Ventura: 04 – Zebra (Parte 3)

Fiquei impressionado com sua sensibilidade naquele dia, e, admito que assustado também. Quando saiu do banheiro, estava sem maquiagem, com a cara avermelhada e os olhos cansados de tanto chorar. Deu-me até dó vê-la naquele estado. Abraçou-me forte e não dissemos nada, só um suspiro mútuo de alívio. Meio que a ficha caiu: “Acabou, foi só o diabo de um filme muito tocante!”.

– Vamos jantar logo. – diz após pigarrear.

Para mim, iria querer ir embora, mas realmente aquela mulher não era nem de perto parecida com todos os tipos de mulheres que já conheci e me envolvi. Não sou nenhum Martinho da Vila, mas já tive mulheres…

Fomos ao quarto piso. Era um restaurante com ambiente ao estilo Francês – tenho certa fissura por tudo que carrega a bandeira francesa e não sei qual é a raiz desse problema –, com fotos, quadros e etc. Entramos e notei seus olhos curiosos percorrendo todo o local, igual criança em museu de artes.

– É um Restaurante Francês? – pergunta olhando para o enorme quadro da Torre Eiffel que tinha na parede da mesa que o garçom escolheu para sentarmos.

Oui, chérie. – diz o garçom simpático forçando ter sotaque francês falando português e com cara de mexicano-australiano-nordestino. – O que vão ‘querrer’, oui?

– Assim que escolhermos lhe chamo novamente.

Ficou olhando-o se afastando e assim que sumiu da vista, curvou-se na minha direção sobre a mesa:

– De que ele me chamou? – pergunta curiosa com as sobrancelhas erguidas.

– “Sim, querida”. – digo achando graça. – Escolhe o que iremos comer.

Conseguia ver seus olhos por cima do cardápio aberto à sua frente, de cabeça para baixo. Aos poucos foi franzindo a testa cada vez mais, com semblante de quem não estava entendendo patavinas do que estava vendo.

– Logan… – me olha com expressão entediada. – Tem um monte de nome estranho aqui. – volta os olhos para o cardápio. – Como vou saber o que é de comer ou não? Isso é Japonês ou Francês? Não gosto de peixe cru! – faz cara desconfiada. – Vai que eu peço rato achando que é galinha? No Japão eles vendem baratas no espetinho, sabia?

– Me esqueci desse detalhe. – com muita luta consegui segurar o riso. – Desculpa. – peguei o outro cardápio que estava na mesa.

Fechou o que estava em sua posse e o colocou sobre a mesa. Cruzou os braços. Bufou. Olhava para um lado e para o outro e a mesa começou a dar leves tremidas conforme seus joelhos a tocavam pelo bater de pés inquietos no chão. Olhei-a por cima do cardápio e confirmei o seu tédio.

– Não gostou daqui? – pergunto fechando o cardápio.

– Ah… – outra bufada. – É muito chique pra mim, Logan. – apoiou os cotovelos na mesa. – Prefiro ir pra um sujinho da vida, beber uma cervejinha brasileira e comer bastante fritura brasileira. – ri. – Faz mais a minha cara, sabe? – olha em volta. – Aqui não pode nem fumar… – curvou-se em minha direção. – E eu já estou ficando nervosa com tanta frescura. – sussurrou.

Nesse momento fiquei me perguntando onde estava àquela sensibilidade toda que vi minutos atrás, após o fim do filme.

– Tudo bem. – levanto. – Vamos pro sujinho que tem aqui na calçada do Shopping. É até bom por ser perto do ponto.

– Agora está falando a minha língua. – sorri e estica os braços para o ar, vibrando.

Saímos dali direto para o bar na esquina do Shopping. Sentamos em uma das mesas na calçada e ela colocou a Zebra em cima da cadeira ao nosso lado. Quando o garçom se aproximou, pedimos cerveja, dois copos e uma porção de frango a passarinho.

– Bem melhor não? – sorri feliz da vida, acendendo seu cigarro.

Apenas sorrio de volta. O garçom trouxe a cerveja, colocou os dois copos e a camisinha na mesa. Encheu-os e encaixou a garrafa.

– Falta o copo da minha querida amiga Zebra aqui. – diz apontando para o bicho com uma expressão tão séria que até eu acreditei que o bicho de pelúcia fosse beber.

– É sério? – pergunta o garçom depois de longos segundos conferindo se era realmente uma Zebra de pelúcia a quem Dominique se referia.

– Nossa! – correu com as mãos para a cabeça do bicho. – Não dê ouvidos a esse garçom insensível, querida Zebrinha. – volta os olhos para o garçom, faz cara feia. – Pode fazer esse favor ou está difícil? Se for rápido eu agradeço, se demorar eu espero!

– Me perdoe… Tudo bem. – diz o garçom saindo assustado.

Assim que saiu, ela olhou-me e caiu nas gargalhadas. Não sei se pela cara de assustado que eu fazia ou se pela situação que acabara de criar.

– O que foi Logan? – e não parava de rir.

– Você é muito doida, mulher! – foi a minha vez de rir.

O garçom voltou correndo com um copo e colocou na mesa, tratando logo de enchê-lo. Saiu com expressão de medo olhando para Dominique. Devia estar pensando: “Essa louca acabou de fugir do hospício”. Peguei meu copo, ela o dela e o da Zebra, e erguemos no ar, batendo um no outro de leve:

– Um brinde a essa noite maravilhosa que estamos tendo. – diz. – E a nossa querida amiga Zebrinha!

– Exatamente! – acompanho.

– Logan… – dá forte tragada no cigarro, olhando para a brasa. – Me fala um pouco mais sobre você. – e joga a fumaça na minha direção.

– Como assim? – pergunto circulando o copo na pequena poça d’água que tinha feito com o suor do copo na mesa.

– Sei lá. – dizia entre trejeitos: – O que você faz da vida… Se você tem filhos… Se você é casado… Essas coisas.

Pela primeira vez foi a minha hora de ficar em silêncio olhando-a, só não sabia fazer daquele seu jeito. Queria ter certeza se era realmente o que tinha acabado de ouvir. Será que queria findar nosso jogo? Será que se contasse pouco sobre mim, me diria sobre ela? Será que hoje conseguiria seu telefone? Finalmente as rédeas do destino seriam minhas? Aposto ou não na sorte?

– E aí? – insiste.

– Estou pensando…

– E o que o senhor está pensando?

– Se também vai me contar sobre você. – digo encarando-a após acender um cigarro e colocar o maço em cima da mesa.

– Quem sabe? – sorri misteriosa. – Não faça nada esperando reciprocidade, faça apenas o que te deixe tranquilo.

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