Ventura: 05 – Volta (Parte 1)

Sinceramente? Nos primeiros meses depois daquele último encontro, foi uma tortura sem igual. Não sabia se tinha dito ou feito algo de errado, de mau gosto, ou que ela não tinha apreciado. E aquela maldita Zebra de pelúcia não me ajudava em nada! Não consegui abandoná-la lá no bar como Dominique fez. Tive que trazê-la para morar comigo, mesmo querendo ter trago a Deusa ao em vez da porra do bicho. Também não queria arriscar em ser o primeiro a deixar uma Zebra de pelúcia ficar desabrigada, na rua, sem teto, órfã. Poderíamos começar a nos dar bem… Um dia.

Foram madrugadas e madrugadas pensando e repensando. Não dava para simplesmente se conformar em não saber o motivo. Quem consegue essa proeza no estado em que me encontrava? Tudo bem que realmente seria melhor do que saber que dei motivo ou algo parecido, mas… Não! Não podia ser o último encontro, e o jogo não podia acabar daquela maneira. Queria ao menos um Continue ao em vez de ir direto ao Game Over, e poderia muito bem ter sido o dia em que ela me daria o telefone, colocando em minhas mãos as rédeas do destino. Logo agora que estava ficando cada vez melhor e tão próximo de… Bom… Entendeu?

Até hoje, relembrando meu estado, parece que foi ontem que voltei para a mesa e encontrei aquele bilhete debaixo da bunda da Zebra beberrona. Fiquei bebendo com um bicho de pelúcia, até tocar a última música que escolhi. Mas não prestei atenção nelas.

Foi difícil retomar a vida sabendo que agora, mais do que nunca, poderia não vê-la novamente. Minha Deusa, meu vício, melhor sexo, melhor beijo, melhor jeito, melhor sussurro… Melhor companhia! Sabia que agora só a encontraria se a visse antes que me percebesse. Teria que contar com sua distração caso o destino nos colocasse dobrando lados opostos de encontro à mesma esquina, atravessando a mesma rua, pegando o mesmo ônibus, pois, se me visse antes de percebê-la, com certeza fugiria, se esconderia, sumiria da vista, pegaria a primeira condução que viesse… Saco! Estava perdido.

Três anos depois, lá estava eu lançando um livro baseado no pouco que vivemos, mas com final feliz, independente dos altos e altos do durante, sem os baixos do fim. Não a ponto de ser baseado em fatos reais, só incrementei as partes que mais gostei em algumas das situações dos dois personagens e mais nada. Tudo bem que minha personagem principal tinha descrição idêntica à de Dominique, mas só eu e o meu assessor sabíamos disso. Lembra quando parei com o blog e comecei a escrever só para a minha humilde pessoa? E as vezes que escrevia fantasiando como queria que fosse o próximo encontro? Então, acabou se transformando nesse novo livro. Não era bem nós, mas no romance eu me chamava Pierre e ela Marie, a história acontecia em Paris, por volta dos anos oitenta. Meu personagem principal era um jovem jornalista que estava começando a carreira no pequeno jornal da cidade, e minha personagem principal, uma jovem garota de programa. Só que não foi ela quem lhe contou sobre esse pequeno detalhe… Pierre, coitado, descobriu sozinho, em uma noite que foi, sem querer, com seus amigos na boate onde Marie trabalhava. Naquela noite o mundo caiu para os dois, pois ele nunca imaginava que um dia se apaixonaria por uma garota de programa, e ela nunca imaginava que ele fosse descobrir seu verdadeiro trabalho, que até então dizia ser de enfermeira para justificar seu “plantão”. Pior foi quando um de seus amigos contratou os seus “serviços”. Enfim… Não vou contar sobre o livro, pois vai perder a graça. Certo? Juro que mesmo assim teve final feliz e está até meio escrachado na sinopse, não me importo. Certo dia vi uma matéria com um escritor renomado, e em parte dela, dizia que a maioria de seus leitores preferem seus livros que tem o tal bem bolado final feliz, independente da trajetória que se sucedeu até ele. Como meu primeiro termina com mortes e o segundo realmente não teria como ter mortes, pois mais parece um livro de relatos sobre a experiência de se tornar responsável por si mesmo, não teria graça se o terceiro tivesse final triste. Poderia até parecer que sou fissurado por finais infelizes, mortes, e um escritor totalmente depressivo que não está satisfeito em ver seus personagens respirando por muito tempo, sendo mais felizes que ele. Conheço muito escritor que assume amar matar os personagens que criou, os faz sentir na pele o que é ser Deus. Já eu, ainda não cheguei a esse ponto, nem faço o tipo de “escritor-serial-killer”. Por mim eu os colocava em uma máquina que os transformassem em pessoas reais, e os que morreram, daria um jeito de trazê-los de volta à vida e depois, em pessoas reais.

O lançamento foi na livraria do primeiro andar daquele Shopping que a encontrei pela última vez. Meu romance estava com moral boa e teve ótima divulgação, graças ao meu magistral assessor. E lá estava eu sentado em uma cadeira atrás de uma mesa, com caneta na mão direita, estojo com algumas reservas e uma enorme fila de pessoas com meu livro nos braços, querendo autógrafo. Não sei se tinha finalmente escrito grande sucesso ou se eram méritos da Editora de médio-grande-porte, ou do meu assessor, com toda aquela divulgação. Será que era um bando de gente comprando o livro pela capa? Não importa. O que importa é que estava entrando grana e quem realmente lesse, leria um bom romance baseado na meia-verdade que vivi com minha Dama de Copas, mas não saberiam disso. Legal, não? Não teriam como ter ideia que boa parte daquele livro, realmente aconteceu, não em Paris, mas aqui no Rio de Janeiro mesmo. E os personagens andavam bem vivos por aí e sem final feliz. Com um final infeliz ou pausa torturante! Final trágico, para mim, com certeza, pois era o personagem vivo que andava cabisbaixo desde o fim da relação. Acho que é por isso que prefiro os finais infelizes… Não fogem da realidade.

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