Ventura: 03 – Caçador (Parte 1)

Depois daquele dia, tudo que veio a seguir me fez pensar ter sido o último encontro, e que tinha desperdiçado a única chance de mudar o jogo a meu favor, poder fazer contato e tomar as rédeas do destino. Se tivesse insistido em ter seu telefone, poderia estar sendo eu quem determinava quando seria o próximo encontro, local, data e hora. Até por que, já não era novidade, mas sim vício! E dos bons! Estava completamente viciado, entregue, vulnerável e não havia como negar. Precisava que aquele brinquedo fosse definitivamente meu. Tinha de ser!

Durante um ano e meio me envolvi com outras pessoas, mas a cabeça sempre estava naquela Deusa. Os novos beijos não eram tão quentes, os toques não tinham a mesma vontade, os gemidos não eram tão prazerosos e a respiração não ofegava tanto quanto a dela, nem a minha era a mesma. Me sentia outra pessoa. Nesse momento já havia desistido de dizer a mim mesmo que não estava viciado, foi quando a realidade caiu de verdade. Precisava daquilo nem se fosse por uma nova última vez ou por apenas cinco minutos. Só mais uma dose, por favor! Será que existia algum D.A.? Dominique Anônimos, ou algo parecido? Se existe, é o que estava precisando naquele momento. Mas quem tinha o telefone? Até hoje, nem pensei em procurar no Google, o novo pai dos burros, na minha humilde opinião. Dicionário contente-se em ser, agora, o avô dos burros!

Quando estava próximo de completar dois anos, a reencontrei. Não era um daqueles dias que a gente sente louca vontade de ir para longe. Longe de tudo e de todos, atrás de novidade. Era uma daquelas minhas novas noites, que a esperança nunca morre e você vê a mesma pessoa em todos os rostos pelas ruas e avenidas, fissura sem igual. Sei lá. Mas aquele rosto do outro lado da rua, daquela mulher em um mesa de bar, soltando fumaça por sorriso sem outro igual e me encarando… Era ela! Definitivamente era ela! Sozinha com garrafa de cerveja e o copo pela metade. Seu cabelo estava pouco mais curto que o de costume, ela com blusa cor lilás escuro e saia preta, daquelas saias que começam no umbigo e terminam no meio das coxas… E que coxas, não? De longe não dava para ver os sapatos. Mas de que importaria saber se eram sapatos, chinelos, galochas ou botas de cano longo com esporas? Sapatos sempre são pertinentes só para as mulheres. O que me importava era que o destino acertou, outra vez, mesmo tendo demorado tanto… E põe ênfase nesse tanto! Então, mesmo assim, muito obrigado, destino.

Atravessei a rua, ainda desacreditado. Até por que, vai que estava começando a ficar louco o suficiente para ver miragens, como água no deserto? Como sorria para mim, e como aquele sorriso tinha me causado gostoso arrepio e suave calafrio… Tinha que ser ela, não podia ser outra. Só tive certeza absoluta quando cheguei bem próximo à mesa. Alívio!

– Boa noite, Logan. – diz, me encarando com aqueles olhos… Ah! Aqueles olhos!

– Boa noite, Dominique. – digo, com sorriso de orelha a orelha. Não dava para segurá-lo, nunca fui bom ator.

– Senta. – aponta para a cadeira à sua frente. – Fique à vontade, por favor.

Agia como se soubesse que nos encontraríamos ali, naquele dia, naquele horário, naquele instante… Naquele tudo! Impressionante! Nesse dia comecei a desconfiar que pudesse ser cigana, bruxa ou feiticeira. Sentei tentando esconder o quanto estava embasbacado e desacreditado. Dessa vez, foi ela quem acenou para o garçom e gesticulou que trouxesse outro copo.

– Como vai, você, Logan? – pergunta. E como adorei ouvi-la dizendo meu nome.

– Sinceramente… – sorrio involuntariamente junto de suspiro de alegria. – Melhor agora.

O garçom pôs o copo na mesa e saiu.

– E você, Dominique? – pergunto enquanto encho meu copo. Como era bom chamá-la pelo nome. Pelo menos isso, não?

– Estou bem.

E me deixou sem saudade daquele sorriso angelical, que já me matou várias vezes.

– Quanto tempo…

– Quase dois anos, não é? – pega o maço na mesa e me oferece cigarro. – Quer?

– Sim, e não. – sorrio pegando cigarro de meu maço. – Raramente me encontrará sem cigarro… E seu maço é branco. – acendo e ela me deixa matar outra saudade: a de vê-la paquerando a brasa do meu cigarro. – Sou mais chegado a filtro vermelho.

– Me esqueci desse detalhe.

– Só fumo branco quando estou sem e só tem gente com filtro branco por perto, mas é preciso fumar dois pra matar a vontade de fumar um vermelho.

– Entendi. Não disse que nos encontraríamos novamente? – agora era aquele sorriso malicioso que até então nunca tinha me impactado tanto quanto naquela noite. Devia ser por conta da enorme abstinência.

– Cheguei a pensar que não nos veríamos novamente… – assumo sem graça. – Admito.

– Compreendo. Tanto tempo se passou…

– Não ter conseguido seu telefone tem me destruído esse tempo todo. Mas hoje é o dia que terei seu telefone. – sorrio encarando-a. – Não é?

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