Ventura: 02 – Brinquedo (Parte 3)

Minutos depois que entrou no banheiro, levantei e fui até o balcão. Paguei a conta e fiquei na calçada do bar esperando. Quando chegou, deu-me a mão sutilmente. Olhei-a. Sorriu corada com os olhos fechados. Foi um sinal de que tudo aquilo que eu estava sentindo, poderia muito bem estar se passando dentro dela também, mas, acho que ela sabia disfarçar melhor, o que já não era o meu caso. Não sei o que deu em mim, quando vi, estava beijando-a na testa. Sou aquele tipo de cara que realmente leva a sério sobre um beijo na testa ser sinal de respeito, afeto. E só faço isso com familiares, namorada, noiva ou esposa de algum amigo… Ou por quem estou apaixonado.  Antes que dissesse alguma coisa, corri:

– Ele está vindo. – improviso aos risos.

Corremos até onde se encontrava o táxi. O motorista, que estava encostado no capô do carro lendo jornal, não entendeu nada quando nos viu entrando e fechando as portas. Entrou todo afobado no carro, e com os olhos arregalados nos encarou perguntando o que estava acontecendo. Aos risos dissemos que não era nada e pedimos para que nos levasse ao Motel mais próximo. Não sei se não gostou da brincadeira ou se estava brigado com a esposa ou se aquele mau humor era normal, mas não foi bem amistoso o jeito que se despediu após nos deixar na frente de um Motel, aparentemente, mal localizado.

Enquanto subíamos a rampa de entrada:

– Onde será que estamos? – pergunta.

Era uma rua sem boa iluminação e deserta.

– Não faço a mínima ideia.

– Pelo preço que te cobrou, deve ter nos deixado onde Judas se perdeu pela primeira vez na vida, quando ainda era uma criança inocente e inofensiva, não negava nem pão. – solta uma risada gostosa. – Só para nos sacanear pela brincadeira.

Entramos e fomos correndo para o quarto. Meu coração já disparou só ao abrir a porta e saber que estava prestes a ser levado ao Paraíso, e que uma Deusa surgiria a minha presença em alguns segundos. Enquanto ela se despia, pude notar bem, detalhes que não havia percebido na primeira vez e que só intensificavam a sua imagem de Deusa nua. Sua beleza era fora do comum, em curvas bem feitas, pele macia, sorriso angelical e, algumas vezes, pervertido. Não tinha erro, realmente não era mulher comum ou normal. Melhor, não era mulher. Já disse, repito e insisto, e já estou sendo chato com isso… Era uma Deusa!

O beijo estava mais doce, o toque tinha mais vontade, o gemido estava mais alto, a respiração ofegava mais, e eu estava mais entregue que da primeira vez. Não preciso dizer que novamente conseguiu me dar o melhor sexo da minha vida. Preciso?

Horas depois paramos para descansar. Éramos daquele tipo que depois de uma boa, teria de haver a pausa para o cigarro e relaxa. Fiquei sentado com o lençol por cima das pernas e ela deitada sobre elas, olhando-nos pelo espelho no teto:

– Pode me dar dinheiro para o táxi? – pergunta soltando a fumaça pelo canto da boca. – Dá última vez foi caro. – sorri. – E imagino que agora vai ser mais.

– Posso sim, com certeza. Se quiser eu te reembolso pelo que gastou na última vez.

– Não… Não precisa.

Com cuidado tirei sua cabeça de minhas pernas, coloquei um travesseiro no lugar e fui até onde minha calça estava jogada. Tirei a carteira do bolso e dedilhei as notas.

– Setenta está bom?

– Não. – ajeitou-se na cama, deitando de bruços. Abraçou o travesseiro e olhou em minha direção sorrindo. – Cinquenta está.

– Tem certeza?

– Absoluta!

– Positivo, então. – tiro a onça. – Vou colocar aqui na sua bolsa.

– Tudo bem.

Coloquei a carteira de volta na calça, os cinquenta em sua bolsa e voltei para a cama. Sentei ao seu lado. Enquanto a mão esquerda segurava o cigarro já na metade, a mão direita navegava pelos seus cabelos. Ela de olhos fechados, sentindo minhas carícias.

– Sabe que estou gostando muito desse nosso jogo? – com aquele sorriso angelical, que era um dos motivos de minhas mortes recentes.

– Eu também. É completamente diferente de qualquer coisa que eu já tenha vivido.

– Exatamente! – abriu os olhos. – É isso que torna mais interessante… E acho que era isso que você queria dizer naquela hora.

O silêncio reinou enquanto nos encarávamos. Era fato, a paixão já tinha tomado conta de nós. Só não sei especificar se era paixão pelo jogo ou pelo jogador, mas, naquele momento, isso pouco importava. Quando matamos o cigarro, começamos a matar a vontade que foi ressuscitada com mais vigor. E mais uma vez, me levou ao Paraíso, sem pudor algum.

Acordei no meio da madrugada com o barulho da porta do banheiro. Estava arrumada, com sua roupa de mulher, e pelo visto já iria embora. Olhei para o lado e não tinha bilhete. Voltei os olhos para ela, que agora me olhava da porta do quarto.

– Já vai? – pergunto com a voz sonolenta, me espreguiçando.

– Está na minha hora. – abriu a porta.

– Mas e o lance de sabermos algo e tal? – fico deitado de lado, com o cotovelo pousado na cama e a cabeça apoiada na palma da mão.

– É verdade… – fechou a porta e veio na direção da cama. – O que tem pra mim?

– Como assim? – pergunto sem entender.

– O que vai me dizer de ti? – sentou na beira da cama.

– Não sei. – me ajeito sentando no meio, de frente para ela.

– Me chamo Dominique. – diz estendendo a mão.

– Logan. – cumprimento-a.

Nesse momento, parecíamos duas crianças se conhecendo no primário.

– É sério? – perguntou fazendo cara engraçada, descrente.

– Já estou acostumado com esse tipo de reação. – sorrio sem jeito. – Ninguém nunca acredita que meu nome é Logan. Meu pai era muito fã do Wolverine.

– Aquele dos X-Men?

– Exatamente. – coço a cabeça, embaraçado. – E pode rir. Mas gosto do meu nome.

– É bem diferente. Então… Tem que gostar mesmo. – levanta. – Bom, meu querido Logan. – sorri. – Até a próxima. – e foi caminhando na direção da porta.

– Como tem tanta certeza que nos encontraremos de novo? – pergunto intrigado com sua certeza. – Podia deixar seu telefone. – aposto na sorte outra vez, ela podia ter voltado para mim na hora da despedida.

– Acredite no destino. – abre a porta e me olha. – No próximo encontro, quem sabe eu não lhe dê meu número. – pisca e vai embora.

E fiquei ali na cama feito criança abandonada. Brinquei mais uma vez e não quebrou. Será um bom sinal?

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