Ventura: 03 – Caçador (Parte 2)

– Então… – sorri de volta, ignorando meu verde. – Indo pra mais uma daquelas noites?

– Não. – olho em seus olhos. – Não tenho mais noites daquelas há tempos. – mato o copo em uma golada, cheio de sede. – E você? – encho nossos copos.

– Também não tenho mais noites como aquelas.

– Já tenho a novidade perfeita e não preciso mais procurá-la, só preciso conseguir seu telefone. – bang!

É… Eu sei. Maldita afobação! Mais uma das vezes que as palavras saem sem autorização da boca. Quando fui ver já era tarde para fincar os dentes e calar a boca, morder as palavras antes de formarem a frase. O silêncio reinou. Ficamos nos encarando calados. Não era nenhum dos olhares já trocados antes, era novo. Não sei se posso dizer que desconhecíamos até então, mas posso afirmar que eu desconhecia. Seus olhos não estavam tão otimistas, seguros e firmes como os de sempre. Parecia que eu tinha dito algo que a matou por dentro e quebrou suas defesas externas, pois era visível a mudança. Cheguei a pensar que, naquele exato momento, tinha acabado de jogar tudo para o alto e findado o nosso jogo… Game over, motherfucker! Temi que se eu não dissesse algo para mudar de assunto, ela iria levantar, pedir a conta e ir embora sem dizer adeus, sem olhar na minha cara.

– Desculpa. – digo, totalmente sem graça.

– Tudo bem. – diz sem jeito, olhava para o copo na mesa. – Não tem problema.

– Saiu sem querer. – não conseguia manter meus olhos nela, como sempre fazia. Olhava-a, e quando correspondia, eu desviava para a pequena poça que se fazia debaixo da garrafa.

– Relaxa. – com tom confortador.

Fiquei desconfortado mesmo, com a situação que eu trouxe à tona, sem querer. Até que de repente ela coloca a mão esquerda sobre a minha e aperta com suavidade:

– Isso não irá afetar em nada nosso jogo, fique tranquilo.

– Tem certeza? – ainda cabisbaixo e parecendo cachorro abandonado, criança que não quer tirar as rodinhas da bicicleta ou dormir com a luz apagada e a porta fechada.

– Não sei o que se passa contigo. – fez pausa. – Mas… – sorri. – Acho que é recíproco. – acaricia minha mão. – Então. Repito. Fique tranquilo.

Consegui manter meus olhos nela. Odeio achismo, mas aquele ali eu gamei! Agora era ela que estava sem graça. Aquilo me deu revigorada estupenda, e depois de um silêncio com mais daquela nova troca de olhares, agimos como se nada tivesse acontecido. Aos poucos tudo foi voltando ao normal e finalmente voltamos ao jogo.

– Pra você ver como não é um daqueles dias. – diz aos risos, olhando tudo em volta. – Eu sei bem onde estamos hoje.

– Ah, é?

Fiquei curioso, pois não era longe de onde eu morava e também sabia bem onde estávamos. Acendi um cigarro só para conferir se tudo realmente tinha voltado ao normal. E creio que sim, pois ela namorou a brasa. Viva!

– Sim. – olhou em volta outra vez. – Tem um motel pra lá. – disse apontando na direção do meu ombro direito e com aquele sorriso malicioso no rosto.

Conhecia o motel. Inclusive, já conhecia pelo nome a maioria dos funcionários de todos os turnos. Já até sai com uma das atendentes… Mas não vem ao caso.

– Então hoje não estamos mais na mão do destino? – brinco.

– E quem disse que não? – morde o lábio inferior.

Fiquei em silêncio encarando-a.

– Mora por aqui? – arrisco.

Agora sim, tive certeza que tudo havia voltado ao normal. Não me respondeu… Foi daquele jeito que vira-mexe fazia quando lhe perguntava algo. Ficava calada me olhando e eu preferia esquecer a pergunta que tinha feito. Lembra? Não foi nem um pouco diferente. Ficamos em silêncio, sorrindo e se encarando. Mas algo me fez insistir na pergunta, precisava matar aquele gato, ainda tinha algumas vidas para gastar.

– Me diz… Mora por aqui?

Se morasse, seria fácil investigar e em alguns dias descobrir onde era. Mas ela me solta sorriso maroto e continua sem responder. Dou-me por vencido. Tudo bem, eu me rendo, mulher!

– Por que não vamos logo para o Motel? – ela é bem direta.

– Só se for agora!

Pago a conta e na volta, não me deu a mão como na última vez, mas laçou meu braço direito com seus braços e pousou a cabeça em meu ombro. Dessa vez vi bem quando a beijei na testa, mesmo estando com os olhos fechados na hora. Já não me importava demonstrar o quanto estava apaixonado, quase fazendo gráfico do quanto aumentava e aumentava de acordo com os encontros, as trocas de olhares e os nossos eteceteras. Paixão aos pacotes, vendidos e endereçados em seu nome, e meu coração estava sobrecarregado de trabalho, quase chegando na hora de começar a vender amor… Só para ela, a única matriz, sem filial!

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