Ventura: 05 – Volta (Parte 2)

Não olhava para a cara de quem colocava o livro aberto em minha mesa para que eu autografasse. Andava vendo minha Deusa em qualquer rosto feminino que me lançasse sorriso. Colocavam dizendo o nome e eu autografava com pressa, automático feito robô ligado ao gerador de energia mais potente. Frio da minha parte, eu sei, mas não via a hora de ver aquilo findar, para que pudesse ir a minha casa comemorar sozinho com as duas garrafas de Jack Daniel’s que estavam me esperando completamente nuas no meu minibar. Mas o mundo a minha volta parou quando um livro aberto surgiu e:

– Dominique.

Fiquei feito estátua com caneta na mão e o coração socando o peito feito lutador de MMA, querendo sair e abraçar aquela pessoa, mesmo sem meus olhos me dar certeza de quem era. Não queria tomar coragem e levantar a cabeça. Queria tomar coragem para agir naturalmente e autografar, mas quando as pessoas atrás dela começaram a reclamar pela demora, respirei fundo e a encarei. Sim, era ela! Não era uma de minhas miragens. Meus olhos se arregalaram na hora e quase senti meu coração tentando rasgar meu peito para pular em seus braços. Não autografei. Escrevi a primeira coisa que me veio à mente: “Por favor, me liga! Pode ser a cobrar” e deixei o número do meu celular logo embaixo. Entreguei-lhe o livro. Ela abriu, olhou e sorriu. Olhou-me nos olhos, deu uma de suas típicas piscadelas e foi se afastando lentamente. Continuei autografando, agora mais rápido que antes, com o nitro ligado, os outros livros que iam colocando sobre a mesa e não tirava meus olhos dela, que estava perto da saída, me olhando e rindo da minha situação. Não sei se estava autografando bem ou corretamente, mas… Tirando o dos desenhistas, que sempre fazem uma carinha engraçada e bem bolada, já viu algum autógrafo bonito? Já recebi em letra de forma de um ídolo que encontrei bêbado! Então, o meu que não seria o primeiro, principalmente depois daquilo.

Dominique apoiou as costas na porta da livraria, tirou um pequeno bloco de notas da bolsa, escreveu algo e jogou na minha direção. Abri e estava escrito: “Fica tranquilo, estarei lá fora te esperando. Beijos”. Comecei a autografar e olhar para o relógio… Autografava e olhava para o relógio. Ainda eram dez e vinte. Droga! Ela podia fugir novamente e eu ali “perdendo meu tempo”. Tinha que continuar fazendo aquilo até as onze em ponto, como foi determinado pelo meu assessor e a Editora. Quando bateu dez e cinquenta e nove, levantei rápido:

– Onze horas gente, acabou por hoje, sinto muito. – balançava os braços no ar e sorria amistoso. – Minha mão já está doendo. – o que não deixava de ser verdade. Depois que adquiri meu notebook, perdi a prática e o costume.

Fui ziguezagueando às pressas entre a multidão que tentava me parabenizar pelo livro e as que saiam lentamente. Encontrei-a do lado de fora do Shopping, fumando seu filtro branco. Estava com o cabelo mais curto que o normal (batia nos ombros) e estava com prancha. Trajava jaqueta jeans, saia rodada de cor branca, e nos pés, sandálias da mesma cor da saia. Acendi meu cigarro enquanto me aproximava:

– Quanto tempo… – digo parando ao seu lado.

– Três anos. – diz sorrindo, olhando para o chão fixamente. Balançava o quadril para frente e para trás inquieta, era bem perceptível seu nervosismo.

Olhava-a daquele jeito ao meu lado. Como o tempo era bom para ela, cada vez mais linda. Eu já não era o mesmo, estava chegando aos meus trinta e com cara de trinta, enquanto ela estava com seus vinte e sete e com cara de vinte. Deve ser coisa de Deusa, sabe? O que sei é que estava mais linda do que da última vez que nos vimos.

– Mudamos nossos cortes. – comenta com risada baixa e gostosa, tentando puxar assunto.

– Pois é… Já estava na hora de largar o corte couve-flor. – brinco aos risos.

– Ficou bem assim com o cabelo baixinho. – finalmente me olhou, e na direção dos meus lábios. – Essa barba que realmente nunca deve tirar… Fica muito bem em você. – me olhou nos olhos.

Fomos tomados pelo silêncio. O nervosismo daquele momento nos fez acender um cigarro quase que ao mesmo tempo. Rimos ao olharmos um para o outro puxando o maço. Quando nossos olhares se chocaram, os sorrisos se fecharam em uma expressão séria e ao mesmo tempo triste. De repente me abraça forte, fazendo deixar cair o maço de cigarros no chão:

– Eu senti tanto a sua falta. – confessa antes de mim.

– Também… – a apertava bem em meus braços, não queria correr o risco de deixá-la fugir novamente. – Muito!

Sem me soltar, levanta a cabeça e me olha com os olhos marejados. Não resisti e a beijei. Nossa! Foi melhor do que todos os outros que já tinha recebido dela. Parecia que aquele exato momento, o céu nublado tinha aberto as nuvens negras como cortinas, para que a plateia de estrelas nos visse ali, juntos novamente. “Morra de inveja Lua, minha Deusa está de volta”.

Após o beijo mais lindo, peguei o maço de cigarros no chão:

– O que aconteceu naquele dia? – não resisti e deixei sair.

Passei três anos tentando descobrir o motivo. E qualquer coisa que pensasse ou especulasse, sabia que não devia ser nem a metade do que realmente poderia ser. Tinha que ouvir de sua boca, definitivamente! Chegou a hora!

– Temos muito que conversar. – deu-me selinho. – E prometo que não irei e nem quero fugir de novo.

Tinha tanta certeza no seu tom de voz, que não tinha como não acreditar.

– Estava me preparando para ir direto pra casa depois daqui. Tem umas garrafas de uísque me esperando lá pra comemorar. – tomo coragem e lanço a isca: – Não quer vir comigo?

– Tudo bem, vamos! – automaticamente. Pesquei!

Estava fantástico e parecia sonho. Aquilo tudo não podia ser possível, mas era. O jogo tinha acabado, mas tinha a sensação de que estávamos prestes a começar um novo. Ganhei meu Continue! Finalmente! E talvez nesse, nós seriamos quem dita o rumo desse nosso barco e toma as rédeas do destino. A canoa não vai virar!

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