Ventura: 04 – Zebra (Parte 4)

Ficamos em silêncio por mais um momento, naquela conversa de olhares que adorávamos. Só findou na hora que pediu outra cerveja. Assim que o garçom encheu os copos e saiu:

– Como já sabe, meu nome é Logan… Faço vinte e sete em Setembro…

– Virginiano?

– Sim.

– Continua, está ficando interessante.

– Meus pais morreram num acidente de carro, quando eu tinha treze anos… Fui criado pela minha tia madrinha até os dezoito, quando passei a morar sozinho.

– Nossa! – arregala os olhos. – Eu sinto muito.

– Tudo bem. – sorri a fim de confortá-la ao assunto. – Já superei isso faz tempo.

– E trabalha com o quê? Fez ou faz faculdade?

– Não fiz faculdade e sou escritor de fracassos. – sempre faço piada de mim mesmo, é automático.

– Escritor de fracassos? – franziu a testa.

– Digamos que quase ninguém compra meus livros, mas dá para sobreviver com as vendas.

– Ah, não fala isso. – cruza os braços sobre a mesa.

– Já leu algum de meus livros? – olhei-a nos olhos.

– Não sou muito chegada em leitura.

– Entendi.

– Casado? Tem filhos?

– Nenhum dos dois. Agora me fala de você. – aposto. – É a sua vez.

Tentou escapar daquele jeito que até aquele dia me fazia ceder e esquecer a pergunta, mas estava decidido a colher aquelas informações. Precisava delas! Afinal de contas, falei sobre mim e precisava sim de reciprocidade quanto a isso. Que mal tem? Não foi muita coisa, mas foi mais do que nos últimos encontros. Poderia me dizer a metade, já me deixaria satisfeito.

– Me conta. – cruzo os braços sobre a mesa e curvo na sua direção, olhando-a nos olhos. – O que faz da vida? Tem filhos? É casada? Mora com os pais? Fez ou faz faculdade? Trabalha com o quê?

Calada com a cabeça baixa, me olhando com um olhar quase quarenta e três… Vinte um e meio, podemos dizer. Quando ia insistir na pergunta, ela começou a falar, imitando meu jeito.

– Como já sabe, meu nome é Dominique. – sorri. – Fiz vinte e quatro anos agora em Abril. – passa uma das mãos nos cabelos, ajeitando-os para trás. – Nasci em Osório, no Rio Grande do Sul e vim para o Rio com dezoito anos, tentar ganhar a vida e… – parou repentinamente.

– O que houve? – pergunto ansioso e preocupado ao notar seu semblante mudar da água para o vinho.

– Nada. – diz cabisbaixa olhando para o copo na mesa.

Preferi não insistir. Sabia que algo sobre ser do Sul e ter vindo para o Rio tentar ganhar a vida, não fazia bem. Tinha algo errado ali entre os dois, ou no depois, mas resolvi mudar de assunto:

– Água parada dá dengue, sabia? – brinco apontado para o seu copo.

Olhou-me. Olhou para o copo, depois para a Zebra. Por fim, olhou para mim novamente e soltou sorriso forçado:

– Verdade. – mata o copo em uma golada só e o enche novamente.

Ficou aquele clima chato. Não me olhava nos olhos, não dizia nada e eu também não sabia o que dizer. Era quase como o mesmo clima chato que caiu sobre nós quando disse que já tinha a novidade perfeita. Lembra? Agora era três vezes pior. Tirei a garrafa vazia da camisinha e pedi outra ao garçom. Assim que chegou, eu mesmo fiz questão de encher nossos copos, para despachá-lo logo.

Passou as mãos lentamente pelo rosto, acendeu outro cigarro, deixando bem claro seu nervosismo, e se ajeitou na cadeira. Seus olhos entristecidos colaram nos meus olhos curiosos, mas que sabiam que aquela curiosidade não poderia ser morta. Não agora, muito menos hoje. Vamos economizar essa vida do pobre gato.

– Acho que vou embora. – anuncia.

Fiquei completamente sem reação. Não esperava ouvir aquilo. A noite ainda não tinha terminado. “Como assim? Não pode ir embora agora. O que houve? Ficou muito estranha do nada.” foi o que quase disse. Na verdade era o que queria ou deveria ter dito, mas sabia que seria tremendo estúpido, visto como estava o clima ali e a sua expressão. Ou conseguia torná-lo em um clima suave novamente ou ela partiria. Pense rápido, Logan!

– Aconteceu alguma coisa?

Não respondeu nada, apenas desviou o olhar, que agora estavam fixos na fila que se fazia no ponto de ônibus.

– Se quiser conversar, estou aqui pra te ouvir.

– Não é nada. – diz com um tom frio.

De repente começou a tocar dentro do bar “Bed of Roses”. Só aí reparei que havia Jukebox lá nos fundos.

Bon Jovi! Faz tempo que não ouço.

Olhou para dentro do bar, na direção da máquina:

– Vai colocar música?

Não sei o que estava havendo. Não me olhava e aquilo me torturava.

– Quer que coloque?

– Queria escolher uma, mas não sei se tem.

– Fale qual vai querer. – dou uma golada e me levanto. – Se tiver, eu coloco.

– “Folhetim”.

– Boa!

Puxei a carteira e fui até a Jukebox. Coloquei uma nota de dois e comecei a minha busca pela música desejada. Acabei encontrando-a em um CD de clássicos da MPB, mas, cantada por uma artista que eu desconhecia até então. Com muita dificuldade escolhi as três que queria, peguei outra cerveja no balcão e voltei na direção da mesa. Mas para minha surpresa e decepção, Dominique não estava lá. Só encontrei um bilhete debaixo da Zebra de pelúcia.

“Desculpe-me. Acho que o nosso jogo acabou!”

Pois é… Deu Zebra!

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