Ventura: 04 – Zebra (Parte 2)

– O que faremos hoje? – pergunta.

– Não sei. – olhei para um lado e para o outro procurando alguma dica.

– O que veio fazer no Shopping?

– Tive um dia tedioso… – bufo ao relembrar dos problemas que me levaram até ali. – Aí vim dar uma caminhada, passar na livraria para ver se encontro algo interessante para ler e comer alguma coisa antes de ir pra casa.

– Mora ou trabalha aqui perto?

– Na verdade nenhum dos dois. – começamos a caminhar de mãos dadas. – E você?

– Vim fazer compras. – fez pausa. – Mas até agora não vi nada que realmente me interesse. – não tirava os olhos das vitrines.

– Sério? – fiquei espantado e surpreso ao ouvir “não vi nada que realmente me interesse”.

– Sim… – olhou-me com as sobrancelhas arcadas. – Por que essa cara de surpreso?

– Pelo que sei sobre as mulheres, quando elas vêm ao Shopping para fazer compras, tudo que veem pela frente querem comprar.

E tive que ficar sem graça ao ver a cara que fez, como se eu tivesse falado algo absurdo. Mas vai dizer que a maioria não é assim?

– Que absurdo! – diz com tom sério. – Eu não sou assim.

Não falei?

– Desculpa, não quis ofender.

– Tudo bem. Não ofendeu. – sorri amistosa me trazendo alívio. – Não suporto gente que sai comprando tudo que vê pela frente, sem saber se vai ou não usar ou se realmente precisa. Por isso demoro a escolher. Não quero algo que chegando em casa vou deixar de lado ou usar só uma vez.

– Eu também sou assim.

– Que bom. Mas e aí? Pra onde iremos?

– Estava pensando aqui em pegarmos um cinema, depois jantarmos em um restaurante que tem no quarto piso e ter aquele fim de noite maravilhoso. – olhei-a. – E aí?

– Ótimo! – sorri apertando minha mão.

Fomos para a parte do cinema que havia no Shopping. Dominique escolheu um Romance que estava em cartaz e começaria às nove e meia. Como ainda eram oito e quarenta, sugeri dar uma passada na área de jogos para passarmos o tempo. Fiquei impressionado quando se empolgou mais do que eu com a ideia. Segurou minha mão e saiu correndo me puxando. Realmente estávamos feito dois adolescentes naquela noite. Eu com dezesseis e ela com quatorze… Ou um pouco mais. Não faz diferença, faz?

Só no fim de nossa jogatina que fui descobrir o motivo de sua empolgação. Deu-me uma lavada de cinco a um no Aero Hockey, gastou menos Continue do que eu no Cadillacs And Dinosaurs (e olha que joguei com o Mustapha-apelão e ela com a Hanna-bate-em-ninguém) e ganhou a Zebra na primeira tentativa na máquina grua de pegar bicho de pelúcia, depois de eu ter falhado seis vezes tentando pegar o maldito bicho Panda. Tem ideia do quanto isso é frustrante para quem passou boa parte da infância perturbando os pais a fim de liberarem verba para ir à parte de jogos sempre que estavam no Shopping? Não é nem questão de machismo, mas sim de quem teve boa parte da infância jogando Cadillacs And Dinosaurs, não só no Shopping, mas nos fliperamas perto de casa, perto da escola… Se você sabe bem como é, sabe o que passei e a cara que fiquei depois daquela surra.

– Você é boa com jogos. – assumo perplexo.

– Que nada. – me abraça forte. – Só está falando isso pra me agradar, seu bobo.

– Não! Juro que é verdade. – e começo a enumerar nos dedos: – Cinco a zero no joguinho de disco ali… – aponto para a máquina de Aero Hockey. – Gastei três Continues no Cadillac, jogando com o Mustapha-apelão da porra… – enfatizo o personagem. – E você gastou um com a mulher que mais apanha no jogo… – respiro fundo e continuo: – Tentei pegar o bicho Panda seis vezes na garra. – aponto para a mesma. – E você pegou a Zebra na primeira tentativa! – levo as mãos à cabeça. – Como isso? Como pode uma coisa dessas, mulher? Você é muito viciada!

Antes de terminar de falar, ela já estava em gargalhadas.

– Me diz… Como consegue? – brinco entre trejeitos.

– Para de besteira. – me abraça forte. – Você que é um lindo! Me deixou ganhar e agora está fazendo cena pra eu me sentir A jogadora.

– Não! Eu juro! Não sou tão romântico a esse ponto… Principalmente quando se trata de jogos. Tanto é que ainda estou perplexo com você ter conseguido jogar tão bem com a Hanna. – essa parte falei bem “sério”.

– Sério? – arqueou as sobrancelhas.

– É a pessoa mais viciada que já conheci na face de toda a terra que pisei! – brinco aos risos.

E cai em gargalhadas de novo. Laçou meu braço direito com o esquerdo e não desgrudou da Zebra no braço.

– Obrigado pela Zebra. – me dá beijo na bochecha. – Vamos logo para o cinema, já são nove e dez.

Compramos pipocas, dois copões de refrigerante e fomos para a sala onde passaria o filme. Sentamos na última fileira, nas duas cadeiras do meio. As luzes já estavam apagadas e passava o informativo pedindo para desligarem os celulares e todo aquele blábláblá.

Era um daqueles filmes que até o cara mais frio e insensível do mundo deixaria escapar uma lágrima pelo canto do olho e não teria como dizer que foi um cisco ou algo do tipo, pois todos os caras insensíveis que estivessem naquela sala, estariam com o mesmo cisco no olho, então… Impossível! Quando o filme acabou, ela chorava de soluçar agarrada no meu braço esquerdo, com a Zebra no colo, e lamentava:

– Ele não tinha que morrer, eles se amavam tanto! – dizia dando fungadas de nariz. – Não gostei desse final! Esse filme é muito chato!

Parecia até eu quando criança chorando pela morte do Mufasa no filme O Rei Leão. E, sinceramente? Se eu fosse dizer algo, diria: “– Concordo plenamente!”. Preferi ficar calado, limpar seus olhos cheios de lágrimas e consolá-la. Incrível como ela estava sensível naquele dia. Todo mundo já tinha saído da sala e lá estávamos nós dois, do mesmo jeito desde que o filme terminou. Não parava de chorar e eu cada vez mais sem saber o que fazer ou dizer, até que um dos funcionários do cinema, vulgo “lanterninha”, veio e pediu para que saíssemos, pois já abririam as portas para a próxima sessão. Só para você ter ideia do quanto demoramos a sair daquela sala.

Foi correndo até o banheiro, abraçada a Zebra, enquanto fiquei plantado lá fora esperando, completamente comovido com sua reação. Dava para ouvir seus soluços diminuindo aos poucos. As pessoas que passavam pela porta do banheiro, olhavam assustadas e em seguida na minha direção, me fazendo ficar com tremenda cara de babaca sem reação. Alguns olhavam com expressão que me passava a mensagem de: “Por que você terminou com ela, seu monstro?” ou “Por que você a traiu? Seu insensível!”. Foda isso. Foda ruim!

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