Ventura: 03 – Caçador (Parte 3)

Não corremos, fomos caminhando calmamente rumo ao nosso fim de noite. Parecíamos casal de namorados andando pela rua. Percebi que, em nenhum de nossos encontros, nunca havia reparado o quanto a noite sempre parecia bela, o céu estrelado e a lua linda. Às vezes, gostavam de contemplar, como holofotes, o ar da graça de uma Deusa na Terra. Assim como eu sabia, a lua e as estrelas deviam saber que era difícil ver uma dessas por aí, andando meio distraída com um molambo mal vestido feito eu – mesmo sendo normal em histórias da mitologia grega –. Ou, quem sabe, a lua e as estrelas se mordiam de inveja. Chegamos ao motel. Percebi que achou estranho, ao mesmo tempo engraçado, quando o recepcionista simpaticamente chamou-me pelo nome antes de pegar nossos documentos. Pegou mal, mas nem me importei com a gafe. E Dominique só foi matar seu gato quando entramos no quarto: – O recepcionista é amigo seu? –Não. – sorri imaginando o que passava pela sua cabeça. – É que… – jogo a isca, pensativo. – Digamos que já vim algumas vezes. – e não consigo pescar palavras melhores. – Ah, então tem carteira VIP? – brinca aos risos. – Sim e ao mesmo tempo não. – fecho a porta. Segurou firme na gola da minha camisa com as duas mãos e me puxou com força ao seu encontro. Foi tão bom matar a saudade do beijo mais quente que já senti na vida. O único que era capaz de, ao mesmo tempo em que tirava o ar, o dava de volta para mim. Como se eu respirasse o ar que ela soltava e em seguida ela o tomava de volta. Nessa bela sincronia, entre beijos, mordiscadas e “pegadas”, fomos despindo-nos da cabeça aos pés e esbarrando em tudo que havia no caminho até a cama. Pobres obstáculos. Nunca iriam nos parar! Matei a saudade e a vontade. Juro que é a última vez que digo que novamente me proporcionou o melhor sexo da minha vida! Sei que está começando a perder a graça e que não preciso mais repetir, até por que, já estava deixando de ser sexo… Para mim, já estava começando a virar amor. Fazer amor… Fizemos amor… E faremos outro, depois desse. Amém! Sentados nus na cama, naquela nossa pausa de descanso e tabagismo, eu com meu filtro vermelho e ela com seu filtro branco, resolvi não adiar mais: – Me diz logo seu telefone, vai. – Mas já? – Antes que o próximo encontro dure mais dois anos. – quase demonstrando meu desespero. Silêncio. Levantou lentamente da cama, me olhando com olhar tentador. – Vamos deixar o telefone para um futuro próximo… Ainda há outras coisas a serem ditas antes. – sorri mordiscando o lábio inferior. – Se lhe der meu telefone agora, pode estragar toda a brincadeira. Não queria insistir. Se insistisse, deixaria bem claro o tamanho que era o meu medo de não vê-la novamente, o que não deixava de ser absoluta verdade. Meu vício, minha Deusa, Dama de minhas Copas, novidade mais quente! – O que tem pra mim hoje? – pergunto. Começou a dançar sensualmente na frente da cama, me deixando todo embasbacado, salivando de desejo, olhando fixamente seus movimentos, deslizando as mãos lentamente por aquele maravilhoso corpo nu. Vai Deusa, não para. Não para! – Tenho vinte e quatro anos. – sorri. – E você? – Vinte e seis. – respondo de imediato, hipnotizado, mas pensando: “Ah, mas que porra. Por que logo a idade? Isso é injusto!”. Mas já estava tão envolvido naquela dança que não consegui revogar meus direitos. Direitos! Talvez fosse essa a intenção da dança: me distrair para aceitar qualquer coisa, qualquer migalha. Virou-se de costa para mim, apoiou as mãos no joelho e começou a mexer o quadril sensualmente, desenhando o número oito no ar. Minha cabeça seguia os movimentos daquele bumbum volumoso, duro-macio e assassino! Jogou os cabelos para as costas e ficou me encarando com olhar convidativo. Não aguentei. Bem que queria aguentar mais. Avancei como caçador e colei-me nas suas costas.

Anúncios