhe disse como fiz da última vez e você não me disse como foi parar naquele bar. – queria saber sobre o homem grude.

Continuou calada. Tinha essa mania de responder com silêncio, sorriso tentador e me encher de interrogações e exclamações com os olhos. Aquilo me dava uma sensação maravilhosa de ficar no impasse de perguntar ou admirá-la em silêncio. Mas sempre preferia esquecer a pergunta e continuar mantendo aquela interessante conversa de olhares e sorrisos. Notei um Jukebox no bar.

– Olha que bacana. – aponto para a máquina e faço piada: – Aqui não tem videokê, mas tem Jukebox.

Solta gargalhada gostosa:

– Vai pôr algo para eu ouvir?

Olhei para a máquina, depois para ela. Por fim voltei os olhos para a máquina, levantei e fui. Aquele velho esquema de quatro músicas por dois reais, e ainda podia ganhar cerveja, se estivesse com sorte. Mas minhas fichas de sorte estavam todas com aquela Dama de Copas. Sabe como é… Certo? Fora que é sempre nessas máquinas, que, às vezes, a gente encontra artistas e músicas que não lembra mais a existência. Comecei a ver tanta coisa boa, que há tempos não ouvia, e fiquei sem saber o que pôr. Demorei tanto, que minha Deusa veio até mim. Senti sua mão esquerda pousar suavemente nas minhas costas.

– Não encontrou nada bom?

– Pelo contrário, tem tanta coisa boa que há tempos não ouço… – passava as páginas. – Agora estou com uma dúvida cruel sobre o que pôr para ouvirmos. Tem alguma preferência?

– Faz o seguinte. – segura em meus ombros e me vira de frente para ela, ficando assim, de costas para a máquina. – Vou passando e você diz quando devo parar. – olhava para o visor. – Na página que parar, eu enumerarei os artistas e irá escolher um número… Daí eu lhe direi o número de faixas que tem e escolherá uma. Simples e fácil, não?

Cá entre nós… Foi uma ideia de mestre! Que criatividade! Gostei de cara e concordei. Fechei os olhos e fiquei ouvindo o “tec-tec-tec” frenético que as teclas faziam enquanto ela batia nelas com força e rapidez.

– Para!

– Um, dois, três ou quatro?

– Um.

– Treze faixas.

– Sete.

E começou a tocar “O Astronauta de Mármore”, da banda Nenhum de Nós.

– Está aí uma banda que não ouço há séculos. – digo, virando-me de frente para a máquina.

– Vira de novo para escolher a próxima.

Repetimos aquele procedimento até terminar de escolher as canções. Quando voltamos para a mesa, as porções de churrasco misto e de fritas já estavam à nossa espera. Ao som da nossa playlist aleatória, e misteriosa para mim, fui aos poucos descobrindo o que tinha escolhido. Devoramos o aperitivo e três garrafas de cerveja. As pessoas ao redor deviam estar achando que éramos casal mudo, pois não trocávamos nenhuma palavra, apenas olhares e sorrisos maliciosos, uma golada e outra, um cigarro ou dois, e uma seduzida ou outra com as fritas. Maravilha!

Tocou músicas que não ouvia há tempos, como: “Uma noite” da banda Tihuana;Espere por mim morena” do Gonzaguinha; e “Vá morar com o Diabo” da Cássia Eller. Pedimos outra cerveja e acendemos juntos nossos cigarros, no mesmo fogo. Ela, como sempre, namorando a brasa.

– É engraçado. – digo enquanto espero o garçom.

– Eu olhando para a brasa? – brinca aos risos.

– Não. Na verdade, também. É que a gente mal conversa, quase não fala nada.

– Isso lhe incomoda? – me encara com expressão diferente, que até então eu desconhecia. O garçom enche nossos copos, coloca a garrafa na camisinha e sai.

– Não! Na verdade gosto… E muito.

– É muita novidade pra você? – passa lentamente a ponta da unha do indicador no lábio inferior de um sorriso extremamente sexy.

– Pra ser sincero, está sendo sim. – não consegui tirar os olhos daquela cena. – Mas nunca é demais. Meu coração é forte, aguenta.

A unha deu lugar para a língua humedecer os lábios, seguido de uma mordiscada no lábio superior. Nossa! Como aquilo me esquentou. Fiquei mudo e hipnotizado. Quando levou o cigarro à boca e deu uma tragada, consegui voltar meus olhos aos dela.

