Ventura: 04 – Zebra (Parte 1)

No dia seguinte já estava preparado para vê-la novamente só depois de dois anos ou mais. Cheguei a pensar em procurá-la nas redes sociais que eu fazia parte, ou até jogar seu nome no Google, mas não fazia o perfil de quem se ligava ao mundo virtual. Fora que, sem um sobrenome, quantas Dominique de vinte e quatro anos eu encontraria? Não me restava nada além de esperar o próximo encontro. As rédeas ainda eram todas do pregador de peças, destino, que dá doce quando quer e tira antes de você terminar.

As semanas foram passando e já não a procurava. Sabia que hora ou outra iríamos nos encontrar, principalmente depois da última. Assim como não tinha mais daquelas noites de sair em busca de novidade, também não tinha mais daquelas noites de sair em busca daquela novidade perfeita. Só o que era inevitável controlar: saudade, vontade, os sonhos e os flashes dos três encontros. Em uma de minhas madrugadas de insônia, cheguei a criar um blog como autor anônimo, sempre acompanhado por uma garrafa de Jack Daniel’s, um maço de Marlboro vermelho e uma playlist variada de músicas que me deixam… Melancólico. Assumo. No blog eu falava dela, como me deixava, sobre o que eu sentia, e os nossos encontros, sem me aprofundar no assunto, mas vira-mexe fantasiando um novo, que na verdade era como gostaria que fosse o próximo. Não a chamava pelo nome, apenas por Nick… Pois assim pareceria apelido carinhoso comum para alguém de nome Nicole.

Certo dia até recebi comentário em um dos posts. Alguém dizendo ser ela e que também sentia extrema saudade. Meu coração disparou quando deixou e-mail no comentário, pedindo para entrar em contato. Rapidamente abri minha caixa de e-mails e logo mandei um: “Por favor, me mande seu número, preciso vê-la novamente, ou me liga, pode ser a cobrar, mas liga”. E deixei meu número. Bom… Sabe como o álcool nos deixa… Bastante sinceros, não é? Em demasias até.

Assim que respondeu o e-mail com número de seu celular, liguei. Era sábado, por volta das nove horas da noite. Infelizmente era alguém querendo ser ela. Aquela voz não era a que eu já estava viciado em ouvir nos encontros e nos sussurros. Não teria como ser tão diferente pelo celular, por mais que a de muitas pessoas mude bastante. Foi aí que decidi parar de atualizar o blog e comecei a escrever em um caderno, só para mim e mais ninguém. Quem sabe um dia, se nós resolvêssemos ficar juntos, eu… Bom… Olha só o que a paixão faz… Fascinante!

Quase um ano depois do nosso último encontro, encontrei-a solitária passeando no Shopping à noite, parando vez ou outra na frente de alguma loja de roupas ou de sapatos ou de bolsas. Eu estava saindo do banheiro quando a vi passar distraída e imensamente linda. Não acreditava muito bem no que estava vendo. Era inverno, ela estava radiante: casaco de lã e gola alta cor azul marinho, as mangas puxadas até os cotovelos; seus cabelos estavam mais longos, metade saindo debaixo de um gorro também de lã e da mesma cor do casaco; vestia calça jeans bem justa; botas marrons de cano longo; e uma bolsa de tiracolo. Fui seguindo-a de “não muito longe nem muito perto”. De repente quando parou na frente de outra loja, pelo reflexo da vitrine percebi que me olhava sorrindo. Droga! Fui descoberto. Ainda bem que nunca pensei em seguir carreira de Detetive, não me daria bem em nenhum caso.

– Boa noite, Logan. – diz sorrindo.

– Boa noite, Dominique. – me aproximei, encarando-a pelo mesmo.

Ainda pelo reflexo na vitrina, agora mais nítido, ela me olha lentamente dos pés à cabeça e se vira, ficando de frente para mim:

– Você está lindo! – olhava para os meus lábios.

Lindo? Foi a primeira vez que a ouvi dizer aquilo. Cheguei a tremer e não foi de frio. Não estava vestindo nada de mais ou diferente do que sempre usei. Lembro que nesse dia vestia… Acho que: camisa vermelha por baixo de um confortável Giorgio Armani marrom; calça Skinny de cor azul marinho; e um tênis Nike SB de cano longo, que não saía do meu pé. Adorava aquele tênis, assim como os dois alargadores de 10 mm que só tiro para lavar, nunca troco por novos. Preguiça, talvez nem questão de vaidade ou por serem belos. Quanto ao cabelo, desde os meus dezenove anos que não mudo o corte estilo couve-flor. A barba deixo sempre na máquina um e não é para aparentar mais idade, mas por gostar mesmo. Certa vez fiz pesquisa na internet e descobri que a maioria das mulheres interessantes tem queda por barba cerrada e que há uma página no Facebook chamada: “Faça amor, não faça a barba”.

– Olha quem fala. – olhei-a da cabeça aos pés. – Está cada vez mais maravilhosa. Como consegue essa proeza?

Abraçou-me forte pousando a cabeça no meu peito, com os olhos fechados:

– Você é um amor.

Fiquei estático, sem dizer nada. As palavras se escondiam debaixo da língua. Não vamos sair daqui! Meus braços automaticamente a laçaram e meus se fixaram nela, ali em meus braços, pelo reflexo na vitrine. Alguém pode tirar uma foto, por favor? Afastou-se e segurou em minha mão esquerda com a sua direita. Foi a primeira vez que a vi de forma doce e meiga. Acho que aquela história de que meu coração iria começar a endereçar pacotes de amor no seu nome, já estava acontecendo naquele momento. Sentia-me como se tivesse voltado à adolescência e na minha frente estava a primeira paixão, primeira namorada, a futura mãe dos meus cinco filhos. Parecia que era de porcelana, e a segurava com delicadeza, como se realmente fosse.

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