– Você é muito sexy, mulher! – confesso com a respiração prestes a ofegar.

Apenas sorriu como se fosse óbvio, e eu o último a perceber o que era capaz de causar, principalmente em mim. Passou as mãos no cabelo, olhando para o chão ao seu lado esquerdo e eu só acompanhando cada novo detalhe que me apresentava. Madeixas de cabelo caem por cima do lado direito do rosto, sombreando o mesmo. Olhava-me por detrás deles enquanto passava a mão na nuca. Tinha um jeito de olhar que me deixava com louca vontade de manter aqueles olhos presos em mim por horas, mas ela sempre só deixava durar poucos segundos, como se quando eu estivesse perto de flutuar para longe da realidade à nossa volta, ela se fazia de chão e fixava meus pés nela, e eu voltava para o planeta Terra. E não foi diferente nem durou tanto tempo, ela logo se ajeitou na cadeira, jogou os cabelos para trás e sorriu maliciosa me encarando.

– Quer ir para outro lugar? – pergunta. – Responde rápido!

Lembrei logo. Era o mesmo que eu havia dito no nosso primeiro encontro, mas não sabia se ela queria encenar aquele dia em papéis diferentes ou se só estava usando a mesma pergunta, sem querer. Arrisquei na primeira opção:

– Por quê?

Solta uma gargalhada gostosa e bate palmas mudas:

– Muito bom. Você lembra.

Foi a minha vez de rir alto, não aguentei. Tive até que pôr as mãos na boca para tentar abafar.

– O que houve? – pergunta curiosa, sem entender minha reação.

– Me lembrei da gente correndo e o carinha lá vindo atrás da gente, ziguezagueando todo bêbado, quase caindo, e aos berros.

– Foi realmente engraçado. – olha para o lado.

Controlei a risada e me ajeitei. Respirei fundo. Dei um gole carregado e enchi nossos copos.

– Falando nisso… Encontrou com ele depois daquilo? – tento retomar minha investigação.

Negou com a cabeça enquanto puxava um cigarro do maço. O acendeu. Preciso dizer que namorou a brasa? Enfim…

– Agora é sério. – disse antes que eu fizesse outra pergunta. – Quero recordar aquele ótimo fim de noite. – outro sorriso malicioso e aquele olhar tentador que já deve estar me deixando chato.

– E para onde vamos?

– Ué… Não é pegando a primeira condução que aparecer para qualquer lugar?

– Será que tem algum motel por aqui pela região? – olhava ao redor.

– Não sei. – fez uma pausa. – Mas podemos fazer o seguinte… – olhava para um ponto fixo atrás das minhas costas, com a cabeça erguida e expressão pensativa. – Tem um táxi parado bem ali. – apontou com a mão direita.

Virei-me e voltei a olhá-la após avistá-lo.

– Podemos pedir para que nos leve ao Motel mais próximo.

– Ou podemos ir lá pra casa. – aposto na sorte, esquecendo que estava toda nela.

– E estragar toda a brincadeira? Definitivamente não! – meneava a cabeça.

Ficamos nos encarando sem dizer nada, até que ela levantou, pegou a bolsa tiracolo e passou as alças no ombro:

– Vai ficar parado? – joga o cigarro longe. – Paga a conta enquanto vou ao banheiro. – lançou-me uma piscadela e saiu.

Fiquei ali, completamente estático, olhando seu quadril dançando em direção ao banheiro. Para mim, por mais que eu tenha começado aquilo tudo, era estranho. Cada vez mais ela conseguia causar efeitos, que até então, eu desconhecia. Parecia até filme ou livro… Tanto faz. Já tive paixões, me envolvi em muitos relacionamentos… Mas aquilo ali era completamente diferente de tudo que já tinha vivido. Estava me envolvendo com alguém que eu sabia bem cada detalhe do corpo, do beijo, do sexo, dos trejeitos… Já até podia fazer tutorial bem feito! Porém, não sabia nome, endereço, telefone, os livros prediletos, os artistas em comum e os eteceteras que havia naquele brinquedo – que por sinal, não tinha quebrado na primeira noite –, naquela Deusa, na minha Dama de Copas. Minha? Oi? Então…

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